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Mundo
17/09/2026
5 min

Além das deportações: como a política migratória de Trump chega na economia

Estudo mostra relação entre atividade da polícia imigratória de Trump e queda nos empregos nos Estados Unidos

Além das deportações: como a política migratória de Trump chega na economia

A política migratória de Donald Trump já começa a aparecer nos indicadores econômicos locais dos Estados Unidos. Um estudo do think tank Brookings Institution aponta que a expansão das operações do Immigration and Customs Enforcement (ICE) em 2025 esteve associada a uma queda persistente no emprego nas cidades onde a agência ampliou sua atuação.

Segundo a pesquisa, o efeito foi além dos trabalhadores diretamente afetados pelas detenções e se manteve nos meses seguintes ao início das operações.

De acordo com a pesquisa, o emprego nas 64 regiões metropolitanas classificadas como áreas de maior intensidade de operações ficou 0,43% abaixo da trajetória esperada, sem o aumento da fiscalização, seis meses após o início das ações.

Onze meses depois, o déficit estimado chegou a 0,69%, embora essa última estimativa seja baseada em apenas 11 cidades e, por isso, apresente maior incerteza, realça o Brookings.

Para definir as cidades afetadas, os autores consideraram aquelas que ficaram no quartil superior de crescimento das prisões tanto em números absolutos quanto em relação ao tamanho da força de trabalho. Das 341 áreas metropolitanas analisadas, 64 atenderam simultaneamente aos dois critérios e compuseram o grupo de maior intensidade de fiscalização.

A diferença entre prisões e perdas de empregos é um dos principais resultados da pesquisa. Apesar de as cifras parecerem pequenas, o estudo revela que, se cada detenção representasse a perda de apenas um posto de trabalho, o número de vagas perdidas seria muito menor.

Seis meses após o início das operações, o emprego havia recuado 0,43%, enquanto o excesso de prisões equivalia a apenas 0,11% do emprego das cidades analisadas.

Na prática, o déficit de empregos foi cerca de quatro vezes maior do que o número de detenções adicionais.

Os pesquisadores observam ainda que essa relação pode subestimar o efeito real, pois parte das pessoas presas poderia atuar no mercado informal, ser autônoma ou não estar empregada formalmente.

Então, o que aconteceu?

Cidadãos chegam na Guatemala após serem deportados dos EUA pela polícia imigratória ICE (John Moore/Getty Images)

O Brookings aponta três mecanismos principais para explicar por que o impacto econômico se estendeu para além dos trabalhadores diretamente retirados do mercado.

O primeiro é o chamado “efeito de resfriamento”, em que trabalhadores deixam de frequentar locais públicos ou de trabalhar por medo de entrar em contato com agentes de imigração, mesmo sem terem sido presos.

A visibilidade das operações parece desempenhar um papel central nesse processo: segundo estudos citados pelo Brookings, ações realizadas diretamente nas comunidadestiveram maior impacto no consumo do que as transferências de pessoas já detidas em prisões, enquanto a cobertura das operações do ICE na imprensa em espanhol também esteve associada à redução do fluxo de consumidores.

O segundo mecanismo é a interrupção das atividades empresariais. A ausência repentina de trabalhadores pode comprometer equipes, cronogramas e operações que dependem de funções interligadas, levando as empresas a reduzir horas, adiar projetos, congelar contratações, diminuir a produção ou até fechar unidades.

Na região de Minneapolis-Saint Paul, outro estudo citado pelo Brookings identificou uma queda de até 1,7% no número de estabelecimentos em funcionamento após o aumento das operações.

O terceiro canal é a redução da demanda local. Com consumidores evitando espaços públicos ou reduzindo gastos, restaurantes, lojas e outros negócios perdem receita, o que pode levar a novas reduções de pessoal e demissões.

Uma pesquisa mencionada no estudo estimou, ainda, que as operações do ICE reduziram em 2,73% as visitas semanais a estabelecimentos e em 6,18% os gastos dos consumidores nas regiões metropolitanas analisadas.

Impacto direto e duradouro

Polícia prende manifestantes em Newark durante protesto contra a ICE. Atuação direta do órgão em comunidades já resultou em mortes (Ryan Murphy/AFP/Getty Images)

O estudo também encontrou evidências de que a queda no emprego foi mais associada às prisões realizadas diretamente nas comunidades — em locais de trabalho, residências e abordagens de trânsito — do que às transferências de pessoas já sob custódia.

Para os autores, o resultado é consistente com a hipótese de que a visibilidade da fiscalização amplia os efeitos econômicos por meio do medo e da desorganização da atividade local.

Outro ponto levantado pela pesquisa é que os efeitos podem persistir mesmo após a redução das operações.

Um estudo citado pelo Brookings estima que apenas 42% de uma possível recuperação do consumo ocorreria no primeiro ano após uma interrupção completa da fiscalização, sugerindo que famílias e empresas podem demorar a retomar padrões anteriores de atividade.

O Brookings ressalta que a estimativa de 0,69% 11 meses após o início das operações deve ser interpretada com cautela, pois, nesse estágio, apenas 11 das 64 cidades do grupo de maior intensidade permaneciam observáveis.

Ainda assim, segundo os pesquisadores, a trajetória dos dados não apresentava sinais de recuperação até dezembro de 2025.

O estudo conclui que o impacto econômico da ofensiva migratória não pode ser explicado apenas pela retirada de trabalhadores detidos pelas autoridades.

O aumento da fiscalização teria provocado, além das perdas diretas, a redução da oferta de trabalho, dificuldades para as empresas e o enfraquecimento do consumo, ampliando os efeitos nos mercados de trabalho locais.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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