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Sacre Investimentos
EmpresasACS
29/07/2026
10 min

A Smart Fit (SMFT3) era queridinha do mercado e sentiu a carga com aumento da concorrência, mas ainda pode levantar até 83% na bolsa

Concorrência, TotalPass e cenário macro afetam a ação. Entenda o que sustenta a preferência dos bancos — e quais riscos ameaçam a tese

A Smart Fit (SMFT3) era queridinha do mercado e sentiu a carga com aumento da concorrência, mas ainda pode levantar até 83% na bolsa

Por muito tempo, a Smart Fit (SMFT3) foi unanimidade entre investidores e analistas. No entanto, o mercado de academias passou por mudanças profundas nos últimos tempos, que abalaram a tese.

A concorrência acirrada, preocupações com o TotalPass e até o cenário macroeconômico estão afetando o papel. Mesmo assim, a percepção continua positiva. Veja os gatilhos que podem fazer a ação subir até 80% e quais os riscos que continuam no radar.

A rede de academias, com 2.113 unidades em 16 países, é uma das ações preferidas do varejo entre gestoras e grandes bancos. É a “top pick”, ou ação preferida, do varejo para BTG, Citi e Santander, por exemplo.

"A maior parte dos fundos carrega ou já carregou essa ação", diz Lucas Alves Lusitano Esteves, head de varejo do Santander.

Além da marca principal, a empresa também atua na ponta mais premium com sua marca Bio Ritmo e com o agregador TotalPass.

Também tem 186 estúdios, 87% como franquias, como Aera Pilates, Vidya Studio, Tonus Gym, Velocity, Kore, Jab House e Race Bootcamp, recentemente reunidos em uma única plataforma, BEON Studios.

A empresa irá divulgar seus resultados do segundo trimestre no dia 5 de agosto.

O que afeta as ações da Smart Fit?

Desde o ano passado, alguns fatores têm afetado a percepção dos investidores sobre a tese da Smart Fit. Nos últimos 12 meses, as ações recuam 0,95%, mas desde o começo do ano elas já perdem 14,25% do valor. Enquanto isso, o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, subiu 30,96% em 12 meses e 8,53% desde o começo de 2026.

A saída do Pátria Investimentos do quadro societário da empresa é um desses fatores. Em fevereiro, o fundo zerou sua posição após cerca de 15 anos como acionista da rede de academias. Ele já vinha diminuindo sua fatia de 12,9% há alguns meses.

Além disso, no início de julho, o Norges Bank, fundo soberano da Noruega, reduziu sua fatia para 4,99%. Entre os principais acionistas agora figuram a família Corona, fundadora da Smart Fit, com 14,9%; o fundo de previdência pública do Canadá, com 12,1%; e o fundo soberano de Cingapura, com uma fatia de 5%.

A empresa também trocou de liderança: o fundador Edgard Corona tomou um assento no conselho, deixando o cargo de CEO para seu filho, Diogo Corona.

No entanto, analistas ouvidos por Seu Dinheiro dizem que essas movimentações já eram esperadas e não afetaram tanto os papéis.

Para Rodrigo Franca Leme Gastim, analista do setor de consumo e varejo do Itaú BBA, a queda da Smart Fit está relacionada ao ambiente macroeconômico. Com juros altos e incerteza geopolítica, ações do varejo costumam sofrer mais, como nesse caso.

Além disso, ela não é favorecida pelo fluxo de investidores estrangeiros na bolsa. A maior parte dos investidores são locais, diz Esteves, do Santander.

Norte-americanos, por exemplo, têm um pé atrás em investimentos em redes de academias, diz ele. Um exemplo de ação do setor é a Planet Fitness. A ação da rede de academias norte-americana já perdeu 50% do seu valor em 12 meses depois que a empresa revelou dificuldades em aumentar o número de clientes e decidiu pausar o aumento nos preços das mensalidades.

Concorrência mais forte

Outro ponto de atenção é o aumento da concorrência. Quando a empresa fez sua abertura de capital em 2021, ela praticamente nadava em um oceano azul.

