Aeroporto de R$ 85 milhões quer levar Boeing direto a Gramado e Canela e acabar com 2h de estrada
Projeto prevê ampliar a pista do Aeroporto de Canela para receber aviões maiores, como Boeing 737 e Airbus A319; proposta depende de aprovação de recursos federais para 2027

RESUMO +
Sete municípios da Serra Gaúcha apresentaram ao Congresso um projeto de R$ 85 milhões para ampliar o Aeroporto de Canela e permitir voos comerciais, com expectativa de inclusão no orçamento de 2027. O plano prevê pista de 1.600 metros, novo terminal e investimento dividido entre 2027 e 2028. A projeção é receber 250.000 passageiros no primeiro ano.
Quem quer visitar Gramado e Canela, dois dos principais destinos turísticos da Serra Gaúcha, costuma enfrentar uma viagem que continua depois do desembarque.
Para quem chega de avião a Porto Alegre, ainda é necessário seguir de carro, ônibus ou transfer por cerca de duas horas até a região. Dependendo do trânsito, o trajeto pode consumir uma parte considerável do primeiro e do último dia de viagem.
É esse percurso que um projeto de 85 milhões de reais pretende encurtar.
Um grupo de sete municípios enviou ao Congresso Nacional uma proposta de ampliação do aeroporto, que já existe e atualmente atende principalmente jatos executivos.
Algumas melhorias já estão sendo feitas no espaço desde que a Infraeroassumiu a administração do aeroporto em 2024, mas a ideia é que o investimento de R$ 85 milhões permita o pouso e decolagem de voos comerciais e prevê uma pista de 1.600 metros e um novo terminal de passageiros.
A ampliação permitiria operações com aeronaves maiores, como Boeing 737, Airbus A319 e Embraer 195.
Este grupo de sete municípios já apresentou o projeto ao Congresso, e há uma expectativa que ele entre no orçamento de 2027, a partir de uma emenda de bancada, instrumento pelo qual parlamentares de um mesmo estado direcionam verbas do orçamento.
O plano prevê destinar 45 milhões de reais em 2027 e outros 40 milhões de reais em 2028.
Se conseguir o dinheiro, a expectativa dos responsáveis é concluir as obras em aproximadamente um ano e meio.
O plano trabalha com a possibilidade de receber 250.000 passageiros no primeiro ano de operações comerciais regulares após a ampliação e chegar a 1 milhão no terceiro ano.
Como será o novo Aeroporto de Canela
O Aeroporto de Canela já recebeu uma primeira rodada de investimentos para melhorar sua infraestrutura.
Segundo Marino Neto, a Infraero destinou cerca de 30 milhões de reais às intervenções realizadas até agora. A pista, que tinha 1.200 metros, chegou a 1.260 metros, e agora recebe mais 80.
A largura passou de 18 para 30 metros, e o pavimento foi reforçado para suportar operações com aeronaves de maior porte.
Essas obras fazem parte da adequação do aeroporto à categoria 2C, que contempla aviões como o ATR-72, com capacidade para até 72 passageiros. O processo ainda aguarda a homologação final da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
A próxima etapa, estimada em 85 milhões de reais adicionais, é mais complexa.
Além de estender a pista para 1.600 metros, será necessário construir um terminal de passageiros e ampliar as áreas de segurança.
Parte dessas intervenções depende de desapropriações de imóveis próximos ao aeroporto. Os custos foram levantados com a participação da equipe técnica da Infraero, de engenheiros ligados ao projeto do Kempinski Laje de Pedra e da prefeitura.
"Para fazer a ampliação para 3 Charlie, não é apenas a pista, você precisa também ter áreas de segurança. E essas áreas de segurança demandam desapropriações. Além disso, o aeroporto ainda não tem um terminal adequado", diz José Ernesto Marino Neto, diretor executivo do Kempinski Laje de Pedra e coordenador da Comissão Tripartite do Aeroporto de Canela, criada pela prefeitura para acompanhar o projeto.
A categoria 3C, prevista no projeto de expansão, abriria espaço para aeronaves comerciais maiores.
O projeto também considera a operação por instrumentos, conhecida pela sigla IFR, sistema que permite aos pilotos navegar e realizar procedimentos de aproximação com auxílio de instrumentos, inclusive em condições de visibilidade reduzida.
Segundo Marino Neto, o balizamento noturno, conjunto de luzes que orienta as operações na pista, já está sendo trabalhado.
De onde virão os 85 milhões de reais
Os municípios da região decidiram buscar recursos no orçamento federal depois de concluir que a ampliação exigiria um investimento superior ao realizado até agora.
A articulação é liderada pela Associação dos Municípios de Turismo da Serra (AMSERRA), que reuniu sete prefeituras em torno da proposta.
O grupo conta com apoio técnico para defender a emenda de bancada do Rio Grande do Sul. A divisão prevista é de 45 milhões de reais em 2027 e 40 milhões de reais em 2028, período em que as obras poderiam ser executadas.
Segundo Marino Neto, a bancada gaúcha recebeu aproximadamente 100 propostas de emendas e decidiu concentrar seu apoio em apenas oito: quatro para a saúde e quatro para infraestrutura. É dessa frente de infraestrutura que a Amserra espera receber a verba.
