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14/07/2026
10 min

Airbnb vai oferecer hospedagem gratuita aos brasileiros que se internam cada vez mais longe de casa

Airbnb vai oferecer hospedagem gratuita aos brasileiros que se internam cada vez mais longe de casa

Adriana Reis de Oliveira tinha decidido desistir do tratamento de vez. A carioca enfrentava um câncer de mama e precisava percorrer de duas a três horas, todos os dias, entre o Grajaú onde estava hospedada de forma improvisada até o Instituto da Mulher, em São Paulo, onde fazia o tratamento.

O deslocamento diário, somado ao cansaço da quimioterapia, chegou a pesar mais do que a doença. Foi então que se encheu de esperança: ela conseguiu se hospedar a cinco minutos a pé do hospital, por meio de um benefício oferecido pelo Airbnb. Recentemente, Adriana bateu o sino que marca a remissão do câncer e voltou a ter uma vida normal.

A história dela não é exceção. Um levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) mostra que a proporção de pessoas internadas fora da própria região de saúde mais que triplicou no Brasil entre 2010 e 2023 , um movimento puxado principalmente pela necessidade de procedimentos de alta complexidade que estão concentrados no Sudeste.

Na prática, isso significa que cada vez mais famílias brasileiras enfrentam o mesmo dilema de Adriana: para se tratar, precisam se mudar, mesmo que temporariamente, para uma cidade que não é a sua. E muitas vezes, sozinhas, já que a família não consegue acompanhar.

É essa realidade difícil que o Airbnb.org, braço filantrôpico do Airbnb, tenta combater. Nesta terça-feira, 14, a organização anuncia a chegada ao Brasil do programa Estadias Médicas, em parceria com o Instituto Beaba, o INCAvoluntário e o ChildFund.

A iniciativa oferece hospedagens gratuitas, via Airbnb, para pacientes e famílias que precisam se deslocar para tratamento e irá cobrir o custo integral da estadia.

"Ajudar e abrigar quem precisa está no nosso DNA", diz Christoph Gorder, diretor executivo do Airbnb.org, em entrevista exclusiva à EXAME.

Christoph Gorder, diretor executivo do Airbnb.org,

Para ele, a lógica por trás do programa é uma extensão direta do propósito que originou a própria empresa: em 2012, durante um furacão que atingiu Nova York, um anfitrião ligou para o Airbnb oferecendo o quarto extra de sua casa a quem tivesse perdido a moradia.

"Isso é algo que acontece ao longo da história, sempre. Se o seu vizinho precisa de ajuda, você ajuda", afirma Gorder, que tem uma experiência de mais de 25 anos em contextos de crise e desastres climáticos. 

"O que a gente faz é usar a nossa tecnologia para tornar esse instinto humano muito maior."

Mas, segundo o executivo, essa ajuda não precisa vir de um evento pontual e trágico, como é o caso do terremoto na Venezuela, no qual o Airbnb também está em missão humanitária. 

"Hoje não há um desastre em São Paulo em grande escala. Mas para uma família, é um desastre se o filho tem câncer", exemplifica.

Depois de anos atuando exclusivamente em respostas a catástrofes, o Airbnb.org criou uma frente que pode atuar todos os dias do ano e conecta um problema real de saúde pública. 

Quem paga a conta

O programa Estadias Médicas não depende de a família procurar diretamente o Airbnb. A seleção é feita pelas organizações parceiras.

No caso do Brasil, o Instituto Beaba (voltado a crianças e adolescentes com câncer), o INCAvoluntário (braço de ações sociais do Instituto Nacional de Câncer) e o ChildFund (proteção à infância), que já têm um trabalho estabelecido nas comunidades e sabem quem mais está precisando de uma hospedagem. 

"Se fizéssemos isso sozinhos, a única coisa que poderíamos oferecer seria hospedagem", afirma Gorder.

O trabalho em parceria garante que as famílias também receberam outras formas de apoio: transporte, alimentação e ajuda psicológica. 

Financeiramente, o Airbnb.org opera como uma entidade separada da empresa Airbnb: é uma organização de caridade registrada nos Estados Unidos, com conselho e missão próprios.

Cerca de metade dos recursos vem diretamente do Airbnb, que também abre mão da comissão que normalmente cobra sobre cada reserva. O restante do financiamento vem de doações: milhares de anfitriões destinam 1% do valor recebido em suas próprias reservas ao fundo, e entidades externas complementam o caixa.

Como resultado, o anfitrião recebe pela estadia normalmente, mas a família tratada não paga nada.

A rotina de responder a desastre a cada dois dias

Antes de chegar ao tratamento médico, o Airbnb.org construiu seu histórico respondendo a emergências. É essa experiência, segundo Gorder, que inspira o programa que chega agora ao Brasil.

Um dos episódios mais recentes é a Venezuela, atingida pelo terremoto mais letal da história do país e quejá deixou mais de 4.490 mortos.

O Airbnb.org tem hospedado gratuitamente equipes internacionais de resgate, como as de Cruz Vermelha e de busca e salvamento vindas do Japão, da Espanha, do México e dos Estados Unidos, enquanto elas se organizam antes de embarcar para as áreas mais afetadas. Em Caracas, os imóveis são considerados seguros.

"Estamos respondendo a um desastre diferente em algum lugar do mundo a cada dois dias. Já fizemos 101 desastres neste ano", conta o diretor.

O executivo, que atua há 25 anos com resposta a crises humanitárias, traça um paralelo histórico com a própria Venezuela: em 1999, o mesmo litoral de La Guaira foi devastado por deslizamentos de terra provocados por chuvas intensas, que mataram dezenas de milhares de pessoas e fizeram prédios inteiros sumirem do mapa.

No Brasil, a atuação em desastres já passou pelo teste das enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, quando o Airbnb.org hospedou tanto famílias desalojadas quanto voluntários, em parceria com o governo do estado e ONGs locais.

Desde 2020, a organização soma 1,6 milhão de noites de hospedagem oferecidas globalmente em situações de crise.

Para Gorder, a fronteira entre desastre climático e emergência médica individual é, na prática, uma questão de escala.

"As pessoas fazem viagens incríveis, mas depois você vê que também pode ajudar na Venezuela, no Rio Grande do Sul, ou uma família com câncer", destaca.

A mensuração do impacto

Apesar do histórico em desastres, o programa de estadias médicas ainda é recente e começou em outubro, no México, antes de chegar ao Brasil como segundo país da América Latina a recebê-lo.

E, por enquanto, o Airbnb.org não tem um estudo formal sobre o impacto da iniciativa nos desfechos de tratamento das famílias atendidas. Mas a organização planeja realizar essa avaliação após o programa completar um ano de operação. Até lá, o impacto social vêm de relatos recolhidos junto às próprias famílias, como é o caso de Adriana e outras histórias. 

A expansão também segue em ritmo controlado: a prioridade são os mercados onde o Airbnb já tem a maior base de imóveis e anfitriões: Estados Unidos, México, Brasil e Canadá nas Américas, além de países prioritários na Europa.

"Minha esperança é que possamos fazer esse programa em todo lugar do mundo. Se existe um Airbnb, podemos abrir um lar para as pessoas", conclui Gorder.

AutorSofia Schuck
FonteExame
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