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InvestMercados
23/06/2026
6 min

Ações rendem menos em tempos de Copa, diz estudo — mas o motivo não é o futebol

Ações rendem menos em tempos de Copa, diz estudo — mas o motivo não é o futebol

A cada quatro anos, como de costume, a Copa do Mundo movimenta torcedores em todo o planeta que param o que estão fazendo para acompanhar os jogos pela TV. Uma pesquisa da Economatica se propôs a entender o quanto esse comportamento, junto com a euforia do mundial, impactam o mercado financeiro. E a conclusão é de que a emoção fica muito mais concentrada no esporte do que nos investimentos.

O levantamento analisou o comportamento de 14 índices globais entre 2014 e 2026, comparando os sete meses em que houve Copa do Mundo — junho e julho de 2014, junho e julho de 2018, novembro e dezembro de 2022 e junho de 2026 — com cerca de 148 meses sem o torneio. Na média, o retorno das ações foi 4,97% durante as Copas, abaixo dos 7,07% observados nos demais meses do período.

Mas o que futebol tem a ver com isso? Pouca coisa. O desempenho das bolsas durante os Mundiais está muito mais ligado ao cenário econômico global do que ao futebol em si.

Em outras palavras, os dados não sustentam a existência de um "efeito Copa" consistente sobre as bolsas. O que aparece nos números é a influência de fatores como ciclos de juros, crescimento econômico, liquidez global e apetite ao risco.

Rússia 2018 foi a melhor Copa para os mercados

Se existisse uma Copa capaz de convencer investidores de que futebol impulsiona bolsas, seria a da Rússia.

Nos meses de junho e julho de 2018, os principais índices globais registraram retorno médio de 10,57% e 12,02%, respectivamente, o melhor desempenho entre todas as edições analisadas. Em julho, 12 dos 13 índices acompanhados (um índice não existia ainda nesse período) fecharam em alta.

À primeira vista, o resultado poderia sugerir um impacto positivo do torneio. A leitura mais cuidadosa dos dados, porém, aponta para outra direção.

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O forte desempenho dos mercados já vinha sendo observado meses antes do início da competição. Abril e maio de 2018 apresentaram retornos médios ainda maiores, de 16,8% e 12,43%, respectivamente, refletindo um ambiente de bull market global.

Ou seja, a Copa aconteceu em meio a um ciclo já favorável para os ativos de risco — e não foi a responsável por ele.

Brasil 2014: futebol não superou as incertezas econômicas

A Copa realizada no Brasil apresentou um comportamento bem mais modesto.

Junho e julho de 2014 registraram retornos médios de 1,75% e 0,67%, respectivamente. Embora positivos, os números ficaram longe de indicar qualquer euforia financeira associada ao evento.

Na época, investidores estavam mais preocupados com a desaceleração da economia brasileira, a deterioração da confiança e a proximidade das eleições presidenciais do que com os jogos da seleção.
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O próprio comportamento dos índices mostra isso. Enquanto junho registrou dez bolsas em alta entre as 13 analisadas (um índice ainda não existia nesse período), julho terminou praticamente dividido, com seis índices positivos e sete negativos.

O resultado sugere que os mercados continuaram reagindo principalmente aos fatores econômicos e políticos já conhecidos.

Qatar 2022 coincidiu com uma virada dos mercados

A edição do Qatar oferece talvez o exemplo mais claro de como correlação não significa causalidade.

Após um dos anos mais difíceis para os mercados globais, marcado pela disparada da inflação e pelo ciclo agressivo de alta de juros liderado pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano), os índices chegaram à Copa acumulando perdas expressivas.

Em setembro de 2022, o retorno médio das bolsas analisadas foi de -4,29%. Em outubro, de -1,28%.

Durante a Copa, porém, os mercados reagiram. Novembro registrou alta média de 6,12%, enquanto dezembro avançou 3,16%.

O movimento poderia ser interpretado como um efeito positivo do torneio. No entanto, a recuperação coincidiu com uma mudança de percepção dos investidores sobre o ritmo de aperto monetário nos Estados Unidos. A expectativa de que o Fed desaceleraria as altas de juros foi o principal catalisador da melhora dos ativos naquele período.

A própria mediana negativa de dezembro indica que a recuperação não foi generalizada. Alguns mercados específicos, como o argentino, puxaram a média para cima, enquanto boa parte dos índices continuou enfrentando dificuldades.

Copa de 2026 ainda é cedo para qualquer conclusão

A atual edição, realizada nos Estados Unidos, Canadá e México, ainda está em andamento.

Até junho, único mês disponível na amostra, o retorno médio dos índices globais era de apenas 0,5%, com sete mercados em alta e nenhum em queda.

O desempenho ocorre após um forte rali observado entre fevereiro e maio de 2026, período marcado pelo alívio das tensões geopolíticas e pela expectativa de cortes de juros nos Estados Unidos.

Assim como em 2018, o contexto macroeconômico parece ser o fator determinante para os mercados.

O que os números realmente mostram

O aspecto mais interessante do estudo talvez não seja o desempenho das bolsas durante as Copas, mas justamente a ausência de um padrão.

Cada edição ocorreu em um ambiente econômico completamente diferente:

  • Em 2014, predominavam as incertezas sobre a economia brasileira;
  • Em 2018, os mercados viviam um bull market global;
  • Em 2022, o foco estava na inflação e nos juros;
  • Em 2026, o debate gira em torno do ciclo de flexibilização monetária e da recuperação dos ativos.

Essa diversidade de cenários ajuda a explicar por que os resultados são tão distintos entre uma Copa e outra.

Mais do que criar tendências próprias, o Mundial parece funcionar apenas como pano de fundo para movimentos que já estavam em curso.

Futebol emociona; macroeconomia move as bolsas

A conclusão da Economatica é direta: não há evidências de um "efeito Copa do Mundo" sistemático sobre os mercados financeiros.

Embora algumas edições tenham coincidido com períodos de forte valorização das bolsas, os dados indicam que os retornos foram determinados principalmente por fatores macroeconômicos, e não pelo calendário esportivo.

Para o investidor, a lição é simples. A Copa pode parar países, mobilizar bilhões de torcedores e gerar histórias memoráveis dentro de campo. Fora dele, porém, quem continua decidindo o rumo das bolsas são os juros, a inflação, o crescimento econômico e a liquidez global.

AutorRebecca Crepaldi
FonteExame
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