Alavancagem crescente em Wall Street eleva risco de turbulência, dizem analistas

O forte aumento da alavancagem nos mercados financeiros dos Estados Unidos começa a preocupar investidores e estrategistas, que veem o movimento como um potencial fator de amplificação para futuras crises.
O avanço do uso de capital emprestado ocorre em um momento de incertezas sobre juros, inflação e a sustentabilidade da valorização das bolsas, especialmente das empresas ligadas à inteligência artificial.
Segundo a Bloomberg, o cenário também provocou uma alta incomum nos custos de financiamento para operações com ações. A combinação entre a demanda por posições alavancadas, o crescimento dos ETFs com efeito multiplicador e a necessidade de os bancos reservarem capital para grandes ofertas públicas de ações levou esses custos ao maior nível desde dezembro de 2024.
Demanda por crédito cresce em diferentes segmentos do mercado
De acordo com participantes do mercado, a expansão da alavancagem vai além das tradicionais contas de margem. O crescimento também é observado em produtos negociados em bolsa com efeito alavancado, nas operações de fundos de hedge junto a corretoras prime broker e em segmentos do chamado shadow banking, formado por instituições financeiras que atuam fora do sistema bancário tradicional.
Para Andy Kent, corretor da Kyte à Bloomberg, a alavancagem se tornou um dos principais temas para investidores neste ano. Na avaliação dele, o elevado volume de recursos emprestados torna o mercado mais vulnerável a choques de liquidez e pode intensificar oscilações caso o cenário econômico se deteriore.
Quanto maior o uso de alavancagem, maior tende a ser a sensibilidade dos mercados a movimentos relativamente pequenos, que podem desencadear vendas em cadeia e ampliar a volatilidade dos ativos.Estratégias de proteção refletem incertezas sobre economia
A combinação de inflação resistente e juros elevados tem levado investidores a buscar instrumentos de proteção que combinam diferentes classes de ativos. Bancos de investimento relatam aumento na procura por estruturas que relacionam o desempenho das bolsas ao comportamento das taxas de juros.
Inicialmente, muitos operadores apostavam em um cenário de estagflação, no qual as ações cairiam enquanto os juros permaneceriam elevados. Mais recentemente, parte do mercado passou a montar posições que apostam na queda simultânea das ações e dos juros, cenário típico de uma desaceleração econômica mais forte.
Instituições financeiras continuam lançando novos produtos para atender essa demanda. O JPMorgan, por exemplo, recomendou recentemente estratégias com opções do S&P 500 condicionadas ao comportamento das taxas de juros, aproveitando a baixa correlação atual entre os dois mercados.
Volatilidade permanece contida apesar das oscilações
Mesmo com quedas superiores a 1% registradas pelo S&P 500 em diversos pregões de junho e movimentos ainda mais intensos no Nasdaq 100, os indicadores tradicionais de volatilidade continuam relativamente comportados.
O VIX, conhecido como o "índice do medo" de Wall Street, apresentou apenas altas temporárias ao longo das últimas semanas e permanece próximo dos 20 pontos. Para alguns gestores, isso indica que ainda existe espaço para nova redução da volatilidade caso o mercado retome a trajetória de alta.
A sazonalidade também favorece esse cenário. Historicamente, julho costuma registrar os menores níveis médios do VIX desde o início da série histórica, em 1990.
Rali da IA convive com riscos crescentes
Embora as ações ligadas à inteligência artificial tenham passado porepisódios recentes de volatilidade, especialistas afirmam que a demanda por financiamento permanece elevada e continua sustentando o uso de alavancagem.
Para gestores, de acordo com a Bloomberg, o principal risco não está necessariamente na direção do mercado, mas na concentração de posições financiadas por crédito. Caso ocorra um choque macroeconômico relevante, a necessidade de desalavancagem simultânea pode ampliar a intensidade das correções nas bolsas.
