Acordo com UE abre janela de US$ 190 bi para tecnologia brasileira na moda

A entrada em vigor do pacto comercial entre Mercosul e União Europeia, desde 1º de maio, criou uma janela que vai além da exportação de roupas, calçados ou produtos industriais acabados. Para a cadeia brasileira do vestuário, a nova etapa também pode ampliar o espaço para um ativo menos visível, mas cada vez mais estratégico: a exportação de soluções aplicadas à manufatura, à automação, à rastreabilidade e à eficiência produtiva.
A EXAME conversou com Matheus Fagundes, CEO global da Audaces, sobre essa oportunidade gerada pela integração entre os dois blocos econômicos. Multinacional ítalo-brasileira hoje presente em mais de 120 países, a empresa tem sede fabril em Palhoça, na Grande Florianópolis, e inaugurou recentemente uma nova sede corporativa na capital catarinense, cidade onde foi fundada.
— O novo ambiente cria condições mais favoráveis para que empresas do Brasil exportem não apenas produtos, mas também tecnologia e conhecimento. Em um setor cada vez mais orientado por eficiência, sustentabilidade e dados, a capacidade de oferecer soluções que aumentem a produtividade e reduzam desperdícios pode se tornar um diferencial competitivo importante para o país — afirma Fagundes.
A fase inicial da integração comercial reduziu ou eliminou tarifas para mais de 5 mil linhas de produtos, o equivalente a 54,3% do total, e inseriu o Brasil em uma zona que reúne mais de 700 milhões de consumidores. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), mais de 80% dos produtos exportados pelo Brasil para a União Europeia passam a ter tarifa de importação zerada já neste primeiro momento.
A vitrine europeia tem peso industrial relevante. Segundo a Euratex, entidade que representa o setor no Velho Continente, a indústria de têxteis e vestuário da União Europeia movimenta aproximadamente US$ 190 bilhões por ano, reúne 1,2 milhão de trabalhadores e quase 200 mil empresas nos 27 países do bloco. É esse mercado, pressionado por importações asiáticas, novas exigências ambientais e necessidade de digitalização, que passa a enxergar fornecedores capazes de entregar eficiência, rastreabilidade e automação como parte da solução.
Para a cadeia brasileira do vestuário, o impacto não se limita ao preço final. As novas condições de acesso ao bloco exigem escala, previsibilidade, rastreabilidade e conformidade ambiental. É nesse ponto que empresas como a Audaces tentam transformar a experiência construída no Brasil em vantagem competitiva internacional.
Foco na liderança global
Criada em 1992 por Claudio Grando e Ricardo Cunha, então estudantes de ciência da computação, a empresa começou desenvolvendo soluções para o setor moveleiro, mas encontrou na confecção seu principal mercado. Três décadas depois, atua com software, hardware, inteligência artificial e automação para integrar vendas, desenvolvimento e produção de peças de vestuário.
A presença da Audaces dentro da cadeia produtiva nacional ajuda a explicar a meta de expansão. De cada 10 peças de vestuário produzidas no Brasil, sete passam, em algum momento, por alguma tecnologia desenvolvida pela empresa. Em um país que produziu cerca de 8,4 bilhões de peças em 2024, isso dá a dimensão do alcance da companhia dentro de uma das maiores estruturas industriais do setor no mundo.
Hoje, a Audaces atende mais de 100 mil profissionais diariamente e mira alcançar 70% do mercado mundial de tecnologias multiplataforma para a indústria da moda até 2030. O desafio é transformar a liderança construída no Brasil e na América Latina em presença dominante no cenário internacional.
Na prática, as soluções da empresa ajudam confecções a reduzir desperdício de matéria-prima, otimizar encaixe de moldes, acelerar o desenvolvimento de coleções e dar mais precisão à etapa de corte. A Audaces afirma que suas ferramentas podem reduzir perdas de insumos em até 20%, ganho relevante em uma atividade pressionada por custos, prazos curtos, concorrência asiática e exigências ambientais crescentes.
— Estamos diante de uma oportunidade de posicionar o Brasil como exportador de tecnologia para a produção global de vestuário. A combinação entre inovação, automação e inteligência artificial permite que as empresas atendam às exigências de mercados mais sofisticados e fortaleçam sua competitividade internacional de forma sustentável — diz Fagundes.