De acordo com o executivo, representantes das prefeituras de Canela e Nova Petrópolis estiveram em Brasília para conversar com deputados e senadores.
A expectativa dos envolvidos é conseguir a aprovação dos recursos para iniciar a ampliação.
Quais seriam os ganhos
O principal argumento econômico dos defensores do projeto é o impacto que um aeroporto com voos comerciais diretos poderia ter sobre a Serra Gaúcha.
Segundo Marino Neto, uma estimativa atribuída à Infraero aponta que a ampliação poderia acrescentar 300 milhões de reais ao Produto Interno Bruto (PIB) de Canela no primeiro ano de operações comerciais regulares.
A lógica por trás dessa estimativa envolve uma mudança na forma como os visitantes gastam seu tempo na região.
Hoje, parte dos turistas que desembarcam em Porto Alegre precisa reservar várias horas para chegar a Gramado ou Canela e fazer o caminho de volta.
Com voos diretos para Canela, esse período poderia ser utilizado em restaurantes, lojas, parques e outras atrações turísticas.
"O turista, que já vem para cá, ele perde meio período para vir e meio período para voltar", diz Marino Neto.
Para o executivo, o benefício não dependeria exclusivamente de atrair mais visitantes. Quem já frequenta a região poderia permanecer mais tempo nos estabelecimentos locais.
"Ele vai ter mais tempo para visitar um outro parque. Ele vai ter mais tempo para ir num novo restaurante. Ele vai ter mais tempo para comprar uma coisa em lojas, ou seja, ele vai deixar mais dinheiro na localidade sem você aumentar o número de turistas", afirma.
Há, no entanto, uma questão comercial importante: os voos diretos para Canela poderão ter passagens mais caras do que as oferecidas para Porto Alegre. A expectativa de Marino Neto é que uma parcela dos consumidores aceite pagar essa diferença para evitar o deslocamento terrestre.
Por que a Serra Gaúcha quer receber até 1 milhão de passageiros
A projeção de demanda é outro ponto central do projeto.
Segundo Marino Neto, os estudos utilizados pelos responsáveis trabalham com 250.000 passageiros no primeiro ano de operação comercial regular após a ampliação. No terceiro ano, o movimento poderia alcançar 1 milhão de passageiros.
O executivo também afirma que mais de 2 milhões de pessoas desembarcam em Porto Alegre com destino exclusivo à Serra Gaúcha.
Mesmo que os voos diretos se tornem realidade, a expectativa não é transferir todos esses passageiros para Canela.
Porto Alegre continuaria sendo uma alternativa, especialmente para turistas mais sensíveis ao preço das passagens.
O novo aeroporto buscaria atender tanto parte dos visitantes atuais quanto consumidores que deixam de viajar à Serra Gaúcha por causa do deslocamento.
Entre os públicos mencionados por Marino Neto está o de turistas de maior poder aquisitivo, que costumam priorizar conveniência e tempo de viagem.
A aposta também interessa ao setor de hotelaria, que tem novos empreendimentos em desenvolvimento na região, entre eles o próprio Kempinski Laje de Pedra.
E o projeto de outro aeroporto na Serra Gaúcha?
Canela não é a única aposta para ampliar a aviação na região.
Outro projeto em discussão é o Aeroporto de Vila Oliva, em Caxias do Sul, planejado para receber aeronaves de maior porte.
Segundo Marino Neto, a proposta de Vila Oliva contempla uma pista de 2.000 metros e um investimento estimado em 800 milhões de reais. O executivo afirma que o empreendimento poderá levar cerca de cinco anos para ser concluído.
Na comparação feita pelos defensores do Aeroporto de Canela, a principal vantagem está no aproveitamento de uma infraestrutura que já existe.
Com 85 milhões de reais e um prazo estimado de um ano e meio, Canela poderia começar a receber aeronaves maiores antes da conclusão de Vila Oliva, caso os recursos sejam aprovados e as obras executadas conforme o planejamento.
Os projetos, porém, possuem características distintas. Vila Oliva é pensado para uma infraestrutura de maior capacidade, enquanto Canela pretende atender à demanda regional a partir da expansão do aeroporto atual.
Marino Neto afirma que as iniciativas podem coexistir.
A discussão sobre a necessidade de diferentes aeroportos ganhou relevância depois das enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, que interromperam temporariamente as operações no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, e expuseram a dependência do estado em relação à principal estrutura aeroportuária da capital.
Para os defensores da ampliação, distribuir a capacidade de transporte aéreo entre diferentes cidades também poderia reduzir parte dessa concentração.
Gianfranco "Panda" Beting, cofundador da Azul e consultor aeronáutico, sustenta que a melhoria da conectividade aérea pode beneficiar setores como comércio, serviços, hotelaria e construção civil.
"A aviação é um vetor de desenvolvimento que vai muito além do transporte de passageiros. Ela conecta mercados, facilita negócios e gera efeitos em diferentes setores, do turismo ao comércio e aos serviços", afirma Beting.
Para os empresários envolvidos, o aeroporto representa uma oportunidade de encurtar a distância entre a Serra Gaúcha e seus visitantes.
A decisão mais importante, porém, ainda será tomada fora da região: no Congresso Nacional, onde o projeto disputa uma fatia dos recursos federais para 2027.
