Acordo bilionário e gasto com IA: o que esperar do balanço da Meta no 3º tri
Entenda por que o lucro da 'big tech' deve encolher pela metade mesmo com a receita em alta

- Meta divulga o balanço do 3º trimestre nesta quarta-feira, 21, após o fechamento em Nova York, com teleconferência às 17h30 (de Brasília)
- Consenso da Bloomberg aponta lucro por ação de US$ 3,56, pressionado por uma provisão de cerca de US$ 10 bilhões ligada ao acordo sobre segurança infantil nos EUA
- Receita esperada de US$ 63,3 bilhões fica a menos de US$ 600 milhões do teto do guidance, o que eleva a barra para uma surpresa positiva
- Muse ainda não deve pesar na receita do trimestre, mas os primeiros dados de assinantes são aguardados na teleconferência
- Sinalização de investimentos para 2027 é o número mais esperado e deve repercutir em Nvidia, CoreWeave, Nebius e na cadeia de infraestrutura de IA
A Meta abre nesta quarta-feira, 21, a temporada de balanços das big techs com um resultado que deve trazer receita forte e lucro bem menor. A dona de Facebook, Instagram e WhatsApp divulga os números do 3º trimestre após o fechamento do mercado em Nova York e fala com analistas às 17h30, no horário de Brasília.
O consenso da Bloomberg aponta receita de US$ 63,3 bilhões e lucro por ação de US$ 3,56. Na comparação com o mesmo período de 2025, o LPA ajustado havia sido de US$ 7,25, o que indica uma queda de cerca de 51%.
Outras bases de dados mostram projeções de lucro por ação entre US$ 5,89 e US$ 6,54, porque nem todos os analistas já incorporaram a provisão do acordo judicial com estados americanos sobre segurança infantil. Segundo cálculos de mercado, a despesa equivale a cerca de US$ 3,90 por ação. O Bank of America projeta LPA de US$ 3,79 e a Bernstein, de US$ 3,95, ambos considerando o efeito da provisão.
O acordo bilionário que pesa no lucro
A provisão vem do acordo que a Meta fechou em 26 de agosto com procuradores-gerais estaduais dos Estados Unidos. O processo, que estava em julgamento na Justiça Federal em Oakland, na Califórnia, foi movido por 29 estados que acusavam a empresa de projetar Facebook e Instagram para viciar menores e de coletar ilegalmente dados de crianças.
A Meta se comprometeu a pagar até US$ 16,68 bilhões aos estados, sem admitir irregularidades. Com outros acordos incluídos, a empresa estima o valor total em cerca de US$ 18 bilhões, a ser pago ao longo de dez anos. Desse montante, US$ 12,7 bilhões são garantidos, e cerca de US$ 5,3 bilhões dependem de concorrentes como YouTube e TikTok adotarem restrições semelhantes. A cláusula empurra as rivais para o mesmo modelo de regras. O acordo também prevê limites diários de uso e bloqueios noturnos para adolescentes, além de verificação de idade mais rigorosa.
Na época, a Meta informou que reconheceria uma despesa legal de aproximadamente US$ 10 bilhões no 3º trimestre, valor que não estava em suas projeções financeiras. A tendência é que a provisão apareça na linha de despesas gerais e administrativas, onde a companhia registrou os US$ 2,4 bilhões em encargos legais do 2º trimestre. A despesa reduz o lucro operacional e o lucro líquido do período, mas não sai do caixa de uma vez, já que os pagamentos serão diluídos ao longo da década.
O efeito é grande. A Bernstein projeta lucro antes de juros e impostos de US$ 11,3 bilhões para o trimestre, contra uma média de mercado de US$ 19 bilhões. Os investidores também vão observar se a empresa revisará a projeção de despesas totais para 2026, hoje entre US$ 165 bilhões e US$ 169 bilhões.
Consenso de receita colado no teto do guidance
Em julho, ao divulgar o balanço do 2º trimestre, a Meta projetou receita entre US$ 61 bilhões e US$ 64 bilhões para o 3º trimestre, já descontado um efeito cambial negativo de cerca de 1%. O ponto médio, de US$ 62,5 bilhões, ficou abaixo dos US$ 63,1 bilhões que os analistas esperavam na época, segundo a LSEG.
Desde então, as estimativas subiram. O consenso atual, entre US$ 63,3 bilhões e US$ 63,4 bilhões, fica apenas US$ 580 milhões abaixo do limite superior da faixa. Algumas casas já projetam números no teto ou acima dele. O Deutsche Bank estima US$ 63,7 bilhões, o Bank of America, US$ 63,8 bilhões, a Rosenblatt, US$ 63,94 bilhões, e a Bernstein, US$ 64,06 bilhões.