"A tese da Smart Fit era de aumento de penetração e expansão da rede própria. Quanto mais ela entrasse no mercado, melhor seria a proposta de valor para o usuário, o que traria ainda mais pessoas, um efeito de rede", diz Esteves.

Desde então, porém, o cenário mudou. Diversas concorrentes fortaleceram a expansão com a mesma proposta de valor. O modelo high value, low price virou quase uma commodity, dizem os analistas.

A Panobianco, com 430 unidades em funcionamento, é uma delas, com foco em ganho de escala e de participação de mercado, principalmente entre a classe C.

Bluefit, Skyfit e Selfit são outros casos. A Academia Gaviões, com 100 unidades, é bastante conhecida entre marombeiros por funcionar 24 horas por dia. Com mais de cinco décadas de atuação, recentemente entrou em um novo nicho: treinos rápidos, com a Fast Treino.

Segundo cálculos do Santander, considerando os anúncios públicos já feitos por essas redes, a Smart Fit verá 400 a 500 novas unidades rivais entrando no mercado no próximo ano.

Além disso, as academias butique chamam a atenção, pelo nível de serviço. Acompanhamento individualizado, ambientes agradáveis, DJs, vestiários com produtos premium e foco em bem-estar, mais do que alcançar um shape específico, fazem parte do pacote.

A VICCI Studio, por exemplo, custa R$ 7 mil por mês. The Simple Gym e Silva Gym também atraem o cliente em busca de um treino diferenciado.

Wellhub vs. TotalPass

Outra ameaça veio de um novo modelo de negócios: os agregadores.

Criado em 2012 como Gympass e mais tarde rebatizado de Wellhub, o negócio busca flexibilizar o acesso a academias. Ao adaptar o negócio como um benefício corporativo, revolucionou o mercado oferecendo acesso a milhares de academias, estúdios de pilates, unidades de spinning com uma única mensalidade.

As empresas e os usuários pagam para ter o benefício. Já a academia recebe por número de check-ins. "Transforma uma academia vazia em receita na veia", diz Sophia Prado, sócia da boutique de M&A Fortezza Partners, que participou de uma operação no setor recentemente.

Isso obrigou a Smart Fit a se movimentar. Em 2016, a companhia criou o TotalPass, que hoje já tem 34 mil unidades parceiras no Brasil e 9 mil no México. A plataforma tem 34% de market share no Brasil.

Ainda que o crescimento do TotalPass seja essencial para a empresa não perder a disputa com o Wellhub, o receio do mercado é em relação à perda de rentabilidade do grupo.

A Smart Fit registrou uma receita de R$ 2,1 bilhões no primeiro trimestre do ano, alta de 25% na base anual.

Mas, deste total, apenas R$ 192,9 milhões vêm da divisão de "outros negócios", que inclui desde os royalties recebidos de franquias no Brasil e no exterior (exceto México), até o TotalPass Brasil, Queima Diária e Studios, além de FitMaster e TotalPass México.

Ou seja, todos esses negócios representam apenas 9,2% da receita total do grupo.

Além disso, o agregador já está tirando clientes das academias. “Embora a base de clientes apresente uma redução de 2% em relação ao 1T25 (no Brasil), esse movimento reflete, principalmente, o aumento da representatividade dos acessos (check-ins) dos usuários do TotalPass", disse a empresa em seu release de resultados.

"O TotalPass era apenas um slide de toda a história da Smart Fit. Hoje está crescendo muito rapidamente, mais até que a rede própria", afirma Esteves, do Santander.

E o receio dessa perda de lucratividade contaminou os números da companhia na bolsa de valores.

Mudança de visão com o TotalPass

No entanto, hoje a visão é outra: com o aumento da competição entre as academias, o TotalPass acaba sendo um diferencial competitivo importante para a Smart Fit e está contribuindo positivamente para o lucro.

Há um ponto que ainda tem sido ignorado. Prado destaca que, embora a receita por cliente seja menor, a rede não tem praticamente nenhum custo por check-in.

