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InternacionalCMDT
06/08/2026
6 min

África será o novo celeiro do mundo? A realidade ainda está longe dessa velha promessa, diz secretário

A frase, dita pelo secretário-executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Cleber Soares, durante o Veja Fórum Agro, há quase dois meses, traduz uma visão recorrente sobre o futuro da agricultura mundial. O continente reúne uma das maiores reservas de terras agricultáveis do planeta e deverá concentrar boa parte do crescimento populacional nas próximas […]

África será o novo celeiro do mundo? A realidade ainda está longe dessa velha promessa, diz secretário

“A África será o novo celeiro do mundo.”

A frase, dita pelo secretário-executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Cleber Soares, durante o Veja Fórum Agro, há quase dois meses, traduz uma visão recorrente sobre o futuro da agricultura mundial. O continente reúne uma das maiores reservas de terras agricultáveis do planeta e deverá concentrar boa parte do crescimento populacional nas próximas décadas.

Mas, apesar do potencial, esse clichê, repetido há décadas, está distante de representar a realidade.

Enquanto especialistas projetam que a África terá papel cada vez mais relevante na segurança alimentar global, o continente ainda convive com baixa produtividade agrícola, dificuldades de infraestrutura, escassez de tecnologia, pouca mecanização e um dos maiores índices de insegurança alimentar do planeta.

Há dez anos, quando os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) foram lançados pela Organização das Nações Unidas (ONU), a meta era erradicar a fome até 2030. Hoje, já está claro que esse objetivo não será alcançado.

Dados do relatório State of Food Security and Nutrition in the World (SOFI), produzido pela FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) — documento que embasa o chamado “Mapa da Fome” — mostram uma melhora gradual, mas insuficiente.

Segundo a entidade, cerca de 7,8% da população mundial, o equivalente a 645 milhões de pessoas, ainda sofre de desnutrição, ou seja, não consome a quantidade mínima de calorias necessária diariamente. Em 2022, esse percentual era de 8,6%; em 2024, caiu para 8,1%.

“Não vamos erradicar a fome do mundo até 2030, mas alguns países estão conseguindo avançar nessa questão, como é o caso do Brasil. Não chegamos onde queremos estar como planeta, mas a solução existe”, afirmou David Laborde, diretor da Divisão de Economia Agroalimentar da FAO, durante o Brazil Climate Solutions, realizado nesta semana pelo Cubo Itaú e Itaú Unibanco.

Para Laborde, essa solução passa por uma questão central: como tornar uma alimentação saudável acessível para toda a população mundial.

“Esse problema atinge cerca de um terço da população global. Ao mesmo tempo, enfrentamos choques cada vez mais frequentes, como eventos climáticos extremos, escassez de água, temperaturas mais altas e incêndios florestais. Soma-se a isso a guerra na Ucrânia, as tensões no Oriente Médio e a deterioração fiscal de diversos governos altamente endividados”, explica.

Na avaliação do economista, a resposta macroeconômica global será determinante para enfrentar esse cenário em um mundo cada vez mais exposto aos riscos ligados à energia e aos insumos agrícolas.

Mais uma vez, o Brasil aparece como exemplo. Segundo Laborde, o país conseguiu expandir simultaneamente a produção de alimentos, a oferta de energia renovável e reduzir a fome.

“O que podemos aprender com o Brasil? Que é possível produzir mais e exportar mais alimentos. Nos últimos 20 anos, o Brasil aumentou em 350% suas exportações de calorias enquanto reduziu a fome em cerca de 80%. É possível fazer as duas coisas e ainda ampliar a produção de energia por meio do aumento da produtividade”.

O desafio da África

Se a insegurança alimentar é um problema global, ela tem na África seu maior desafio.

Segundo a FAO, aproximadamente 310 milhões de africanos vivem em situação de fome crônica e cerca de 60% da população não consegue pagar por uma dieta saudável.

