Agro deve ganhar R$ 48 bilhões com IA — mas a revolução acontecerá nas máquinas
92% do impacto econômico da inteligência artificial no campo virá de máquinas e equipamentos inteligentes, e não da substituição de trabalhadores, diz estudo do Reglab

A inteligência artificial (IA) deve gerar R$ 48,2 bilhões em valor para a agropecuária brasileira entre 2027 e 2030. Mas, ao contrário do que ocorre em setores como comércio e serviços, o principal ganho no campo não estará na automação de tarefas realizadas por pessoas.
Segundo um estudo inédito do Reglab, think tank especializado em regulação e novas tecnologias, 92% desse impacto virá do aumento da eficiência de máquinas, equipamentos e sistemas utilizados na produção agrícola, enquanto apenas 8% será resultado do aumento da produtividade da força de trabalho.
O levantamento mostra que o agro foge ao padrão observado no restante da economia. Enquanto, no agregado nacional, cerca de 65% dos ganhos da IA são explicados pelo aumento da produtividade do trabalho e 35% pela melhoria do capital, na agropecuária essa lógica praticamente se inverte.
Para Pedro Henrique Ramos, diretor-executivo do Reglab, o resultado reflete a própria estrutura produtiva do agronegócio.
"A agropecuária é um dos setores em que o capital pesa muito mais do que o trabalho. A produção depende fortemente de máquinas e equipamentos, enquanto boa parte das atividades humanas é predominantemente manual e, portanto, menos exposta à inteligência artificial", afirma.
Na prática, isso significa que a próxima onda de transformação do setor deverá ocorrer com a incorporação da IA em ativos físicos, como colheitadeiras, tratores, drones e sensores, capazes de tomar decisões em tempo real e elevar a eficiência da produção.
O relatório cita aplicações já presentes na agricultura de precisão, como drones para monitoramento das lavouras, sensores que acompanham umidade e nutrientes do solo, além de colheitadeiras capazes de ajustar automaticamente sua operação conforme as condições da cultura.
Segundo Ramos, diferentemente do que acontece em escritórios ou atividades administrativas, a inteligência artificial no agro tende a potencializar as máquinas, e não substituir trabalhadores.
O estudo faz um alerta: o potencial econômico de R$ 48,2 bilhões depende da expansão da infraestrutura digital no campo. Embora o levantamento não estime quanto o Brasil perde hoje por causa da baixa conectividade rural, Ramos afirma que a relação entre uma coisa e outra é direta.
"Sensores, drones, colheitadeiras conectadas e telemetria são essenciais para esse potencial. É razoável concluir que investir em infraestrutura digital no campo é condição para transformar essa projeção em realidade", afirma.
Recorde de produtividade
No agregado da economia, o Reglab estima que a IA poderá adicionar R$ 986,7 bilhões ao PIB brasileiro até 2030, o equivalente a cerca de 0,69 ponto percentual de crescimento por ano.
Para ilustrar essa magnitude, Ramos faz uma comparação com um dos principais motores da economia brasileira.
"Em 2025, a agropecuária cresceu 11,7% e respondeu por cerca de 0,75 ponto percentual do PIB. O efeito projetado da IA equivale, aproximadamente, a uma safra recorde de grãos todos os anos durante quatro anos consecutivos", afirma.
Embora a agropecuária apareça atrás de setores como indústria, serviços e comércio em impacto econômico absoluto, o estudo mostra que isso está relacionado tanto ao peso de cada atividade na economia brasileira quanto à forma como a inteligência artificial é incorporada em cada segmento.
Entre 2027 e 2030, a IA deverá gerar R$ 264,2 bilhões para a indústria de transformação, R$ 165,4 bilhões para outras atividades de serviços, R$ 131,2 bilhões para o comércio, R$ 106,1 bilhões para a administração pública, saúde e educação, R$ 76,1 bilhões para as atividades financeiras e R$ 48,2 bilhões para a agropecuária.
"Na indústria, os dois canais funcionam juntos: o trabalhador fica mais produtivo e a máquina também. Já na agropecuária, o efeito vem quase totalmente das máquinas e equipamentos", diz Ramos.