Enquanto para a abertura de uma unidade é preciso alugar um espaço, investir em uma reforma, comprar equipamentos e contratar funcionários, incluir uma nova rede em um agregador tem um custo bem menor.

"Decidiram verticalizar a operação, e foi uma aposta muito inteligente. Você começa a monetizar o negócio de outra maneira e torna o business mais rentável, com menor necessidade de capital intensivo", afirma Gastim, do Itaú BBA.

A monetização do TotalPass está "avançando na direção correta", diz o BTG Pactual. O ticket mensal médio ponderado do TotalPass Brasil alcançou R$ 182, maior do que a mensalidade da Smart Fit, diz o banco.

Para o Citi, é uma avenida importante para aumentar a lucratividade da empresa. "Entramos no trimestre com uma visão construtiva, apoiada principalmente pelo forte impulso do TotalPass", disse o banco em relatório.

Avenidas de crescimento

O TotalPass ainda tem diversas formas de se expandir. Pequenas e médias empresas, além do interior do país, são mercados a serem explorados. Prado também acredita que há espaço para crescer mesmo em contratos já fechados. Nem todos os funcionários elegíveis ao benefício acabam se tornando clientes.

Se por um lado o TotalPass aumenta a rentabilidade da Smart Fit, por outro prejudica as redes menores, já que é mais difícil fidelizar o cliente. Assim, a receita cai e sua dependência de fontes externas de clientes — e de receita — aumenta.

Segundo os analistas consultados por Seu Dinheiro, em muitos casos os agregadores já representam mais de 30% das receitas das academias menores, podendo chegar a 50% em alguns casos. Com mais dificuldade em se rentabilizar, as redes menores reavaliam seus planos de expansão, o que ajuda a Smart Fit.

Claro, há alguns riscos na expansão desse modelo. Um deles é a lotação das academias ou perda de qualidade ao incluir unidades que não ofereçam um bom padrão de qualidade.

Outro risco é que a rentabilização desse negócio decepcione as expectativas do mercado, diz o Santander.

Outra avenida de crescimento é a baixa utilização de academias entre a população adulta. Embora em alguns nichos a prática de musculação seja mais forte, hoje apenas cerca de 7% dos adultos frequentam alguma academia. Em outros mercados, como nos Estados Unidos, pode chegar a 20%.

"Naturalmente a competição é ruim. Mas, como é um mercado que cresce a duplo dígito ano contra ano, há uma amenizada. Há bastante espaço para o crescimento do negócio", afirma Gastim.

A ação SMTF3 está barata?

Na comparação com seus pares no varejo, não. O papel é negociado a um múltiplo de 11 vezes a relação entre o preço da ação e o lucro (P/L), enquanto outras estão em patamares de 7 a 8 vezes.

Apesar disso, há um ano, os múltiplos da companhia eram bem maiores e chegaram a encostar em 20 vezes preço por lucro.

Em momentos de instabilidade, investidores buscam empresas mais bem estabelecidas. Como a tese é de crescimento, a Smart Fit sofre mais. Além disso, com valuation maior do que de outras empresas, ela não entra no radar daqueles que buscam oportunidades de comprar barato.

O potencial de alta, porém, é relevante, na opinião dos analistas. Para o BTG, o preço-alvo é de R$ 31. Citi tem preço-alvo de R$ 34, Santander, de R$ 35 e Itaú BBA, de R$ 36. Isso representa um potencial de ganhos de 57,8% a 83,2%, segundo o preço do último fechamento.

Riscos e gatilhos negativos

Nem tudo são flores. A empresa também pode sofrer com câimbras de crescimento.

A operação no México ainda aparece como o ponto de atenção e incerteza da tese. O país segue pressionando os resultados da companhia, com queda de 5% na receita por academia em 2025 e redução de 7% no número de alunos por unidade madura. As margens também perderam força.

Outro gatilho negativo para a ação é a força de expansão da concorrência. A dependência de sinais de melhora no cenário macro também deve desanimar investidores a apostarem no papel.

AutorKarin Salomão
FonteSeu Dinheiro
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