Ao mesmo tempo, o continente deverá receber cerca de um bilhão de novos habitantes nas próximas décadas, pressionando ainda mais a demanda por alimentos.

Embora possua vastas áreas agricultáveis, a agricultura africana ainda enfrenta gargalos históricos, como infraestrutura precária, baixa mecanização, acesso limitado a crédito, pouca difusão tecnológica e produtividade reduzida.

Na pecuária, o cenário é semelhante. Os custos da alimentação animal permanecem elevados, a produção ainda é pouco desenvolvida e a genética disponível nem sempre é adequada às condições tropicais de diversas regiões do continente.

Para Laborde, por isso, a África continuará dependendo do comércio internacional para garantir sua segurança alimentar nas próximas décadas.

“Parte dos alimentos consumidos pela África nos próximos 25 anos terá de vir do comércio internacional. O continente não terá tempo suficiente para fazer a produção agrícola crescer no mesmo ritmo da população e da renda. A agricultura africana precisa evoluir não apenas para produzir alimentos, mas também para reduzir a pobreza rural. Isso exigirá investimentos, tecnologia e modernização.”

Segundo ele, a demanda mundial continuará crescendo não apenas pelo aumento da população, mas também pela mudança dos hábitos alimentares.

“Essas pessoas vão querer comer melhor, com dietas mais diversificadas e maior consumo de proteínas animais, o que exigirá mais grãos para alimentação animal. Ao mesmo tempo, crescerá a demanda por fontes alternativas de energia, como os biocombustíveis.”

O papel do Brasil

Nesse contexto, Laborde acredita que o Brasil poderá desempenhar um papel estratégico, mas não apenas como fornecedor de alimentos.

“No curto prazo, o Brasil fornecerá parte da comida de que a África precisa. Mas a cooperação mais importante envolve tecnologia, investimentos e capacitação produtiva. Mesmo que o Brasil tivesse capacidade para alimentar 2 bilhões de africanos, esse não deveria ser o objetivo. A África também precisa desenvolver sua própria agricultura, gerar empregos e preservar sua soberania alimentar.”

Para ele, os maiores vetores de crescimento da demanda mundial por alimentos estarão justamente na África e no Oriente Médio.

O desafio, porém, não será apenas produzir.

“A questão é se haverá renda suficiente para financiar essas importações. Isso dependerá do crescimento econômico do próprio continente.”

Foi justamente essa visão que motivou o Money Times a questionar Cleber Soares, durante o Veja Fórum Agro, sobre como e em quanto tempo a África poderia, de fato, tornar-se o novo celeiro do mundo — e qual seria o papel do Brasil nesse processo.

“Isso já deveria ter acontecido, principalmente pela situação de fome crônica na África. Apenas na África Subsaariana existem cerca de 150 milhões de hectares agricultáveis. Vamos precisar dessas áreas para alimentar o planeta. E nenhum país tem o know-how agrícola que o Brasil desenvolveu, do produtor ao pesquisador.”

Na avaliação do secretário-executivo do Mapa, a produtividade agrícola africana poderá se aproximar da brasileira dentro de cerca de 25 anos, com ou sem a participação direta do Brasil.

“Visitei uma região de Angola onde uma empresa chinesa iniciou um projeto de 2 mil hectares contínuos de arroz utilizando máquinas, sementes e fertilizantes próprios. Para isso, contratou mais de cinquenta profissionais brasileiros, principalmente do Rio Grande do Sul, entre agrônomos e técnicos agrícolas. Eles vão crescer conosco ou sem nós. A diferença é que podemos ser um parceiro importante nessa transformação.”

Por enquanto, porém, a ideia de que a África será o novo celeiro do mundo continua sendo mais uma aposta para as próximas décadas do que um retrato da realidade atual. Antes de alimentar o planeta, o continente ainda enfrenta o desafio de garantir segurança alimentar para sua própria população.

AutorPasquale Augusto
FonteMoney Times
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