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Future of MoneyCPTO
04/10/2026
5 min

A próxima fase da IA acontecerá nos bastidores das empresas

A pergunta para os executivos não é mais "como usar IA?", mas "quais partes da minha operação podem ser redesenhadas ao redor dela"

A próxima fase da IA acontecerá nos bastidores das empresas

Por José Cláudio Filho*

A internet chegou ao público na forma de sites, e-mails e buscadores. Depois, reorganizou cadeias de suprimento, logística e meios de pagamento. Olhando para trás, vemos que os grandes vencedores daquela era não foram os que criaram as melhores experiências digitais, mas os que mudaram a forma de operar.

Os smartphones seguiram uma lógica parecida. Primeiro encantaram consumidores com aplicativos, fotos, jogos e redes sociais, depois remodelaram setores inteiros, impulsionando novos negócios em mobilidade, delivery, serviços financeiros e comércio digital. A computação em nuvem também foi além da tecnologia e se tornou a base operacional de empresas de todos os setores.

Agora, a inteligência artificial parece seguir uma trajetória semelhante. A primeira fase popularizou os robôs de conversa e aumentou a produtividade individual. Agora, a tecnologia começa a avançar para um território menos visível e bem mais transformador: os processos que fazem a empresa funcionar por dentro.

Essa mudança fica mais clara com a evolução dos agentes de IA. Diferentemente dos copilotos, que ampliam a capacidade das pessoas, os agentes vão além e executam, consultam sistemas, leem documentos, aplicam as regras da empresa e conduzem tarefas do início ao fim.

40% dos programas virão com IA embutida

Parece uma mudança pequena, mas é profunda. E aqui vale um cuidado que quase sempre se perde no debate: autonomia não é um botão de liga e desliga, existem níveis. Alguns agentes só dão apoio, outros agem, mas pedem aprovação a cada passo, outros trabalham sozinhos e só devolvem o caso para um humano nos momentos delicados. E um grupo menor faz tudo de ponta a ponta. Misturar esses níveis é a origem de boa parte da frustração e de riscos que dariam para evitar o que vemos nas empresas.

Os números ajudam a medir esse movimento e, mais do que isso, mostram onde ele trava. O Gartner projeta que, até o fim de 2026, 40% dos programas usados pelas empresas já virão com agentes de IA embutidos. Ao mesmo tempo, só 5% das organizações consideram seus processos preparados para isso. O erro, muitas vezes, não está na tecnologia, mas na tentativa de automatizar processos que nunca foram revisados.

Na área financeira, a vontade já existe. Segundo o BCG, 88% dos CFOs tratam a IA como prioridade e 96% esperam um impacto grande ou transformador. A expectativa é que a tecnologia reduza tarefas repetitivas e permita que as equipes se concentrem em atividades de maior valor. O desafio é mais organizacional do que tecnológico. No coração dos sistemas, o efeito é igualmente concreto, o Gartner projeta fechamentos contábeis até 30% mais rápidos até 2028 com sistemas de gestão na nuvem e IA integrada.

Não é coincidência que os maiores ganhos tendem a aparecer em áreas como financeiro, compliance, jurídico, compras, contabilidade e RH. São setores que lidam diariamente com grandes volumes de informações, documentos, aprovações e tarefas repetitivas, o que cria um ambiente propício para automação.

Avanço na eficiência dos processos internos

Embora recebam menos atenção do que as aplicações voltadas ao cliente, é justamente nos bastidores que a IA vem gerando alguns dos maiores ganhos de eficiência. Estudos mostram que empresas mais avançadas conseguem reduzir significativamente custos operacionais, acelerar processos e liberar suas equipes para atividades de maior valor estratégico.

E já existe um caminho concreto lá fora, o que consideramos o mais animador de tudo. O JPMorgan poupou 360 mil horas de revisão jurídica por ano dos advogados ao ler seus contratos de crédito com IA. A IBM resolve 94% dos pedidos de RH sem nenhuma intervenção humana, depois de desligar o e-mail e o telefone globais da área. A Vodafone conduz 90% de suas concorrências por um portal autônomo de sourcing e cortou 30% do tempo de compra. Casos que demonstram o poder da IA, aliada, claro, a um reajuste dos processos antes da sua automatização.

A discussão já não é apenas sobre fazer mais rápido ou gastar menos. Conforme a IA assume tarefas mais importantes, as empresas precisam conseguir explicar como cada decisão foi tomada. Não basta automatizar, é preciso garantir transparência e supervisão humana para colher o valor da IA de forma duradoura.

Falta de controle dos projetos

Essa combinação de eficiência e controle será decisiva. O Gartner estima que mais de 40% dos projetos com agentes de IA poderão ser cancelados até 2027, porque o retorno não fica claro e faltam regras de controle. O relatório AI in Professional Services, da Thomson Reuters, reforça o ponto, mostrando que apenas 18% das organizações medem o retorno financeiro das ferramentas que usam.

Ao observar os dados compilados pelo Radar de Startups do inovabra fica a sensação de que é justamente por isso que tantos projetos de IA não avançam. As empresas que obtêm melhores resultados normalmente começam pelos processos mais adequados para automação, revisam a forma como o trabalho é realizado antes de aplicar a tecnologia e acompanham de perto os resultados alcançados. No fim, o sucesso não é medido pela quantidade de usuários, mas pelos ganhos reais que ela gera para a operação.

Talvez, por isso, a pergunta para os executivos não seja mais "como usar IA?", mas "quais partes da minha operação podem ser redesenhadas ao redor dela e que eu consiga auditar depois?". A primeira fase da IA tornou as pessoas mais produtivas. A segunda, apostamos, tende a tornar as empresas mais eficientes, resilientes e difíceis de copiar.

*José Cláudio Filho é gerente de Inteligência de Negócios e Inovação do Bradesco

AutorDa Redação
FonteExame
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