O histórico sustenta a aposta. No 2º trimestre, a receita de US$ 60,8 bilhões ficou no topo da faixa projetada, de US$ 58 bilhões a US$ 61 bilhões. No 1º trimestre, os US$ 56,3 bilhões também encostaram no limite superior. A Meta superou as estimativas de receita da LSEG em todos os 12 trimestres entre o 3º trimestre de 2023 e o 2º trimestre de 2026.
Entregar uma receita dentro do guidance pode não ser suficiente para agradar. Um número abaixo de US$ 63 bilhões tende a ser lido como frustração, e só um resultado acima de US$ 64 bilhões representaria surpresa de fato.
Muse ainda não aparece na receita
O Muse, agente de inteligência artificial da Meta, foi lançado em 8 de setembro. Logo, o 3º trimestre captura só cerca de três semanas do produto. A versão Muse Wonder chegou depois do fechamento do período. A Bernstein não inclui a monetização do agente em suas projeções básicas e espera contribuição visível apenas em 2027.
Quando aparecer, a receita do Muse deve ser contabilizada em outras receitas da divisão Family of Apps, que reúne os aplicativos da empresa. Essa linha passou de US$ 1 bilhão pela primeira vez no 2º trimestre, com alta de 73%, puxada por mensagens pagas no WhatsApp e assinaturas. O agente tem uso gratuito e dois planos pagos, de US$ 20 e US$ 100 por mês.
No 3º trimestre, o Muse deve pesar mais nos custos. A Bernstein cita gastos com a promoção do produto e contratos de nuvem com terceiros como fatores de pressão sobre o lucro. No 2º trimestre, as despesas de marketing e vendas já haviam subido, principalmente por custos maiores com tokens de IA comprados de terceiros.
A adoção animou o mercado. O Muse superou 10 milhões de downloads nos EUA em 40 dias, segundo a Sensor Tower, e as ações da Meta acumulam alta de cerca de 37% desde o balanço de julho. O que os investidores querem ver agora são os primeiros indicadores financeiros, como a taxa de conversão para os planos pagos e a receita média por usuário. A Wells Fargo espera que a administração modere as expectativas de monetização no curto prazo.
Capex é o indicador que move a ação
O lucro do trimestre deve importar menos do que os investimentos. A Visible Alpha projeta capex de US$ 41,68 bilhões no 3º trimestre, mais que o dobro do registrado um ano antes. Para 2026, a Meta prevê entre US$ 130 bilhões e US$ 145 bilhões, faixa que já foi elevada em abril e estreitada em julho. O Bank of America espera que a empresa ajuste o intervalo para US$ 140 bilhões a US$ 145 bilhões.
A grande expectativa é a primeira sinalização para 2027. O consenso aponta cerca de US$ 193 bilhões. O Bank of America projeta US$ 205 bilhões e o JPMorgan, US$ 243 bilhões, alta de 70% sobre 2026.
O investimento pressiona a Meta por três caminhos. O primeiro é o caixa. No 2º trimestre, a empresa gerou US$ 31,86 bilhões com as operações, mas destinou US$ 31,08 bilhões ao capex, o que deixou apenas US$ 784 milhões de fluxo de caixa livre. O JPMorgan projeta fluxo de caixa livre negativo entre US$ 65 bilhões e US$ 70 bilhões em 2027 e 2028.
O segundo é o lucro futuro, porque o investimento de hoje vira depreciação nos próximos anos. O Morgan Stanley estima que as despesas com depreciação e amortização subam de cerca de US$ 31,5 bilhões em 2026 para US$ 59 bilhões em 2027. O terceiro são as projeções dos analistas. A Evercore ISI espera metas de capex e despesas acima do consenso, o que tornaria provável um corte nas estimativas de lucro para 2027.
Efeito em cadeia na infraestrutura de IA
O número de capex da Meta vai além da própria empresa. A companhia tem cerca de US$ 47 bilhões em contratos com CoreWeave e Nebius, empresas que alugam capacidade de computação para IA, além de uma garantia condicional de US$ 15 bilhões com a Nebius. A Nvidia também está exposta. O Prometheus, supercomputador da Meta em Ohio, usa centenas de milhares de chips da fabricante e mira a escala de um milhão.
O balanço sai num momento em que os investidores oscilam entre otimismo e preocupação com o endividamento da CoreWeave. Em uma análise de cenários, a CMS Investments avalia que um capex para 2027 abaixo de US$ 185 bilhões, ou a ausência de sinalização, provocaria alívio nas ações da Meta e quedas fortes em CoreWeave, Nebius, semicondutores e empresas de energia. Um número entre US$ 190 bilhões e US$ 205 bilhões, em linha com o esperado, deslocaria a atenção para as margens da Meta em 2027 e daria fôlego aos fornecedores.
Investimento alto pesa sobre a Meta no curto prazo, mas sustenta a demanda de toda a cadeia. O Morgan Stanley projeta que os aportes das maiores empresas de nuvem cheguem a cerca de US$ 1,2 trilhão em 2027.
