Além da conta PJ: Cora aposta em crédito e inteligência artificial para ampliar apoio à PMEs

Antes de ganhar CNPJ, a Cora já existia como um incômodo. Por anos, os empreendedores Igor Senra e Leonardo Mendes conviveram com a burocracia e a rigidez do sistema financeiro tradicional. No dia a dia, enfrentavam processos pouco intuitivos, produtos genéricos e uma ausência crônica de ferramentas desenhadas para a real gestão de um negócio.
Senra começou a empreender aos 16 anos, operando desde lojas de roupas até negócios de tecnologia. Em 2007, ao lado de Mendes — hoje CPO da Cora —, fundou o Moip, plataforma de pagamentos voltada para e-commerce e marketplaces. A experiência de mais de uma década liderando a empresa trouxe à dupla uma radiografia precisa das dores do empreendedor brasileiro — e a certeza de que havia ali uma grande oportunidade.
Os dados macroeconômicos justificam o foco. Segundo o Sebrae, os 22,5 milhões de pequenos negócios no país respondem por 99% das empresas brasileiras, geram 66,5% dos empregos formais e representam quase 27% do PIB. Foi para atender a essa fatia robusta, historicamente negligenciada pelos grandes bancos, que a Cora nasceu em 2019, focada exclusivamente em PMEs. Desde então, mais de 1,7 milhão de empresas já foram integradas à sua base.
"Costumo dizer que a Cora nasceu muito antes de 2019. Ela é o resultado de mais de uma década de convivência diária com quem empreende no Brasil", afirma Senra, CEO da Cora.
A ambição, contudo, nem sempre foi desse tamanho. No início do Moip, o objetivo era mais pragmático. "A nossa ideia inicial era basicamente copiar o PayPal", admite o executivo. "Éramos uma startup de pagamento tentando replicar um modelo consagrado lá fora. Um começo pouco inspirador. O rumo mudou quando percebemos, no contato direto com os clientes, que nossa missão real não era copiar ninguém, mas sim fazer a engrenagem daqueles negócios girar."
Trajetória sob medida e virada financeira
Nos primeiros anos, a estratégia da Cora baseou-se em transformar as dores dos clientes em soluções reais. Entre 2019 e 2021, a empresa despontou ao ser pioneira na oferta de Pix e boletos gratuitos para contas empresariais — uma cartada que acelerou exponencialmente a tração da sua base de usuários. A partir de 2023, a operação ganhou musculatura tecnológica ao internalizar os sistemas de Pix e boletos, além de intensificar constantemente o uso de inteligência artificial. Como resultado, a empresa reduziu o custo de atendimento pela metade em menos de um ano e inverteu a curva de rentabilidade, alcançando um patamar em que cada cliente passou a gerar mais receita do que custo.
Essa eficiência pavimentou o caminho para os principais marcos institucionais da companhia. No final de 2024, a Cora obteve a licença do Banco Central para operar como Sociedade de Crédito, Financiamento e Investimento (SCFI) e atingiu o breakeven. Ao longo de todo o ano de 2025, a operação consolidou-se totalmente no azul, período em que o volume transacionado na plataforma escalou para R$ 190 bilhões e o faturamento registrou um crescimento superior a 60%. O ritmo de expansão seguiu acelerado no primeiro trimestre de 2026, com a empresa registrando uma alta de cerca de 50% em comparação ao mesmo período do ano anterior.
“Atingir o breakeven foi um marco importante, mas ainda mais relevante foi conseguir sustentar esse equilíbrio ao longo de todo o ano passado enquanto crescemos de forma consistente”, pontua Igor Senra. “Esse resultado reafirma que é possível escalar com responsabilidade, respeitando a regulação e colocando a saúde do negócio no centro da estratégia.”
A dinâmica de mercado da Cora reforça a agenda de governança do Banco Central, diferenciando as instituições que expandem com base em fundamentos sólidos, capital adequado e modelos sustentáveis daquelas que priorizavam o crescimento a qualquer custo através da queima de caixa.
