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Sacre Investimentos
NegóciosMPOLBDR
24/10/2026
8 min

A startup que trocou viagens à Disney por Pix e já movimentou R$ 1 bilhão

Fundada por duas executivas do varejo, a Cashin modernizou o pagamento de prêmios a vendedores e agora busca até R$ 20 milhões para crescer com inteligência artificial

A startup que trocou viagens à Disney por Pix e já movimentou R$ 1 bilhão
RESUMO +

A startup de gestão de premiações Cashin movimentou R$ 250 milhões em transações em 2025, alta de 66,6%, e ficou em sétimo lugar no ranking EXAME Negócios em Expansão 2026 em sua categoria. A receita contábil auditada cresceu 57,4%, para R$ 4,6 milhões. Agora, a Cashin prepara uma Série A de até R$ 20 milhões para expandir o negócio e desenvolver ferramentas de inteligência artificial.

Bater a meta de vendas depois de um ano inteiro de trabalho e ganhar uma viagem para a Disney como recompensa parece um ótimo negócio. Mas nem sempre é. Para quem está com a conta de luz atrasada, talvez fosse mais interessante receber o dinheiro e decidir o que fazer com ele.

“A empresa dava uma viagem para a Disney como superprêmio, mas o funcionário ligava para o RH dizendo que não tinha dólares para gastar lá e que precisava, na verdade, pagar a conta de luz atrasada”, conta Nani Gordon, vice-presidente e cofundadora da Cashin.

Foi para resolver situações como essa que Gordon e Luciana Ramos criaram a startup, especializada em ajudar empresas a administrar campanhas de incentivo e pagar premiações a vendedores.

O negócio ganhou escala. Em 2025, a Cashin movimentou R$ 250 milhões em transações, crescimento de 66,6% em relação ao ano anterior. Sua receita contábil auditada passou de R$ 2,9 milhões para R$ 4,6 milhões, avanço de 57,4%, desempenho que garantiu à empresa a sétima posição no ranking EXAME Negócios em Expansão 2026, na categoria de R$ 2 milhões a R$ 5 milhões.

Agora, a startup prepara uma rodada de investimentos de até R$ 20 milhões para acelerar o crescimento e desenvolver ferramentas de inteligência artificial.

Como duas executivas do varejo criaram a Cashin

A ideia nasceu de um problema antigo das grandes indústrias. Para estimular as vendas, essas companhias costumavam oferecer prêmios a representantes comerciais, distribuidores e balconistas que atingissem determinadas metas.

O problema começava na hora de entregar a recompensa. Muitas empresas dependiam de planilhas, vales em papel e cartões-presente de lojas específicas. Além da demora, o vendedor nem sempre tinha liberdade para escolher como utilizar o prêmio.

Luciana conhecia essa realidade. Atual CEO da Cashin, construiu carreira em empresas como M5, dona da M.Officer, C&A e Riachuelo. Também liderou uma holding em Hong Kong e administrou redes multimarcas no Brasil.

Nani seguiu uma trajetória igualmente ligada ao varejo. Passou dez anos na M5, onde chegou à diretoria de produto. Atuou em operações na China, Índia, Paris e Nova York antes de se mudar para os Estados Unidos, onde estudou gestão na Kellogg School of Management e na DePaul University e trabalhou na startup BucketFeet, em Chicago. Também fundou a Oola, marca de moda esportiva voltada ao público muçulmano no Qatar.

Quando se reencontraram no Brasil, em 2018, decidiram unir experiências para criar uma solução digital de premiações.

Desde o início, a proposta era tornar o recebimento de prêmios tão simples quanto usar um aplicativo de compras. A plataforma ganhou uma identidade visual colorida, bem diferente dos sistemas bancários tradicionais.

“Enquanto os bancos legados apostavam no visual clínico e corporativo, nós viemos do varejo com uma interface colorida e simples. Até hoje nosso SAC recebe ligações de usuários dizendo 'cliquei no botão rosa para transferir meu Pix'. A simplicidade visual virou um dos maiores ativos da marca”, afirma Gordon.

Como a Cashin ganha dinheiro

O funcionamento da Cashin fica mais fácil de entender com um exemplo. Uma indústria farmacêutica quer aumentar as vendas de determinado medicamento e decide premiar os balconistas que atingirem uma meta. É aí que a startup entra: organiza as regras da campanha, acompanha os resultados e realiza os pagamentos.

A diferença está no destino do dinheiro. Em vez de receber um vale-compras de uma loja específica, o vendedor pode transferir o valor por Pix ou TED, pagar boletos, utilizar cartões físicos ou virtuais ou fazer compras com QR Code.

Também pode escolher cartões-presente de mais de 100 parceiros, incluindo a Shopee, além de acessar o marketplace da Vertem.

A Cashin ganha dinheiro com o licenciamento de seus sistemas de gestão, incluindo o Cashin Engaje e soluções personalizadas para empresas. Também cobra uma taxa sobre as premiações movimentadas, historicamente entre 5% e 15%, e recebe comissões de parceiros comerciais.

Seu foco é diferente do de empresas como Caju e Flash, conhecidas pelos benefícios oferecidos a funcionários. A Cashin atende principalmente campanhas comerciais que envolvem representantes autônomos, distribuidores e vendedores terceirizados.

