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TecnologiaBDR
03/09/2026
6 min

Adoção de IA nas empresas brasileiras sobe para 50%, mas mas só 15% chegaram ao estágio avançado

Pesquisa da AWS com 2 mil brasileiros mostra adoção recorde — e uma prontidão de apenas 21% para a próxima onda de agentes autônomos

Adoção de IA nas empresas brasileiras sobe para 50%, mas mas só 15% chegaram ao estágio avançado

A adoção de inteligência artificial no Brasil passou de marco simbólico para maioria absoluta. Segundo o relatório Desbloqueando o Potencial da IA no Brasil — 2026, produzido pela consultoria Strand Partners para a Amazon Web Services (AWS), com base em pesquisa com mil líderes empresariais e mil cidadãos representativos do país, 50% das empresas brasileiras já usam IA — ante 40% no ano passado.

Na prática, mais de 2,75 milhões de empresas passaram a adotar a tecnologia em apenas 12 meses, um ritmo de mais de cinco novas adotantes por minuto.

Mas o dado mais revelador do estudo não é sobre quem já entrou no jogo, e sim sobre quem ainda não sabe jogar direito. A pesquisa mostra uma divisão nítida entre empresas que usam IA de forma básica e as que já conseguem extrair valor real e transformador da tecnologia, e o Brasil, como um todo, segue concentrado na primeira categoria.

A pesquisa foi conduzida pela Strand Partners para a AWS, seguindo diretrizes da Sociedade de Pesquisa de Mercado do Reino Unido e da Esomar. Foram ouvidos 1.000 líderes empresariais (fundadores, CEOs ou membros do C-suite), representativos por porte de empresa, setor e região, e 1.000 cidadãos com representatividade nacional por idade, gênero e região.

O funil do lucro

Entre as empresas que já adotaram IA, a maioria ainda está no degrau mais baixo da escada:

Adoção básica — 58%: usam chatbots públicos ou soluções prontas para tarefas de rotina, buscando eficiência incremental, não inovação. (Era 62% no ano passado, uma leve migração para estágios mais avançados.)

Adoção intermediária — 27%: já integraram IA aos próprios produtos e serviços oferecidos a clientes.

Adoção avançada — apenas 15%: usam sistemas de IA combinando múltiplos modelos, IA agêntica ou soluções personalizadas. (12% no ano passado.)

As startups disparam na frente nesse funil: 68% já adotaram IA (ante 53% no ano anterior), e 26% delas já estão no estágio avançado, contra apenas 13% das PMEs e 9% das grandes empresas. Também são as startups que mais lançam produtos com IA embarcada (48%, ante 31%) e mais contratam talento dedicado ao tema (49%, ante 37%).

A próxima onda já bate à porta, e o Brasil não está pronto

O capítulo mais desconfortável do relatório é sobre IA agêntica, sistemas que tomam decisões e executam tarefas com autonomia. Apenas 26% das empresas brasileiras já ouviram falar do conceito. Dessas, só 6% implementaram totalmente a tecnologia, e 31% estão em fase de teste.

O gargalo de prontidão é generalizado: apenas 21% das empresas se sentem totalmente ou muito preparadas para adotar tecnologias como a IA agêntica, contra 41% das startups. Do lado oposto, 42% dizem estar pouco ou nada preparadas. As três barreiras mais citadas:

46% — escassez de habilidades em IA e digital
36% — barreiras técnicas ou relacionadas a dados
35% — capacidade interna insuficiente da força de trabalho
29% — acesso limitado a ferramentas ou infraestrutura de próxima geração

Apesar da cautela, quem já deu o salto colhe resultado: entre as empresas que adotaram IA agêntica, 64% relatam ganho de eficiência operacional, 57% relatam decisões mais rápidas e 49% relatam melhor escalabilidade.

Case: como o Inter processou 520 mil interações em 5 meses

O relatório traz dois cases brasileiros como ilustração prática. O Inter, banco digital com mais de 45 milhões de clientes, integrou um assistente financeiro de IA agêntica à sua plataforma "Seven". Em cinco meses, a ferramenta processou mais de 520 mil interações com 300 mil usuários únicos, em 13 domínios financeiros, com tempo médio de resposta de 13,4 segundos e crescimento de adoção de 5.113%. O banco estima economia de R$ 1 milhão em redução de chamados de suporte, além de aumento de 108% na capacidade de investigar crimes financeiros e de 1.480% na identificação de financiamento ilícito — hoje já opera mais de 400 agentes de IA.

Já a Cogna Educação, maior grupo educacional da América Latina, usou um "trabalhador digital" com modelo de aprendizado contínuo para acelerar a criação de cursos — historicamente um processo de 20 a 90 dias. O resultado: redução de 86% no esforço operacional, economia de até 90% nos custos e queda no tempo de produção de conteúdo de 20 para apenas 3 dias.

Soberania digital: o que as empresas realmente querem dizer com isso

Um dos achados mais úteis para o debate político brasileiro é a definição de "soberania digital" na visão das próprias empresas, que difere bastante do discurso público sobre o tema. Quando perguntadas o que soberania digital significa para elas, as respostas mais citadas foram:

21% — padrões sólidos de proteção de dados, privacidade e cibersegurança
18% — controle sobre onde e como os dados são armazenados e processados
13% — regras claras sobre quem acessa os dados e em que condições

Apenas 7% associam soberania à redução de dependência de fornecedores estrangeiros, e apenas 5% à propriedade brasileira de toda a cadeia digital.

Na prática, as empresas priorizam ecossistemas mistos: 63% já usam fornecedores de diferentes regiões, em vez de trabalhar majoritariamente com provedores nacionais, e 82% dizem que o acesso a empresas de tecnologia globais é importante para a adoção de IA.

Quando questionadas sobre prioridades de investimento público, apenas 24% colocam infraestrutura de nuvem financiada pelo Estado entre as cinco principais, bem atrás de habilidades da força de trabalho (62%) e cibersegurança (56%).

O emprego: menos substituição, mais mutação

Sobre o mercado de trabalho, o tom do relatório é de transformação, não de extinção: 59% das empresas esperam que a IA crie novas funções ou transforme significativamente as existentes nos próximos três a cinco anos, e 27% esperam efeito neutro entre criação e eliminação de vagas.

O impacto salarial já é mensurável: as empresas estimam que 41% das futuras contratações vão exigir letramento em IA, e estão dispostas a pagar em média 34% a mais por candidatos com habilidades fortes em IA. Ainda assim, encontrar esse talento não é trivial — leva, em média, cinco meses para preencher uma vaga que exija competência digital adequada, e 29% das empresas não têm nenhuma função técnica interna hoje.

O problema que ninguém resolveu: medir se a IA está valendo a pena

Talvez o dado mais estratégico do relatório para qualquer executivo: mesmo com adoção em alta, a maioria das empresas não sabe provar o retorno. 47% não confiam na própria capacidade de medir com precisão o ROI de projetos de IA, e apenas 33% dizem ter confiança nessa medição. Só 28% têm uma metodologia formal e consistente para avaliar sucesso.

O problema se agrava porque, mesmo quando medem, as empresas olham para os indicadores errados: 64% acompanham economia de tempo ou custo, mas só 38% olham crescimento de receita atribuível à IA, e apenas 30% avaliam resultado para o cliente final, como satisfação e retenção. Em 20% das empresas, as métricas de IA são acompanhadas, mas raramente influenciam qualquer decisão de negócio.

AutorAndré Lopes
FonteExame
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