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Sacre Investimentos
InternacionalACS
31/08/2026
6 min

A receita de um dos maiores economistas do mundo para investir com juros altos, guerras e intervenções

Para o investidor que acompanha o cenário global, as palavras de Mohamed El-Erian deixam uma lição: a era das apostas genéricas ficou para trás — lucrar exigirá identificar com precisão as oportunidades

A receita de um dos maiores economistas do mundo para investir com juros altos, guerras e intervenções

Quem olha apenas para os índices acionários nesta segunda-feira (31) pode ter a falsa impressão de que os mercados globais navegam em águas relativamente calmas. Mas Mohamed El-Erian, um dos economistas mais respeitados do planeta, aproveitou sua participação no Macro Day, evento promovido pelo BTG Pactual, para fazer um alerta aos investidores: a resiliência da superfície esconde tensões profundas. 

Em um cenário marcado por guerras, juros elevados e intervenções em mercados cambiais e de dívida — com destaque para os movimentos dos EUA e do Japão —, El-Erian desenhou o mapa da economia global e deixou um conselho para um portfólio saudável: a construção da carteira de investimentos hoje exige um nível extra de cautela e precisão.  

"A construção de portfólio deve ser feita com cuidado, porque podemos ter um anúncio amanhã de novas tarifas e de novas sanções", disse El-Erian em bate-papo com André Esteves, chairman e sócio sênior do BTG Pactual.  

No entanto, em meio aos riscos, El-Erian enxerga uma janela extraordinária de oportunidade, mas que exige disciplina rigorosa. "É preciso ser muito seletivo e preciso [na hora de montar uma carteira de investimentos]", afirmou.   

As três camadas da economia global 

Para explicar a complexidade do momento atual, El-Erian dividiu a economia global em três níveis de profundidade — a percepção do investidor, segundo ele, muda drasticamente dependendo da camada que se escolhe observar.  

O primeiro nível é a superfície da economia global, na qual o panorama parece promissor.  

"Na superfície a gente vê uma economia muito resiliente, que absorveu choque depois de choque. A inflação está relativamente contida e não temos uma crise financeira."  

Do lado dos mercados, os lucros corporativos sobem, a revolução da inteligência artificial (IA) é real e as bolsas continuam em alta.  

Ao mergulhar um pouco, o cenário muda. Segundo El-Erian, vemos uma tensão clara entre a alta demanda por capital e a escassez na oferta; as moedas refletem o atrito (como a tensão EUA-China e as intervenções do Japão). 

"Esse é um mundo que não está tão estável como a gente pensa", afirmou.  

No nível mais profundo, onde o próprio economista afirma se posicionar agora, é simplesmente impossível definir como será o ponto de chegada. Não há certezas sobre a velocidade da adoção da IA e a geopolítica surge como uma incógnita imprevisível. 

"Dependendo do nível que você olha, você está muito bullish [otimista] ou não", disse. 

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Os EUA e o castelo de areia de US$ 40 trilhões 

A necessidade de uma carteira bem balanceada surgiu na avaliação de El-Erian sobre economias desenvolvidas e emergentes. Ao analisar os EUA, ele utilizou uma metáfora para ilustrar o risco fiscal da maior economia do mundo.  

"Imagine que você leva seu filho à praia no Rio de Janeiro e faz uma montanha de areia para ele. Você começa a colocar mais areia em cima e nada acontece. Mas, de repente, aqueles grãos pequenos de areia começam a pesar sobre a montanha e ela desaba." 

Para o economista, o fato de a dívida dos EUA atingir a marca de US$ 40 trilhões não foi uma surpresa completa — a verdadeira surpresa foi a velocidade da escalada, saltando de US$ 20 trilhões para US$ 30 trilhões em menos de dez anos. 

Questionado por Esteves sobre a disparada recente dos Treasurys, El-Erian disse que a percepção sobre os títulos do Tesouro norte-americano mudou.  

"Não são mais considerados tão confiáveis quanto antes", disse ele, acrescentando que "a China foi embora e o Japão, cada vez que intervém no câmbio, vende títulos norte-americanos para obter liquidez, gerando um cenário de muita oferta, pouca demanda e juros altos nos EUA".  

Em vez de promover uma consolidação fiscal, o Tesouro dos EUA resolveu intervir no mercado de títulos públicos, o que El-Erian classificou como um grande erro. 

Ele relembrou que, no passado, esses títulos eram usados para normalizar as condições financeiras. Agora, são utilizados para buscar resultados econômicos diretos, fazendo com que o Banco Central vire "the only game in town" (o único jogo na cidade). 

A consequência em longo prazo é inevitável: embora acredite em um retorno à normalidade, El-Erian projeta que os EUA perderão influência.  

"Investidores já promovem uma diversificação fora dos ativos norte-americanos, migrando para mercados emergentes, ouro e outras alternativas — uma transição que beneficia países como o Brasil, mas altera profundamente a dinâmica do sistema financeiro global", afirma.  

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Japão: um 'fracasso coordenado' 

A análise sobre o Japão foi severa. El-Erian classificou a condução econômica atual do país como "um fracasso coordenado". 

Segundo o economista, existe um impasse triplo travado entre os agentes locais: o Banco do Japão (BOJ, o banco central do país) sabe que precisa elevar as taxas de juros, mas reconhece que, se fizer isso isoladamente, terá problemas; a equipe econômica compreende a gravidade do quadro, mas não consegue implementar a consolidação fiscal necessária; e a primeira-ministra rejeita a consolidação fiscal devido ao alto custo político. 

Enquanto isso, a estratégia de vender títulos da dívida norte-americana para sustentar o iene no mercado de câmbio continua inflando o problema global. 

"A política atual do Japão é um fracasso coordenado. Eles poderiam resolver o problema do câmbio e dos juros agora, mas estão adiando. Inevitavelmente terão que agir em algum momento", afirmou.  

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O paradoxo chinês 

Por fim, El-Erian diagnosticou duas grandes inconsistências na China — uma de ordem doméstica e outra internacional. 

De um lado, o país exibe um setor de tecnologia incrível e uma indústria voltada à exportação que sustenta superávits gigantescos, mesmo diante do avanço do protecionismo global. Do outro, a demanda interna chinesa é extremamente fraca e incapaz de absorver toda a oferta gerada. 

Para o economista, a China atingiu um patamar de extrema relevância global, mas suas decisões ainda são limitadas.  "A China está em um momento de importância no mundo, mas a mentalidade ainda é doméstica". 

AutorCarolina Gama
FonteSeu Dinheiro
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