Acordo nuclear de Trump com a Arábia Saudita acende alerta sobre nova corrida atômica
Novo estudo do think tank Council on Foreign Relations alerta sobre os riscos do novo tratado, e o que isso pode significar para o cenário nuclear do mundo

O governo do presidente Donald Trump anunciou, em 22 de julho, um acordo de cooperação nuclear civil entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita, que permitirá a exportação de tecnologia nuclear americana para o reino saudita.
O chamado acordo “123”, previsto pela legislação dos EUA, ainda precisa ser enviado ao Congresso para análise. Seu futuro imediato, porém, tornou-se incerto após Trump vincular o entendimento à adesão da Arábia Saudita aos Acordos de Abraão, que implicariam a normalização das relações com Israel, explica um estudo do think tank Council on Foreign Relations (CFR)
Segundo Erin Dumbacher, a autora do estudo, o acordo pode enfraquecer salvaguardas tradicionais destinadas a impedir o uso militar da tecnologia nuclear civil. O debate ocorre em um momento em que os pilares da ordem nuclear internacional liderada pelos Estados Unidos mostram sinais de desgaste, aponta o CFR.
A principal controvérsia reside no precedente que o acordo pode criar. Embora também seja visto como uma oportunidade para a indústria nuclear americana ampliar as exportações e fornecer energia de baixo carbono, críticos argumentam que o texto adota critérios menos rigorosos do que os exigidos historicamente por Washington.
Uma quebra de paradigma
Novo acordo com a Arábia Saudita quebra padrões e suscita medos entre observadores (YORICK JANSENS/Getty Images) (YORICK JANSENS/Getty Images/AFP)
Nos acordos anteriores, os EUA normalmente autorizavam o uso pacífico da tecnologia para geração de energia, medicina e pesquisa, mas não permitiam a instalação de instalações de enriquecimento de material nuclear no país parceiro.
O enriquecimento abaixo de cerca de 5% é suficiente para a produção de energia elétrica. Níveis mais altos podem abrir caminho para a fabricação de armas nucleares, razão pela qual a política americana tradicionalmente buscou restringir essa capacidade.
O caso dos Emirados Árabes Unidos é citado como referência. Em 2009, Abu Dhabi aceitou voluntariamente o regime de salvaguardas mais rigoroso, incluindo inspeções internacionais ampliadas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Todavia, Dumbacher alerta que o acordo com a Arábia Saudita não atende a esse padrão e parece preservar a possibilidade futura de enriquecimento de material fissível. Além disso, não inclui explicitamente o Protocolo Adicional da AIEA, considerado o mecanismo mais robusto de fiscalização internacional.
Outro ponto que gera dúvidas é a aparente preferência por salvaguardas bilaterais entre os EUA e a Arábia Saudita, em vez de inspeções internacionais abrangentes. Ainda não está claro como esse sistema funcionaria, nem se ofereceria o mesmo nível de confiança à região e à comunidade internacional.
O Congresso terá papel central na decisão. Após o envio formal do acordo, os parlamentares terão 90 dias úteis para analisá-lo, e apenas uma maioria qualificada, à prova de veto presidencial, poderia barrá-lo.
A vinculação do acordo à normalização saudita com Israel pode complicar sua tramitação no Capitólio, especialmente porque a próxima composição do Congresso será eleita nas eleições de meio de mandato de novembro.
Os defensores do entendimento destacam possíveis ganhos econômicos. Estimativas do setor apontam que o acordo poderia gerar cerca de 12,5 mil empregos nos Estados Unidos ao longo de 25 anos. Os críticos, porém, questionam por que a Arábia Saudita não aceitaria as mesmas salvaguardas adotadas por outros 144 países que aderiram ao Protocolo Adicional da AIEA.
Também há preocupação com um possível efeito em cascata. Se Riad obtiver condições mais flexíveis, outros parceiros dos EUA, como os Emirados Árabes Unidos, poderiam reivindicar tratamento semelhante em futuros acordos nucleares.
O CFR alerta que isso poderia ampliar o número de países com acesso a material nuclear sem os mecanismos de controle que ajudaram a limitar o número de potências nucleares a nove Estados.
Riscos com o Irã
O risco de estabelecer precedentes indesejáveis com o acordo nuclear entre os EUA e a Arábia Saudita é que as novas normas reverberem no conflito com o Irã (Foto de SEPAHNEWS.COM / AFP)
E o Irã é fator central nesse debate. Autoridades sauditas já declararam que, se Teerã avançar rumo à capacidade de fabricar armas nucleares, o reino buscará uma resposta equivalente.
Para o Dumbacher, o acordo pode representar uma estratégia de “proteção contra proliferação”, na qual a Arábia Saudita mantém aberta a opção de desenvolver capacidades nucleares mais avançadas caso o ambiente regional se deteriore.
A preocupação aumentou ainda mais após Riad firmar, em 2025, um pacto de defesa com o Paquistão, país que possui armas nucleares e não é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear, um importante mecanismo de controle dessas armas.
Esse entendimento alimenta especulações sobre a possibilidade de um guarda-chuva nuclear paquistanês para a Arábia Saudita, embora os detalhes do acordo não tenham sido divulgados publicamente.
Com isso, a análise defende que o Congresso examine cuidadosamente o texto completo do acordo, incluindo eventuais anexos confidenciais, com atenção especial ao modelo de inspeções bilaterais e às condições relativas ao enriquecimento de urânio.
Para os críticos, aprovar o acordo significaria acelerar o enfraquecimento das normas de não proliferação que os Estados Unidos ajudaram a construir ao longo de oito décadas. Para os defensores, rejeitá-lo pode reduzir a influência dos EUA sobre o programa nuclear saudita e abrir espaço a concorrentes estrangeiros no setor.
