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Sacre Investimentos
Future of MoneyCPTO
06/09/2026
6 min

A tokenização foi só o começo, agora é digitalizar o crédito privado

Ofertas precisam estar em blockchain da existência e validação do lastro até a liquidação final da operação

A tokenização foi só o começo, agora é digitalizar o crédito privado

Por Rodrigo Caggiano*

Nos últimos anos, a tokenização ganhou espaço no mercado de capitais brasileiro. A promessa era clara: transformar ativos financeiros em representações digitais, facilitar sua distribuição, ampliar o acesso e tornar operações mais eficientes.

Esse movimento foi importante. Mas estamos chegando a uma nova etapa. Tokenizar a distribuição resolve apenas uma parte do problema.

Podemos transformar uma debênture, uma nota comercial ou um recebível em token. Podemos permitir que investidores tenham uma experiência completamente digital para acessar esses ativos. Mas, se por trás dessa distribuição continuarmos dependendo de processos fragmentados, conciliações manuais, troca de arquivos, múltiplos sistemas e verificações realizadas depois dos acontecimentos, teremos digitalizado a ponta sem transformar a infraestrutura.

É como construir uma interface nova sobre processos antigos.

A próxima evolução do mercado não será simplesmente colocar mais ativos em blockchain. Será digitalizar a jornada completa do crédito privado, desde a existência e validação do lastro até a liquidação final da operação.

Da representação para a automação

Durante a primeira fase da tokenização, blockchain foi utilizada principalmente como uma camada de representação. Existe um ativo no mundo tradicional e criamos uma representação digital dele em blockchain.

Agora começamos a avançar para algo muito mais interessante: utilizar blockchain e smart contracts como infraestrutura para executar as regras do próprio ativo.

Uma debênture possui regras: taxa de remuneração, vencimentos, amortizações, garantias, covenants, eventos de pagamento, condições de elegibilidade, obrigações do emissor e diferentes eventos ao longo de sua vida. Por que essas regras precisam continuar espalhadas entre documentos, planilhas, sistemas e processos manuais?

Um smart contract pode deixar de ser simplesmente o registro de que determinada debênture existe e passar a carregar parte da lógica operacional dessa debênture. Saímos da representação digital de um instrumento financeiro para a criação de instrumentos financeiros programáveis.

Blockchain é apenas uma parte dessa nova infraestrutura

Blockchain sozinha não conhece o mundo real.

Ela não sabe se uma duplicata existe, se determinado recebível foi registrado, quem é seu titular, se uma garantia possui algum gravame ou se determinado evento ocorreu fora da rede. É por isso que a digitalização do crédito privado depende da conexão entre blockchain e as infraestruturas que já sustentam o mercado financeiro.

Registradoras, escrituradores, bancos, custodiantes, agentes fiduciários, sistemas de pagamento e fontes oficiais de informação passam a fazer parte de uma nova arquitetura.

As registradoras são especialmente importantes nesse processo. Quando conseguimos conectar dados confiáveis sobre existência, titularidade e situação dos ativos às regras programáveis de uma operação, criamos algo muito mais poderoso do que simplesmente um token.

Criamos uma infraestrutura em que dados do mundo real podem determinar o comportamento de instrumentos financeiros digitais.

Imagine uma operação de crédito lastreada em recebíveis. O ativo é originado. Sua existência é validada em uma fonte confiável. Um motor verifica as regras de elegibilidade, concentração, prazo, valor e características do lastro. O ativo elegível é vinculado à operação. A garantia pode ser registrada. O recurso é liberado. Os pagamentos são conciliados. Os investidores recebem conforme as regras estabelecidas. Cada evento relevante gera um histórico verificável da operação.

Nesse cenário, blockchain deixa de ser apenas uma camada de distribuição. Ela passa a funcionar como um dos rails de execução do mercado de capitais.

O movimento da Anbima aponta nessa direção

Um dos sinais mais interessantes dessa evolução está nos experimentos que o próprio mercado brasileiro vem realizando.

Iniciativas envolvendo tokenização e ciclo de vida de instrumentos financeiros começam a provocar uma discussão muito mais relevante do que simplesmente emitir tokens. A pergunta passa a ser: por que apenas representar um ativo existente se podemos tornar seu ciclo de vida programável?

Quando começamos a discutir smart contracts para automatizar eventos de uma debênture, fundos tokenizados e processos que hoje dependem de diferentes sistemas e intermediários, entramos em uma nova fase.

Não estamos mais falando apenas sobre tokenização. Estamos falando sobre infraestrutura digital para o mercado de capitais. E isso muda completamente o tamanho da oportunidade.

O verdadeiro ganho está antes e depois da distribuição

Durante muito tempo, grande parte da narrativa sobre tokenização esteve concentrada na distribuição: fracionar ativos, ampliar acesso, criar novos canais de investimento e melhorar a experiência do investidor.

Tudo isso continua relevante.

Mas talvez os maiores ganhos de eficiência estejam justamente onde o investidor não enxerga: na originação, na validação do lastro, na comprovação de titularidade, na estruturação, no registro das garantias, na execução das regras da operação, na conciliação, nos pagamentos, no monitoramento e no reporte.

É nessa infraestrutura que ainda existe grande parte do custo operacional e do risco do crédito privado.
A primeira fase foi a tokenização dos ativos. A próxima será a programabilidade dos ativos e dos fluxos financeiros associados a eles.

De ativos tokenizados para mercados programáveis

Quando conectamos registradoras, dados oficiais, instituições financeiras, sistemas de pagamento e blockchain, podemos começar a imaginar uma infraestrutura em que os diferentes participantes compartilham uma mesma lógica operacional.

O recebível deixa de ser apenas um documento ou registro consultado durante uma operação. Ele passa a ser um dado capaz de alimentar regras automaticamente.

A garantia deixa de ser apenas uma cláusula contratual. Ela passa a participar de uma infraestrutura digital de monitoramento e execução.

A debênture deixa de ser apenas um documento representado por um token. Ela começa a se tornar um instrumento financeiro programável.

E os fundos tokenizados podem avançar pelo mesmo caminho, automatizando partes do ciclo de vida, da elegibilidade dos ativos aos eventos financeiros e ao acompanhamento da carteira.

Esse é o verdadeiro potencial da tecnologia: não substituir todo o mercado existente por blockchain, mas conectar blockchain à infraestrutura financeira existente e utilizar software para transformar processos fragmentados em jornadas digitais, integradas e programáveis.

A tokenização mostrou que ativos financeiros podem existir em uma nova infraestrutura digital. Agora precisamos dar o próximo passo. Não basta tokenizar o ativo. Precisamos digitalizar a operação.

Quando isso acontecer, talvez até paremos de falar tanto em tokenização. Falaremos simplesmente de um mercado de capitais em que ativos, garantias, regras e dinheiro conversam entre si. Um mercado de capitais verdadeiramente programável.

*Rodrigo Caggiano é fundador da Capitare e do RWA Monitor

AutorDa Redação
FonteExame
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