Airbnb vai alugar carros no Brasil — e diversificação chega em momento estratégico
Serviço chega a mais de 300 cidades e faz parte da estratégia global da companhia de transformar o aplicativo em uma central de viagens

O Airbnb está deixando de ser apenas um lugar para reserva de hospedagem. A plataforma estreia a sua plataforma de aluguel de carros no Brasil em mais de 300 cidades, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, em mais um passo da estratégia global da companhia para ampliar os serviços oferecidos aos viajantes.
As ações companhia listadas na Nasdaq, nos Estados Unidos, já apresentaram valorização de mais de 18% no acumulado ano.
Os carros serão disponibilizados por locadoras parceiras e poderão ser alugados mesmo por quem não tiver uma hospedagem reservada no Airbnb. Para quem já tiver uma reserva, a plataforma poderá mostrar opções de veículos próximos ao local da estadia.
Na primeira locação, o cliente receberá 20% do valor em crédito para uma próxima estadia, experiência ou serviço selecionado no Airbnb. A companhia também informa que será possível economizar até 20% no próprio aluguel com parceiros preferenciais.
A expansão coloca o Airbnb em uma categoria na qual já atuam empresas como Booking, Expedia, Kayak, Decolar e CVC. No Brasil, o mercado de locação de veículos movimentou R$ 61,7 bilhões em 2025, segundo dados do Anuário Brasileiro do Setor de Locação de Veículos 2026 da ABLA (Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis).
O mesmo anuário indicava para uma frota de 1,717 milhão de carros e comerciais leves, 37 mil locadoras ativas, 109,9 mil empregos diretos e R$ 79,3 bilhões investidos em compra de veículos novos, com as locadoras respondendo por 24,6% dos emplacamentos do país no ano.
O aluguel de carros faz parte de uma estratégia que vai além do mercado brasileiro. O Airbnb vem ampliando a quantidade de serviços oferecidos dentro da plataforma para tentar capturar mais etapas da viagem do usuário.
Nos Estados Unidos, Europa e Ásia, a companhia já testa ou oferece serviços que vão de transfer para aeroporto e guarda-volumes a entrega de alimentos e aluguel de equipamentos. A empresa também passou a oferecer hotéis boutique em cidades como Nova York, Paris e Londres.
A lógica é transformar o aplicativo em uma espécie de central de viagem, em vez de limitar o relacionamento com o cliente à reserva de uma acomodação.
Em uma teleconferência de resultados em agosto, o CEO do Airbnb, Brian Chesky, afirmou que o aluguel de carros seria o novo serviço com maior potencial de crescimento. Segundo ele, uma reserva de carro costuma durar mais do que a estadia média no Airbnb.
Em outra declaração recente, no Skift Global Forum, em Nova York, Chesky reconheceu uma mudança na estratégia da empresa. Segundo ele, o Airbnb passou a aceitar oferecer serviços mais próximos dos de uma agência de viagens tradicional, incluindo commodities como aluguel de carros.
Brasil ganha importância na expansão
A escolha do Brasil para ampliar o serviço ocorre em um mercado relevante para o Airbnb. O CEO já disse à imprensa que o Brasil está entre os cinco maiores mercados do Airbnb. No segundo trimestre de 2026, as noites reservadas por viajantes brasileiros cresceram mais de 30% na comparação anual, de acordo com dados divulgados pela companhia.
A escala ajuda a explicar por que o Airbnb decidiu lançar o aluguel de carros de uma vez em mais de 300 cidades, em vez de limitar o serviço a poucos destinos turísticos.
A companhia também está ampliando outros serviços dentro da plataforma. Na nova estratégia, usuários poderão, por exemplo, descobrir viagens feitas por familiares, amigos e pessoas com quem já viajaram e consultar as acomodações que essas pessoas reservaram.
A inteligência artificial também está sendo incorporada ao planejamento de viagens, inicialmente nos Estados Unidos. Entre os recursos estão buscas feitas em linguagem natural, descrições de acomodações geradas por IA e comparação de imóveis salvos.
A diversificação também ganha importância em um momento em que o Airbnb enfrenta discussões regulatórias em diferentes mercados.
No Brasil, a situação das locações de curta duração em condomínios continua em debate. Em maio de 2026, o Superior Tribunal de Justiça decidiu, por 5 votos a 4, sobre a necessidade de aprovação de condôminos em um caso envolvendo locação de curta duração. O tema foi posteriormente afetado como repetitivo, suspendendo processos sobre a questão no país.
Em setembro, o Ministério Público Federal apresentou parecer contrário à exigência de autorização.
A situação regulatória ainda depende da evolução do Tema 1.443 do STJ e não deve ser apresentada como uma regra definitiva para todos os imóveis.
Há também mudanças tributárias no horizonte. A reforma tributária prevê tratamento específico para locações de curta duração, que podem ser enquadradas como hospedagem em determinadas circunstâncias.
Em São Paulo, o Airbnb também passou a retirar anúncios relacionados a imóveis de habitação social após uma investigação da Câmara Municipal.
Essas questões não são apontadas pela companhia como a razão para a entrada em aluguel de carros. A diversificação faz parte de uma estratégia global, mas ocorre em paralelo a um ambiente regulatório mais complexo para a atividade principal.