Com o tempo, a tecnologia passou a atender outras necessidades. Uma delas é o pagamento de reembolsos e despesas corporativas por Pix em lote. Outra é o pagamento de comissões imobiliárias.

Essa última frente surgiu por iniciativa de Carla Pontes, sócia e investidora da startup, que identificou a oportunidade ao assumir uma posição executiva no Grupo Marquise. Um projeto-piloto com a incorporadora deu origem a uma solução que automatiza a divisão de comissões entre corretores e pode ser integrada a sistemas de gestão imobiliária, como o CV.

Há ainda uma preocupação menos visível, mas importante para grandes empresas: a segurança jurídica. A plataforma registra metas, resultados e pagamentos, criando um histórico que facilita auditorias e ajuda a comprovar a natureza das premiações.

Por que a startup quer captar R$ 20 milhões

A Cashin começou com recursos próprios e depois recebeu um aporte de R$ 7 milhões liderado pela Bertha Capital/Thales e pelo fundo WE Impact, voltado a negócios com liderança feminina.

A empresa afirma ter alcançado o equilíbrio financeiro e acumulado mais de R$ 1 bilhão em transações desde o início das operações. Hoje, reúne 250 mil usuários ativos no Brasil.

O faturamento bruto global, diferente da receita contábil utilizada no ranking da EXAME, passou de R$ 13 milhões em 2024 para R$ 15 milhões em 2025. A expectativa é chegar a até R$ 19 milhões neste ano.

O próximo passo é resolver um problema que ainda atrasa as premiações: descobrir quem realmente atingiu as metas.

Em grandes indústrias, os resultados das campanhas podem estar espalhados por centenas de distribuidores. Reunir essas informações e calcular os valores devidos chega a levar 30 dias após o encerramento de uma campanha.

Para encurtar esse processo, a Cashin desenvolve uma ferramenta que combina cinco modelos de inteligência artificial. A tecnologia deverá acompanhar as vendas em tempo real, identificar produtos com melhor ou pior desempenho, calcular o retorno das campanhas e enviar estímulos personalizados aos vendedores.

A ideia é permitir que as empresas ajustem suas estratégias enquanto a campanha ainda está acontecendo, em vez de descobrir os resultados apenas no final.

Para financiar essa expansão, a startup contratou a ACE Advisors e prepara uma rodada Série A entre R$ 15 milhões e R$ 20 milhões. A meta é dobrar o faturamento bruto global em 2027.

O que 171 mil premiações revelam sobre os brasileiros

Além de administrar pagamentos, a Cashin passou a estudar como as pessoas utilizam o dinheiro recebido.

Entre janeiro e agosto de 2026, a empresa analisou 171 mil premiações, que movimentaram R$ 89,4 milhões. Os resultados deram origem ao estudo "Report Gerações & Incentivo", que compara os hábitos da Geração Z e dos Millennials, em diálogo com uma pesquisa global da Deloitte.

A principal conclusão é que, independentemente da idade, a maioria prefere receber dinheiro diretamente.

Entre os integrantes da Geração Z, 51,1% dos valores foram resgatados por Pix ou TED. Nos Millennials, essa participação chegou a 57,6%.

As diferenças aparecem nas compras. Os mais jovens utilizam proporcionalmente mais cupons e cartões-presente, modalidade que representa 27,7% de seus resgates, quase o dobro dos 14,4% registrados entre os Millennials. Já as compras com cartão têm maior participação entre os Millennials, com 14,2%, ante 9,5% na Geração Z.

Outras modalidades, como pagamento de boletos, QR Code e compras em marketplaces, apresentaram participações menores e semelhantes entre os grupos.

Mas o dado mais curioso remete à história da viagem para a Disney. Do total recebido pela Geração Z, R$ 853 mil foram utilizados para pagar contas básicas e dívidas. Entre os Millennials, o valor chegou a R$ 2,6 milhões.

Os números ajudam a explicar por que a liberdade de escolha se tornou parte central do negócio. Para algumas pessoas, uma recompensa representa a oportunidade de comprar algo especial. Para outras, significa simplesmente colocar as contas em dia.

Em um mercado no qual, segundo a Cashin, os investimentos corporativos em campanhas de incentivo cresceram 66% no último ano, a startup aposta que essa flexibilidade, combinada à tecnologia, será decisiva para conquistar novos clientes.

No fim, a proposta é simples: um prêmio só funciona de verdade quando faz sentido para quem o recebe. E, para alguém preocupado com a conta de luz, talvez a melhor recompensa não seja uma viagem para a Disney.

O que é o ranking Negócios em Expansão

O ranking EXAME Negócios em Expansão é uma iniciativa da EXAME e do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME).

O objetivo é encontrar as empresas emergentes brasileiras com as maiores taxas de crescimento de receita operacional líquida ao longo de 12 meses.

Em 2026, a pesquisa avaliou as empresas que mais conseguiram expandir receitas ao longo de 2025.

São 491 empresas que criam produtos e soluções inovadoras, conquistam mercados e empregam milhares de brasileiros.

Conheça o hub do projeto, com os resultados completos do ranking e, também, a cobertura do evento de lançamento da edição 2026.

AutorLeo Branco
FonteExame
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