Um caminho estruturado: Crédito inteligente e IA em 2026
Com a operação financeiramente sustentável e a governança consolidada, a Cora inicia o segundo semestre de 2026 com foco na ampliação de sua estratégia de crédito de forma criteriosa e no uso intensivo de Inteligência Artificial. Soluções como capital de giro e antecipação de recebíveis de boletos já fazem parte do portfólio, mas agora ganham escala impulsionadas por inteligência de dados e políticas rigorosas de mitigação de risco.
“O crédito é uma alavanca poderosa para o crescimento dos pequenos e médios negócios, mas precisa ser oferecido no momento certo e da forma correta. Em 2026, nosso foco tem sido ampliar essa atuação com ainda mais inteligência, sempre priorizando a sustentabilidade financeira dos empreendedores”, avalia o CEO.
Além do crédito, a Cora vem ampliando sua atuação em inteligência artificial e já disponibiliza para parte de sua base o Agente de Cobranças, solução que automatiza o processo de recuperação de pagamentos de forma integrada ao fluxo financeiro das empresas. O assistente identifica automaticamente boletos vencidos, realiza o envio de cobranças via WhatsApp sem necessidade de aprovação humana e, por meio de inteligência artificial, interpreta as respostas dos clientes para identificar e classificar a intenção de pagamento. A solução apresenta forte adesão entre os clientes da Cora e já registra taxa de recuperação superior a 20% dos valores cobrados.
O fator humano: da aliança contábil às comunidades
O ecossistema da Cora foi projetado para ir além da movimentação financeira tradicional. O aplicativo integra ferramentas de fluxo de caixa e projeções preditivas de entradas e saídas. "Substituímos a lógica passiva do 'saldo disponível' pela lógica ativa do planejamento estratégico", explica Senra.
Ao longo dessa jornada, um público específico mudou o ponteiro da companhia: os contadores. Identificados internamente com os maiores índices de satisfação, conversão e retenção, esses profissionais passaram a atuar como promotores orgânicos da marca.
Essa percepção levou a Cora a construir um modelo de parcerias que hoje reúne mais de 10 mil profissionais — contadores, correspondentes bancários e consultores — num ecossistema em que a fintech e seus parceiros crescem juntos. O impacto financeiro é expressivo: clientes originados por esse ecossistema representavam 7% da receita em 2024, saltaram para 15% em 2025 e a projeção para 2026 é que se aproximem de 30% da nova receita.
O modelo se diferencia por resolver dois dos maiores gargalos do profissional contábil. O primeiro é visibilidade: a Cora gera hoje mais de 2.000 leads qualificados por mês para seus parceiros — impacto direto em novas receitas para escritórios que, na maioria dos casos, não têm equipe comercial nem orçamento de marketing. O segundo é eficiência operacional: ferramentas como o extrato automático e o Acesso Contador permitem ao profissional automatizar etapas da conciliação contábil e estruturar operações de BPO financeiro dentro do próprio escritório, transformando horas de trabalho manual em serviços de maior valor agregado.
"O objetivo é eliminar o atrito operacional e o desgaste da cobrança de documentos entre o contador e a empresa, permitindo que contadores e contadoras ocupem um papel muito mais estratégico ao lado de quem empreende", destaca Senra, relembrando a própria trajetória. "Desde os meus 16 anos, tive na minha contadora, a Cecília, uma conselheira estratégica. É essa relação de valor que queremos resgatar."
Paralelamente, a marca tem expandido sua atuação para frentes de visibilidade e fomento à comunidade, como as campanhas de conteúdo gerado por usuários (UGC), onde usa sua força de marca para dar visibilidade aos pequenos e médios negócios, e a Central de Benefícios, que reúne uma série de empresas parceiras que oferecem descontos significativos em soluções complementares aos serviços financeiros já disponibilizados pela Cora, ampliando ainda mais o valor entregue aos seus clientes.
Ao amarrar tecnologia de ponta, crédito consciente e uma robusta rede de parcerias, a Cora se posiciona em 2026 não apenas como mais uma conta digital PJ, mas sim como o principal ecossistema de sustentabilidade e inteligência de negócios para as PMEs brasileiras.
