Airbus eleva previsão e vê 2.720 aviões novos na América Latina até 2045
Puxada pela classe média, região terá 1 em cada 15 aviões entregues até 2045, prevê a fabricante francesa

RESUMO +
A fabricante de aeronaves Airbus projetou nesta segunda-feira, 19, que a América Latina receberá 2.720 novas aeronaves entre 2026 e 2045, ante 2.440 na previsão anterior. Segundo o Global Market Forecast 2026, o tráfego de passageiros na região crescerá 3,4% ao ano e quase dobrará ante 2025. Mais de 90% da demanda será por aviões de corredor único.
A América Latina deverá receber 2.720 novas aeronaves nos próximos 20 anos, entre 2026 e 2045, em um movimento impulsionado pelo crescimento do tráfego aéreo, pela expansão da classe média e pelo aumento da demanda por viagens domésticas. A projeção é da Airbus, que estima que o número de passageiros transportados na região crescerá 3,4% ao ano no período, quase dobrando em relação aos níveis de 2025.
Os números fazem parte da edição de 2026 do Global Market Forecast (GMF), apresentada nesta segunda-feira, 19, durante um evento da fabricante de aeronaves na Cidade do México.
Segundo a empresa,a América Latina concentrará pouco mais de 6% das mais de 42 mil aeronaves que deverão ser entregues mundialmente nos próximos 20 anos — o equivalente a aproximadamente um em cada 15 aviões.A estimativa considera toda a indústria aeronáutica, e não apenas as entregas da Airbus. Do total projetado para a região, mais de 2.500 unidades serão aeronaves de corredor único, utilizadas principalmente em rotas domésticas e regionais, enquanto outras 200 serão de fuselagem larga, voltadas a operações de maior alcance e capacidade.
A previsão representa uma revisão para cima em relação à edição anterior do levantamento, quando a Airbus estimava a necessidade de 2.440 novas aeronaves na América Latina nas duas décadas seguintes. O número considera aviões destinados às companhias aéreas sediadas na região, independentemente do fabricante.
“Essa previsão de tráfego aéreo se traduz em uma demanda de mais de 2.700 aviões para a região nos próximos 20 anos”, afirmou Yannick Fournier, gerente global de pesquisa e previsão de mercado da Airbus. Segundo o executivo, mais de 90% das aeronaves demandadas serão de corredor único.
Para Arturo Barreira, presidente da Airbus para a América Latina e o Caribe, o crescimento do mercado será sustentado tanto pela expansão econômica quanto pela evolução do perfil da população. “Vemos o crescimento dos mercados domésticos nos diferentes países da América Latina como o combustível que impulsionará esse crescimento global”, disse o executivo.
Classe média e viagens domésticas impulsionam demanda
A projeção da Airbus parte de um conjunto de indicadores econômicos e demográficos que, segundo a companhia, favorecem a expansão do transporte aéreo na América Latina. A região deverá registrar crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) acima da média global nos próximos 20 anos, enquanto o comércio internacional também deve avançar em ritmo superior ao mundial.
De acordo com as estimativas apresentadas por Fournier, o comércio internacional deverá crescer 2,7% ao ano globalmente, ante uma expansão próxima de 3% na América Latina.Outro fator considerado pela fabricante é o aumento da classe média. A expectativa é que esse grupo cresça em mais de 100 milhões de pessoas na região ao longo das próximas duas décadas, chegando a aproximadamente 500 milhões de habitantes, quase 70% da população latino-americana.
A urbanização também aparece entre os elementos que sustentam a perspectiva de crescimento. A América Latina é a segunda região mais urbanizada do mundo, atrás apenas da América do Norte, com cerca de 90% da população vivendo em áreas urbanas, segundo os dados apresentados pelaAirbus.
Esse conjunto de fatores tende a ampliar a propensão a viajar, medida pela quantidade média de viagens aéreas realizadas por habitante ao ano. Nas principais economias latino-americanas analisadas pela empresa, essa frequência deverá praticamente dobrar em grande parte dos países.
“Isso significa que quase 70% da população total da região fará parte da classe média, o que, mais uma vez, é um sinal muito positivo para que essa população viaje mais e acelere o crescimento do tráfego aéreo na região”, afirmou o gerente global de pesquisa e previsão de mercado da fabricante europeia.
O tráfego doméstico deverá ser o principal motor da expansão, com crescimento próximo de 4% ao ano nos próximos 20 anos. A Airbus também prevê avanço das conexões internacionais, especialmente nas rotas com destino à China, à África e ao Oriente Médio.
A fabricante cita como exemplo a ligação entre Buenos Aires e Xangai, inaugurada pela China Eastern no fim de 2025, como uma das rotas que ilustram o potencial de expansão das conexões entre a América Latina e a Ásia.
Região tem maior demanda por aviões de corredor único
No cenário global, a Airbus estima que mais de 42 mil aeronaves novas serão entregues nos próximos 20 anos, considerando modelos de corredor único e de fuselagem larga. Desse total, 80% deverão ser aviões de corredor único, enquanto os demais serão aeronaves maiores, destinadas principalmente a rotas de longa distância.
