Ações da Ânima Educação desabam mais de 30% com compra da FMU

As ações da Ânima Educação (ANIM3) desabam nos negócios desta quarta-feira, 15. Os papéis, que não fazem parte da carteira do Ibovespa, recuavam 31% por volta das 15h (horário de Brasília). A baixa inédita é consequência da compra da FMU pela companhia. A Ânima vai desembolsar R$ 410 milhões na operação e assumir uma dívida líquida de R$ 150 milhões da faculdade, que está em recuperação judicial. A aquisição recebeu uma série de avaliações negativas de analistas que acompanham a empresa.
BTG corta recomendação e preço-alvo
O BTG Pactual rebaixou a recomendação para as ações da Ânima de compra para neutra. O banco cortou o preço-alvo de R$ 7 para R$ 4 por ação. Os analistas apontam que o enterprise value (valor de aquisição mais dívida) da transação equivale a dez anos de geração de caixa da FMU no ritmo atual. É um múltiplo bem acima do que a própria Ânima negocia hoje na bolsa, de cerca de 3,3 vezes o Ebitda.
Para o banco, o problema não é só o preço, mas a mudança no roteiro que sustentava a recomendação de compra. Desde a integração da Laureate, a tese de investimento na Ânima vinha se apoiando em geração consistente de caixa livre, maior capacidade de distribuir dividendos e alocação de capital mais disciplinada. Ao comprometer parte desse caixa e elevar a alavancagem — de 2,39 para 2,73 vezes dívida líquida sobre Ebitda —, a aquisição da FMU coloca em xeque justamente esses pilares, pontua o BTG.
'Literalmente uma recompra'
O Citi destacou que a transação é literalmente uma recompra. A Ânima vendeu a FMU para o fundo Farallon por R$ 500 milhões em 2021, quando adquiriu dele os ativos da Laureate. O banco entende que essa característica "pode levantar questionamentos dos investidores". Para os analistas, integrar um ativo deficitário que está em recuperação judicial é considerado desafiador. Além disso, o aumento de endividamento é visto como algo indesejado num ambiente de juros altos.
O BTG nota que a aquisição reacende um boato recorrente no mercado: o de que a Farallon teria uma opção de venda contra a Ânima.
É o chamado put: um contrato que dá ao fundo o direito de vender a FMU à Ânima em algum momento no futuro, a um preço já combinado desde 2020. Nesse caso, o preço travado seria o mesmo múltiplo usado na compra da Laureate. A Ânima nega a existência dessa opção. Diz que a compra de agora foi uma negociação independente, fechada nas condições divulgadas.
Ainda assim, o BTG observa que o múltiplo pago pela FMU agora é praticamente o mesmo pago pelos ativos da Laureate em 2020 — 10,7 vezes o Ebitda —, mesmo com os juros reais no Brasil cerca de 4,5 pontos percentuais mais altos hoje.
Para os analistas, um programa de recompra de ações ou a compra de uma concorrente listada em bolsa, com prêmio, teriam sido alternativas mais baratas para alocar o mesmo capital.
A EXAME pediu posicionamento diretamente a Ânima sobre as análises, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem.
Safra vê otimismo moderado
O Safra vê a compra da FMU com um pouco mais de otimismo. O banco manteve recomendação de compra para as ações da Ânima. Os analistas admitem que o preço pago parece alto à primeira vista. Mas dizem que, se a empresa conseguir elevar a rentabilidade da FMU ao nível das demais unidades da Ânima, o negócio se tornaria bem mais barato do que aparenta agora.
O banco também destaca que o formato do acordo protege a Ânima: parte do pagamento só aumenta se a FMU realmente performar bem, o que limita o risco para a compradora. O aumento de dívida da empresa é visto como administrável.
