Alea deixa de ser só prejuízo e vira trunfo da Tenda contra o fim da escala 6x1
Metade da produção da Alea acontece em fábrica, sem trabalho aos sábados; CFO diz que meta do grupo é ter impacto zero da nova jornada

Até pouco tempo atrás, a Alea era o ponto fraco dos balanços da Tenda (TEND3). A divisão de casas industrializadas dá prejuízo, teve a projeção de margem cortada em 2025 e chegou a registrar custos de obra até 30% acima do previsto. Com o fim da escala 6x1, porém, ela virou a operação mais preparada do grupo para a nova jornada de trabalho.
Metade do processo produtivo da Alea acontece dentro de uma fábrica, e a operação já não trabalha aos sábados.
"Ela está bem posicionada tanto para a reforma tributária quanto para o fim da 6x1", afirmou Luiz Mauricio Garcia, CFO da Tenda, em entrevista à EXAME.
A Alea é a versão mais avançada do modelo industrial com que a Tenda pretende atravessar a mudança sem perder margem. "O nosso objetivo era ter impacto zero do fim da 6x1. E a gente está sendo bem-sucedido nesse objetivo. O impacto que estamos tendo é transitório", disse Garcia.
O Congresso promulgou em 16 de outubro a Emenda Constitucional 141/2026, que acaba com a escala de seis dias de trabalho para um de descanso. Em meados de dezembro, 60 dias após a publicação, a jornada máxima cai de 44 para 42 horas semanais, com duas folgas por semana.
Em 14 meses, a jornada chega a 40 horas semanais, sem redução de salário.
Para a construção civil, um setor historicamente dependente de mão de obra, a conta é alta. Estudo da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic) estima que a mudança pode elevar os custos do setor em até R$ 20,3 bilhões por ano, com alta de cerca de 10% no valor da hora trabalhada.
No Minha Casa Minha Vida (MCMV), segmento da Tenda, o efeito tende a ser mais duro. O programa tem teto de preço por faixa, o que limita o repasse de custos ao comprador.
Uma fábrica de casas
Na Alea, a casa é produzida em ambiente fabril e enviada ao canteiro para ser montada. "Você produz a casa e só manda para ela ser montada como um Lego no canteiro", explicou Garcia. Na obra, restam as ligações finais. Por isso, segundo ele, o trabalho se divide quase meio a meio entre fábrica e canteiro.
O modelo nem sempre funcionou. Em 2025, a empresa admitiu que vinha abrindo novas praças para a Alea antes de estabilizar as anteriores. A saída foi concentrar os lançamentos em três cidades do interior paulista: Tupã, Bauru e Ribeirão Preto.
Quando a Alea usou empreiteiros externos sem experiência no modelo, a produtividade caiu e os custos de construção ficaram até 30% acima do previsto.
A correção passou pela mão de obra própria. No fim de setembro, 15 das 18 obras da Alea eram verticalizadas, contra cinco de 33 um ano antes.
Os números começam a reagir. No terceiro trimestre, a Alea teve lucro bruto ajustado de R$ 5,1 milhões, ante prejuízo de R$ 3,6 milhões um ano antes.
O consumo de caixa foi o menor da série histórica, de R$ 11,3 milhões, considerando a participação da Tenda.
A última linha, porém, ainda está no vermelho. O prejuízo líquido foi de R$ 27,7 milhões no trimestre. "A expectativa é que ela chegue no lucro até o final do ano que vem", disse Garcia. A meta vale tanto para o resultado contábil quanto para a geração de caixa.
A linha de montagem da Tenda
A lógica industrial não se limita à Alea. Desde 2011, a Tenda organiza suas obras em um modelo inspirado no sistema da Toyota. Cada etapa tem uma equipe dedicada, a estrutura é feita com formas de alumínio, e os kits hidráulicos e elétricos chegam prontos ao canteiro.
Ao contrário do que é comum no setor, a companhia não terceiriza a maior parte da obra, com 77% dos seus 7.959 trabalhadores contratados diretamente.
Para Garcia, isso deixa a Tenda menos exposta à nova jornada. "A gente sempre foca muito no ganho de produtividade de todos os processos construtivos", afirmou. Segundo ele, ter equipes próprias permite treinar e qualificar os funcionários, o que eleva a produtividade.
O CFO vê ainda uma vantagem diante da reforma tributária. Segundo ele, com as novas regras, um fornecedor que tiver aumento de custos terá de repassá-lo à incorporadora, o que não acontece com equipes próprias.
A pressão que a Tenda tenta driblar aparece nos números do setor. Entre 2022 e 2025, o custo da mão de obra na construção acumulou alta de 40,9%, contra 16,2% dos materiais e equipamentos, segundo dados do INCC apresentados pela companhia.
O que o balanço já mostra
O balanço do terceiro trimestre, divulgado nesta quarta-feira, 4, registrou alta pontual de R$ 2,9 milhões no custo de obra. A empresa atribuiu o aumento à estabilização de novas fábricas, após a migração para produtos das faixas 3 e 4 do MCMV.
Mas parte da pressão também veio de ajustes de produção ligados ao fim da 6x1. "Às vezes tem um pouquinho mais de hora extra, mas isso é só um processo transitório", disse Garcia.
O custo de obra ajudou a derrubar a margem bruta ajustada da marca Tenda de 39,9% no segundo trimestre, recorde da série, para 34,6%.
O principal fator, porém, foi a redução do crédito que a própria empresa concede aos compradores, o chamado pró-soluto pós-chaves. Ele caiu de 10% para 7,1% do preço, diante da alta da inadimplência das famílias.
Para o CFO, os distratos e o custo de obra são efeitos não recorrentes. Já o crédito menor "veio para ficar".
O lucro líquido consolidado caiu 48,7%, para R$ 57,3 milhões, pressionado pela marcação a mercado de contratos de swap. Sem esse efeito, o lucro somou R$ 106,4 milhões, alta de 3,7%.
Os próximos passos
A Tenda manteve as projeções para 2026, e Garcia afirmou que o fim da 6x1 não deve alterá-las. O guidance prevê lucro líquido de R$ 600 milhões a R$ 660 milhões no ano, sem considerar o swap. Até setembro, a empresa havia lucrado R$ 419,9 milhões.
A estratégia é seguir ampliando a fatia de imóveis mais caros. No trimestre, seis dos 11 empreendimentos lançados pela marca Tenda foram para as faixas 3 e 4, incluindo a estreia da empresa na faixa 4, na Bahia.
A meta, segundo Garcia, é chegar a uma divisão em três partes iguais: um terço para a faixa 1, um terço para a faixa 2 e um terço para as faixas 3 e 4.
Na Alea, a prioridade é garantir rentabilidade por unidade antes de acelerar a produção e as vendas.
