A relação Brasil-EUA em números: comércio, investimento e o que está em jogo

Após a China, os EUA são o principal parceiro comercial do Brasil. Em 2024, as exportações brasileiras para o país totalizaram US$ 40,3 bilhões, o que corresponde a cerca de 12% do total exportado. Enquanto isso, importamos US$ 40,3 bilhões em bens americanos, ou 15,5% do total. No ano seguinte, com o tarifaço, nossas exportações recuaram 6,6%, somando US$ 37,7 bilhões — em contrapartida, as importações de produtos americanos cresceram mais de 11% no ano passado, batendo os US$ 45,2 bilhões.
Com a queda nas exportações e o aumento desproporcional das importações, o Brasil encerrou 2025 com um déficit de mais de US$ 7 bilhões na balança comercial com os EUA, de acordo com números divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Esses resultados são um reflexo direto do tarifaço imposto pela administração do presidente americano, Donald Trump. Apesar de terem sido removidas em sua maioria, seus impactos ainda reverberam na economia brasileira e resultaram em um ano de perdas comerciais no comércio com os EUA.
Agora, com o Brasil sob investigação americana de acordo com os termos da Seção 301, o risco de novas tarifas de 25% sobre uma miríade de produtos brasileiros paira no horizonte. Apesar do tempo para a formulação de uma resposta, com o prazo no dia 15, a simples ameaça já afeta o mercado de exportações, já que produtores brasileiros agem com cautela, esperando um cenário mais concreto para evitar operar de maneira ineficiente.Mesmo assim, o Investimento Estrangeiro Direto, especialmente de firmas americanas no Brasil, pode ajudar a mitigar os impactos das possíveis tarifas.
Investimento Estrangeiro Direto
Investimento Estrangeiro Direto no Brasil é protagonizado pelos EUA e pode ser um porto seguro financeiro à luz das tarifas de Trump ( user3222645/Freepik)
Além das exportações, o Brasil é um solo fértil para o investimento estrangeiro direto (IED). Em 2024, nos tornamos o terceiro maior destino global na categoria, atrás apenas dos EUA e da China, com US$ 1,14 trilhão investido, de acordo com levantamento do Banco Central.
Nesse âmbito, os EUA são a origem da maior parte dos investimentos, respondendo por cerca de um terço de todo o IED no Brasil, superando os US$ 300 bilhões — cerca de R$ 1,7 trilhão — em estoques acumulados, apuram especialistas da Amcham, a maior câmara de comércio americano fora dos EUA.
Esses investimentos são diversificados e abrangem uma vasta gama de setores, sendo, assim, relativamente inafetados pelos prospectos tarifários da Seção 301. Segundo a Amcham, grande parte desses aportes tem como destino o setor financeiro e de seguros, seguido pelos setores de manufatura, alimentos e bebidas, e automóveis e maquinário. Nos últimos anos, o interesse em tecnologia e data centers também vem crescendo. Isso realça uma característica do IED americano no Brasil: o favorecimento de indústrias de serviços de alta complexidade.
Todavia, nem mesmo o IED está livre de pressões americanas. As novas tarifas coincidem com aclassificação americana das organizações criminosas do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como terroristas internacionais, o que pode reduzir o apelo que o Brasil tem para multinacionais, não necessariamente por perder valor comercial, mas devido à intensa legislação em torno da classificação, o que pode prejudicar a operação dessas empresas no Brasil.
Além disso, de maneira semelhante aos exportadores em relação às tarifas, essas classificações, ainda incertas em seu desdobramento, podem fazer com que multinacionais ajam com cautela enquanto esperam um veredito mais concreto.
