Agricultura regenerativa deixa de ser agenda ambiental e ganha espaço na estratégia dos negócios
Empresas e organizações defendem integração entre produtividade, renda, tecnologia e conservação para levar práticas regenerativas a escala

A agricultura regenerativa começa a deixar de ser tratada apenas como uma agenda ambiental para ganhar espaço nas estratégias de negócios de empresas do agronegócio e da indústria de alimentos. O movimento combina busca por produtividade, recuperação da saúde do solo, redução de riscos climáticos, uso mais eficiente de recursos e melhoria da renda dos produtores. Reunidos no SuperAgro 2026, evento promovido pela Exame, representantes de indústrias como Nestlé e PepsiCo Brasil, além do Instituto Arapyaú, que tem como case de sucesso o projeto da chocolateria Dengo, debateram a agricultura regenerativa e a necessidade de sustentabilidade dos negócios.
“Agricultura regenerativa não é mais apenas uma agenda ambiental, mas uma agenda econômica e, por muitas vezes, de sobrevivência dos negócios”, afirma Renata Piazzon, CEO do Instituto Arapyaú, acrescentando que a separação entre as agendas ambiental e econômica perdeu sentido diante da importância do agronegócio para a economia brasileira e da exposição da atividade aos eventos climáticos. Renata Piazzon lembrou que eventos climáticos mais intensos já afetam os ciclos agrícolas e a tomada de crédito pelos agricultores, pela dificuldade dos bancos em medir os riscos climáticos.
A lógica também começa a ganhar espaço dentro das grandes empresas. Na Nestlé Brasil, o tema deixou de estar restrito às áreas de sustentabilidade e passou a ser discutido pela área de negócios. Luis Collaço, gerente de ESG para chocolate e biscoitos da companhia, citou as cadeias do cacau, café e leite, relevantes para a companhia. “Não tem produtor verde no vermelho, ele tem que ganhar dinheiro”, afirma Collaço. Segundo ele, a sustentabilidade precisa estar associada à perspectiva de renda e de continuidade da atividade no campo, inclusive para estimular a sucessão familiar.
Luis Collaço, gerente de ESG para chocolate e biscoitos da Nestlé Brasil (Eduardo Frazão/Divulgação)
A Nestlé tem utilizado tecnologia e parcerias para ampliar esse processo. Entre as iniciativas está uma ferramenta de orientação (chatbot) que já alcança cerca de 7 mil produtores, além de projetos envolvendo pesquisa, tecnologia e acesso a crédito. A empresa também inaugurou, em parceria com a Embrapa, um centro de pesquisa na Amazônia voltado ao cacau. “Precisamos de dado primário sobre o cacau. A Nestlé vê o Brasil como potência no cacau, queremos sair da sexta, sétima posição mundial para a liderança em produção”, afirma Collaço, destacando como pilares da atuação da companhia produtividade, regeneração e renda.
Na PepsiCo Brasil, a agricultura regenerativa também passou a fazer parte da estratégia de abastecimento de insumos e melhoria dos processos produtivos. A empresa compra anualmente cerca de 450 mil toneladas de produtos in natura no país e trabalha com projetos relacionados à eficiência econômica, biodiversidade, uso da água e saúde do solo.
“Não há produtividade ou sustentabilidade sem eficiência”, afirma Ismael Cordeiro, gerente de Sustentabilidade e Transformação no Agronegócio da PepsiCo Brasil. Segundo ele, a regeneração precisa estar associada à capacidade de o produtor manter a atividade economicamente viável.
Ismael Cordeiro, gerente de Sustentabilidade e Transformação no Agronegócio da PepsiCo Brasil (Eduardo Frazão/Divulgação)
A empresa tem concentrado parte dos esforços na recuperação do solo, considerado fundamental para a resiliência da produção. “Somos criativos no Brasil, fazemos agricultura com pouca água, pouco insumo, mas nunca sem solo”, afirma Cordeiro. A estratégia inclui iniciativas voltadas à biodiversidade e à redução do impacto do uso de defensivos, além de projetos de reflorestamento no Cerrado.
Tecnologia para reduzir riscos
A digitalização aparece como um dos instrumentos para levar práticas regenerativas a um número maior de produtores. Para Cordeiro, não se trata necessariamente de ampliar a complexidade tecnológica da produção, mas de usar ferramentas adequadas às características de cada região. “Agricultura regenerativa é, sim, fazer o básico bem feito”, afirma. Segundo ele, o agricultor nem sempre precisa de tecnologias caras ou sofisticadas. O desafio é identificar a técnica adequada para cada região e utilizá-la no momento correto.
A PepsiCo vem utilizando inteligência artificial (IA) para análise de dados climáticos e auxílio ao processo decisório dos produtores. A empresa financia ferramentas que permitem avaliar condições de clima no médio e longo prazo e, com isso, planejar melhor o plantio e a colheita. Outra iniciativa é o uso dos dados registrados pelos agricultores para estimar a produtividade. A companhia desenvolve o AI Agronomist, modelo próprio que pretende utilizar informações históricas, climáticas e regionais para indicar as probabilidades de uma boa safra e os riscos de perda.
Crédito e mercado são fundamentais
A expansão da agricultura regenerativa, porém, depende de mais do que tecnologia. Para Renata, é necessário combinar assistência técnica, financiamento e garantia de mercado para o produtor.
Uma das experiências do Instituto Arapyaú ocorreu na cadeia do cacau, com uma estratégia de concessão de crédito para pequenos e médios produtores associada à assistência técnica e a estruturas de blended finance. O modelo também buscou resolver um problema essencial: a existência de compradores para a produção.
Nesse processo surgiu a chocolateria Dengo, que estruturou um modelo de negócios baseado na compra do cacau produzido de forma sustentável. Segundo Renata, a produtividade dos produtores envolvidos aumentou mais de 50%, enquanto a renda avançou 60%. Atualmente, são cerca de 2 mil produtores de cacau, número ainda pequeno diante dos aproximadamente 70 mil produtores existentes no país, mas que, na avaliação da executiva, demonstra o potencial de estratégias combinadas.
O Instituto também atua para conectar grandes cadeias empresariais a produtos da sociobiodiversidade. Em parceria com o Grupo Trigo, que reúne marcas como Spoleto, China in Box e Gendai, foram mapeados mais de 70 ingredientes. Um dos exemplos é o cubiu, fruta originária da Amazônia utilizada como alternativa ao tomate em um molho do Spoleto. No primeiro ano de teste, a iniciativa gerou mais de R$ 5 milhões em aquisições. “O desafio” é levar essas experiências à escala, afirma a executiva.
Cooperação para ganhar escala
A necessidade de escala é um dos principais pontos de convergência entre empresas e organizações que atuam na agenda. Renata defende a criação de iniciativas pré-competitivas, nas quais empresas, setor financeiro, academia, governo e organizações da sociedade civil trabalhem conjuntamente em problemas comuns. “Não precisa concordar, mas autorizar que siga. Tem agendas comuns que podemos avançar juntos”, afirma.
Collaço também defende a cooperação. “Mitigação é maratona e adaptação é agora”, afirma. Segundo ele, as empresas precisam lidar simultaneamente com metas de longo prazo e decisões imediatas sobre onde investir para garantir a continuidade dos negócios.
Cordeiro, da PepsiCo, reforça a visão da necessidade de ampliar parcerias entre empresas, governo e academia, especialmente para financiar projetos e transformar conhecimento científico em soluções aplicáveis no campo. “Nos próximos anos devemos avançar de forma mais enérgica em parcerias público-privadas para financiamento e em plataformas conjuntas de entrega de recursos para os agricultores”, afirma.