Passaporte de competitividade
A aproximação comercial ocorre em um momento delicado para a indústria brasileira de confecção. O setor encerrou 2025 com déficit comercial de aproximadamente US$ 5,9 bilhões, pressionado pelo avanço das importações, especialmente de países asiáticos.
Nesse cenário, competir apenas por preço se torna cada vez mais difícil. A disputa passa também por eficiência, diferenciação, produtividade e capacidade de comprovar a origem e o impacto ambiental da produção.
Na relação com a União Europeia, essa agenda ganha ainda mais peso. As chamadas cláusulas espelho e os requisitos ambientais europeus exigem que fornecedores de fora do bloco estejam submetidos a padrões semelhantes aos cobrados das empresas locais. Para marcas e confecções, isso significa acompanhar a origem de materiais, medir desperdícios, documentar etapas industriais e reduzir riscos associados a barreiras não tarifárias.
É justamente nesse ponto que a tecnologia passa a funcionar como passaporte de competitividade. Plataformas integradas permitem monitorar indicadores da cadeia produtiva desde as fases iniciais de desenvolvimento, criando bases de dados capazes de apoiar auditorias, certificações e decisões industriais.
Para Fagundes, a sustentabilidade deixou de ser um discurso reputacional e passou a fazer parte da equação econômica da produção.
— Liderar uma empresa global de tecnologia exige olhar constantemente para o futuro sem perder de vista aquilo que sustenta o negócio no presente. Aprendi que inovação, cultura organizacional e desenvolvimento das pessoas caminham juntos e são pilares para construir resultados consistentes — afirma.
De Santa Catarina para o mundo
A trajetória recente da Audaces traduz uma mudança mais ampla na economia catarinense. Santa Catarina, historicamente associada à força da produção de roupas e tecidos, também passou a abrigar empresas que desenvolvem soluções para a própria base industrial do setor.
Essa relação é direta. A companhia mantém estrutura fabril em Palhoça e inaugurou uma nova sede corporativa na capital catarinense, em um espaço concebido para aproximar criatividade, clientes, universidades, startups e distribuidores.
A expansão faz parte de um plano mais amplo de internacionalização. A Audaces pretende investir cerca de R$ 1 bilhão até 2030 em pesquisa e desenvolvimento, novos produtos, marketing, recursos humanos, presença externa e ampliação de market share. A meta da empresa é dobrar o faturamento e conquistar 70% do mercado mundial em tecnologias multiplataforma para a indústria da moda até o fim da década.
Em 2025, a companhia anunciou novos canais de distribuição na Colômbia e no México, reforçando a atuação na América Latina, e também na Índia, ampliando o alcance no mercado asiático.
A estratégia está ancorada no conceito de Indústria 5.0, uma visão em que a automação não substitui o ser humano, mas amplia sua capacidade produtiva. Enquanto os sistemas absorvem tarefas repetitivas, cálculos de precisão e etapas operacionais, profissionais de criação ganham mais tempo para criatividade, estética, curadoria e sensibilidade — atributos que seguem no centro da construção de marcas e produtos.
— A plataforma de soluções da Audaces, junto com equipes ainda mais próximas dos clientes, é a chave para entregar o valor que o mercado precisa. Alinhamento entre as unidades e eficiência operacional são demandas de uma indústria que busca competitividade e velocidade, como a da moda — afirma Fagundes.
Com mais de 20 anos de experiência nos setores de moda e tecnologia, o executivo assumiu a presidência global da empresa em 2024, depois de liderar frentes de expansão internacional. Para ele, a integração entre Mercosul e União Europeia reforça a tese de que companhias brasileiras podem disputar espaço em mercados sofisticados quando combinam conhecimento setorial, inovação e escala.
— Nos últimos anos, tive a oportunidade de acompanhar de perto a evolução da Audaces, primeiro em diferentes posições de liderança e, agora, como presidente global. Essa trajetória reforçou uma convicção importante: empresas crescem de forma sustentável quando conseguem combinar inovação, proximidade com as pessoas e decisões baseadas em dados — diz.
O desafio, agora, é transformar a aproximação comercial em presença efetiva. Para a cadeia brasileira do vestuário, isso significa vender mais do que peças. Significa vender inteligência aplicada à produção. E, para empresas como a Audaces, a nova relação entre os blocos pode funcionar como uma vitrine para mostrar que a indústria brasileira também tem tecnologia para vestir o mundo.
