Ações podem perder até 30% com a reeleição de Lula, diz Morgan Stanley
Banco vê dólar entre R$ 5,50 e R$ 5,70, com risco de R$ 6, e alta de até 4 pontos nos juros futuros; no pior cenário, Ibovespa vai a 130 mil pontos

A bolsa brasileira pode perder até 30% do valor nas próximas semanas com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. A projeção é do Morgan Stanley, que espera uma queda de 20% a 30% nas ações, com forte diferença entre setores, à medida que o mercado deixa de apostar em uma mudança de rumo na política fiscal.
A reação começou logo na abertura desta segunda-feira, 26. A queda do Ibovespa levou a B3 a acionar o circuit breaker e suspender as negociações por 30 minutos.
Lula foi reeleito no domingo, 25, com 51,8% dos votos válidos, contra 48,2% de Flávio Bolsonaro (PL). O resultado surpreendeu o mercado: segundo o banco, as pesquisas da última semana apontavam vantagem média de 1,3 ponto percentual para Flávio, e Lula venceu por 3,6 pontos.
Na sexta-feira, último pregão antes da votação, a bolsa fechou em alta e o dólar ficou abaixo de R$ 5, com investidores posicionados para uma vitória do senador.
Lucros resistem, mas as ações ficam mais baratas
A tese do Morgan Stanley não está numa queda dos lucros das empresas. O banco espera poucas revisões nas estimativas de lucro para 2027, sustentadas principalmente por exportadoras e bancos. O problema está no quanto os investidores aceitam pagar por esses lucros.
Esse preço é medido pelo índice preço/lucro (P/L), que indica quantos anos de lucro o investidor paga ao comprar uma ação. Em 23 de outubro, a bolsa brasileira negociava a 9,6 vezes. No cenário pessimista do banco, o múltiplo cairia para 6,2 vezes até meados de 2027, o equivalente a 130 mil pontos no Ibovespa.
A compressão seria maior nas empresas ligadas à economia doméstica. O P/L dos bancos cairia de 10,4 para 5 vezes. O das empresas domésticas fora do setor financeiro, de 14,3 para 9 vezes. Só o das empresas de commodities subiria levemente, de 5,7 para 6 vezes.
Para o banco, o ajuste inicial deve ser uma forte redução de risco, mas o desafio vai além da reação imediata. Os analistas apontam desequilíbrios estruturais difíceis de reverter, como um modelo econômico baseado em dívida que inibe o investimento privado. Segundo o relatório, o pagamento de juros da dívida pública equivale a 10% do PIB.
Dólar e juros devem subir em etapas
No câmbio e nos juros, o Morgan Stanley projeta uma piora em etapas. A primeira seria a devolução do otimismo que se seguiu ao primeiro turno, quando o mercado reduziu o prêmio cobrado pelo risco fiscal.
Nessa fase, o dólar testaria R$ 5,50. Os juros futuros, que refletem a expectativa do mercado para a Selic, subiriam cerca de 2 pontos percentuais, e a taxa do contrato com vencimento em janeiro de 2029 iria a 14,5%.
Na segunda etapa, o mercado passaria a embutir nos preços um prêmio pelo risco fiscal. O dólar avançaria para R$ 5,60 a R$ 5,70, e os juros futuros subiriam mais 1 ponto, para 15,5%.
O movimento pode ser acelerado por um fator sazonal. Em novembro e dezembro, a remessa de dividendos e a saída de recursos de empresas costumam pressionar o real.
Se o novo governo não sinalizar compromisso com o ajuste fiscal nas próximas semanas, o banco vê espaço para o cenário mais pessimista, com dólar a R$ 6 e juros futuros de 2029 a 16,5%. Nesse caso, o mercado passaria a precificar alta da Selic, e uma intervenção do Banco Central no câmbio se tornaria mais provável.
O pior cenário corresponde ao que os economistas chamam de dominância fiscal: quando a inflação passa a responder mais à política fiscal do que aos juros do Banco Central. Segundo o banco, os ativos brasileiros só precificaram esse risco duas vezes nos últimos 20 anos, em 2015 e 2016 e em dezembro de 2024.
Por enquanto, o Morgan Stanley mantém a expectativa de corte de 0,25 ponto na Selic na reunião do Copom de 4 de novembro, para 13,50% ao ano. No exterior, o banco prevê alta de cerca de 0,4 ponto no CDS de cinco anos, o seguro contra calote do Brasil, e de 0,5 ponto no prêmio dos títulos da dívida brasileira em dólar.
A conta das promessas de campanha
O foco agora está na agenda fiscal e na escolha do ministro da Fazenda. Não há data definida, mas, em 2022, Lula anunciou o nome em dezembro.
O desafio é grande porque o país entra em 2027 com dívida em alta e mais de 91% dos gastos obrigatórios, segundo o banco. Além disso, medidas anunciadas durante a campanha terão de caber no orçamento:
- Bolsa Família: o reajuste do benefício deve elevar os gastos em R$ 22,7 bilhões em 2027.
- Proibição das bets: pode reduzir a arrecadação em cerca de R$ 5,26 bilhões.
- Desenrola 3.0: prevê R$ 15 bilhões em compromissos, dos quais R$ 5 bilhões em 2027.
- Medidas para microempreendedores individuais (MEIs): custo estimado de R$ 3,3 bilhões entre perda de receita e novos gastos.
Com esses gastos e a desaceleração da economia, o banco vê risco de o déficit primário de 2027 superar a projeção de 0,7% do PIB. No cenário de ajuste adiado e superficial, a dívida bruta chegaria a 106% do PIB em 2035.
| Indicador | 2025 | 2026* | 2027 pessimista | 2027 base | 2027 otimista |
|---|---|---|---|---|---|
| PIB | 2,3% | 2,0% | 0,9% | 1,2% | 1,5% |
| Inflação (fim do ano) | 4,3% | 5,0% | 5,0% | 4,0% | 3,8% |
| Selic | 15,00% | 13,25% | 15,50% | 11,25% | 9,75% |
| Desemprego (média) | 5,9% | 5,5% | 6,7% | 6,7% | 6,7% |
| Dívida bruta (% do PIB) | 78,6% | 82,7% | 87,8% | 86,9% | 85,4% |
*Projeção. Fonte: Morgan Stanley
O banco também lista medidas estruturais que poderiam melhorar as contas públicas. Entre elas estão a revisão das emendas parlamentares, com impacto de R$ 49 bilhões em um ano, e o fim da isenção de imposto de renda de LCI, LCA, CRI e CRA, que renderia R$ 33 bilhões. Uma reforma administrativa economizaria R$ 300 bilhões em dez anos.
Um Congresso mais à direita
Qualquer reforma estrutural dependerá do Congresso, que ficou mais à direita. A partir de 2027, o PT terá 79 cadeiras somando Câmara e Senado, contra 149 do PL, principal partido de oposição. Nos estados, 18 governadores eleitos são de direita e quatro de esquerda.
Os próximos marcos no calendário são a reunião do Copom de 4 de novembro, a posse do presidente em 5 de janeiro e a posse do novo Congresso em 1º de fevereiro. Até lá, segundo o Morgan Stanley, o nome do ministro da Fazenda e a credibilidade do ajuste fiscal devem definir se a correção dos ativos para na primeira etapa ou avança para o pior cenário.