A América Latina se destaca justamente pela concentração da demanda nos modelos menores. Segundo Fournier, entre as oito regiões consideradas no estudo, a região apresenta a maior demanda por aeronaves de corredor único.A tendência está relacionada ao perfil da malha aérea local, na qual o transporte doméstico tem peso relevante e as companhias precisam ampliar a conectividade entre cidades e países. Atualmente, cerca de 90% dafrota em operação na América Latina é composta por aeronaves desse tipo, segundo os dados apresentados durante o evento.
A predominância, porém, não significa que os aviões maiores perderão espaço. A previsão da Airbus contempla 200 novas aeronaves de fuselagem larga para a região, enquanto as companhias poderão recorrer a modelos de corredor único com maior autonomia para abrir novas rotas internacionais.
É o caso do A321XLR, versão de maior alcance da família A320, que poderá permitir conexões entre mercados antes pouco atendidos por aeronaves menores. Barreira citou oportunidades entre o Cone Sul, o Caribe e a Flórida, além de ligações a partir do Peru e do Nordeste brasileiro.
“O A321XLR não foi desenvolvido para substituir outras aeronaves, mas para complementá-las”, afirmou o executivo. Segundo o presidente da Airbus para a América Latina e Caribe, o modelo permite que companhias que já operam aviões da família A320 ampliem sua rede de destinos sem necessariamente recorrer a aeronaves de fuselagem larga.
Renovação da frota ganha importância
Além da expansão da demanda, a renovação das aeronaves em operação deverá responder por uma parcela crescente das entregas mundiais. Na edição de 2025 do GMF, a Airbus estimava que 44% das novas aeronaves seriam destinadas à substituição de modelos antigos. Na projeção deste ano, a participação subiu para 47%.
A revisão reflete o envelhecimento da frota em operação, que ficou mais antiga do que era antes da pandemia de Covid-19. Segundo Fournier, as companhias aéreas também buscam aeronaves mais eficientes para reduzir custos operacionais, especialmente com combustível.
Na América Latina, 45% da frota em operação em 2025 já era composta por aeronaves de nova geração, a segunda maior proporção entre as regiões avaliadas pela Airbus, atrás apenas da Índia, onde o percentual chega a 80%.
A fabricante vê espaço para ampliar essa participação à medida que as companhias renovarem seus aviões e expandirem a malha. “As companhias aéreas querem continuar seguindo essa tendência de manter uma frota mais nova”, afirmou o gerente de pesquisas.
A renovação, no entanto, ocorre em um contexto de dificuldades na cadeia de suprimentos da indústria aeronáutica, que têm limitado o ritmo de produção e atrasado entregas. Questionado sobre o tema, o presidente da fabricanete de aeronovas na região afirmou que a Airbus ampliou sua capacidade industrial desde a pandemia, passando a operar dez linhas de montagem da família A320, ante sete ou oito anteriormente.
A empresa também mantém equipes trabalhando junto aos fornecedores para identificar gargalos e reduzir o risco de atrasos. O executivo ponderou, porém, que a indústria aeroespacial tem exigências específicas de certificação e qualidade, o que dificulta a substituição rápida de fornecedores.
Airbus amplia presença industrial na região
A perspectiva de crescimento do mercado latino-americano também tem relevância para a estratégia da própria Airbus, que mantém operações comerciais, industriais e de manutenção em diferentes países da região.
Segundo Barreira, a fabricante tem mais de 900 aeronaves comerciais em operação na América Latina e no Caribe, além de quase 500 unidades a entregar. A empresa afirma deter 52% da frota comercial atualmente em operação na região e mais de 65% da carteira de pedidos de aeronaves ainda não entregues.No México, a participação é maior, com 56% dos aviões em operação são da Airbus, enquanto 92% das aeronaves previstas para entrega no país pertencem à fabricante. Volaris e Viva, duas companhias de baixo custo que estão entre os principais clientes locais da empresa, operam juntas mais de 250 aeronaves da família A320.
A Airbus também pretende dobrar até 2030 a capacidade de sua unidade industrial em Querétaro, no México, onde fabrica portas e submontagens de helicópteros. A instalação produz atualmente 4 mil portas, segundo os executivos.
Além da fabricação, a Airbus mantém operações de manutenção de helicópteros no México, no Brasil e no Chile, centros de treinamento e atividades de engenharia e produção de estruturas aeronáuticas. Ao todo, a empresa emprega diretamente 1.700 pessoas na região e movimenta uma cadeia de fornecimento que representa quase US$ 1 bilhão em compras anuais.
Para Barreira, o desenvolvimento da aviação também depende de investimentos em infraestrutura aeroportuária e de controle de tráfego aéreo. Embora não identifique limitações para a operação de aeronaves de fuselagem larga nos principais aeroportos da região, o executivo afirma que a expansão do setor exige melhorias para acompanhar a demanda.
“Estamos em uma região na qual não existem muitas alternativas ao transporte aéreo”, disse. “Se quisermos desenvolver negócios dentro do próprio país, sem o transporte aéreo tudo fica muito mais complicado”, concluiu.
