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Mundo
23/09/2026
9 min

Alemanha fragmentada: crise de confiança e disputas políticas desafiam Merz

Política alemã vive seu período mais conturbado no pós-guerra, com partido considerado de extrema direita conseguindo vitórias e eleitores divididos

Alemanha fragmentada: crise de confiança e disputas políticas desafiam Merz

RESUMO | As eleições alemãs do domingo, 20, encerraram a coalizão entre CDU e SPD e abriram caminho para um governo de centro-direita formado pela CDU, de Friedrich Merz, e pelo FDP. O resultado também expôs o enfraquecimento dos partidos tradicionais e o avanço da AfD, sobretudo no leste da Alemanha.


As eleições alemãs do último domingo,20, marcaram o fim da chamada “grande coalizão” entre a União Democrata-Cristã (CDU), liderada pelo chanceler Friedrich Merz, e o Partido Social-Democrata (SPD), após um período considerado de pouca iniciativa política. O resultado abriu caminho para um governo de centro-direita, formado pela CDU e pelo Partido Democrático Liberal (FDP), que ganhou força no pleito.

O golpe vem apenas 16 meses adentro no governo de Merz. Com míseros 13%, Merz enfrenta os menores índices de aprovação de qualquer chanceler alemão desde o início das pesquisas. O ex-advogado corporativo é considerado por muitos como arrogante e desconectado dos problemas enfrentados pela Alemanha e pelo seu povo.

O principal revés foi, todavia, sofrido pelo SPD, partido que, durante décadas, esteve entre os pilares da estabilidade política alemã, característica que torna o país de destino atraente para investidores e lhe confere uma posição geopolítica favorável.

A legenda, associada a nomes como Willy Brandt e Helmut Schmidt, considerados entre os maiores líderes da Alemanha, teve um de seus piores desempenhos históricos e passará à oposição, diante da necessidade de redefinir sua identidade e recuperar sua base eleitoral.

Segundo o especialista americano sobre a Alemanha, William M. Drozdiak, em artigo do think tank Council on Foreign Relations (CFR), o resultado representou uma mudança significativa no equilíbrio político do país.

Tanto a CDU quanto o SPD perderam votos, mas os liberais foram os grandes vencedores, beneficiados também pela decisão de parte dos eleitores conservadores de votar estrategicamente no FDP para viabilizar uma coalizão de centro-direita.

Dinâmicas internas: eleitores divididos

Co-líder do partido direitista AfD, Alice Weidel.

A ascensão da AfD também reflete uma transformação gradual no cenário político alemão. Criado em 2013 com foco no euro e no ceticismo em relação à integração europeia, o partido rapidamente passou a reunir conservadores descontentes, nacionalistas e eleitores críticos às mudanças sociais e culturais do país.

A imigração se tornou um dos principais motores desse crescimento, à medida que parte do eleitorado passa a associar a chegada de estrangeiros a mudanças na identidade e na vida cotidiana. O partido ampliou esse discurso para temas econômicos e culturais e, atualmente, defende políticas de imigração mais restritivas e uma maior aproximação com a Rússia e a China.

O avanço deixou de ser apenas regional: em agosto, pesquisas nacionais colocavam a AfD entre 27% e 28% das intenções de voto, acima da CDU/CSU, que aparecia entre 20% e 22,5%, dependendo do instituto.

Notavelmente, a sigla não se alinha a Trump e permanece crítica em relação ao presidente americano.

Algumas medidas e falas do republicano alienaram muito seu suporte na Europa, inclusive de partidos ideologicamente alinhados; a legenda criticou os bombardeios de Washington e Israel contra o Irã em 2025 e voltou a se posicionar contra a ação militar americana na Venezuela, em janeiro deste ano.

A reação mais contundente, porém, veio diante das pressões de Donald Trump sobre a Groenlândia, território autônomo do Reino da Dinamarca.

A copresidente da AfD, Alice Weidel, afirmou que o governo americano havia abandonado o compromisso de não interferir nos assuntos de outros países, enquanto o também copresidente Tino Chrupalla classificou a postura de Washington como baseada em “métodos do Velho Oeste”.

O enfraquecimento dos social-democratas está ligado, em parte, às reformas promovidas pelo ex-chanceler Gerhard Schröder para reduzir o Estado de bem-estar social. As mudanças afastaram sindicatos e parte dos trabalhadores tradicionais do SPD, levando muitos eleitores ao partido Die Linke, também formado por antigos comunistas, que passou a ocupar espaço à esquerda da social-democracia.

A campanha do SPD também sofreu com a liderança de Frank-Walter Steinmeier, então chanceler em exercício no governo anterior, que nunca havia ocupado um cargo eletivo. Na avaliação de Drozdiak, a campanha foi pouco mobilizadora e não conseguiu oferecer uma agenda capaz de reconquistar eleitores insatisfeitos com a participação do partido na coalizão com Merz.

Embora a CDU tenha obtido apenas 33,5% dos votos, um de seus piores resultados desde 1959, parte da perda pode ser explicada pela migração de eleitores para o FDP. A estratégia buscava garantir uma aliança capaz de promover reformas tributárias e mudanças nas áreas de saúde e educação, além de ampliar a defesa dos direitos individuais.

O FDP ganhou espaço com uma plataforma baseada em reformas orientadas pelo mercado e na redução da presença do Estado na vida econômica e social. A legenda reúne empresários, jovens profissionais e acadêmicos favoráveis à redução dos mecanismos de controle estatal e a mudanças estruturais na economia alemã.

Mais preocupante, todavia, é o avanço do partido considerado de extrema direita, Alternativa para a Alemanha (AfD), que ganhou força nas eleições estaduais de setembro.

No dia 6 desse mês, o partido obteve cerca de 44% dos votos na Saxônia-Anhalt, mais do que o dobro do seu resultado anterior e próximo da maioria necessária para governar o estado sozinho, algo inédito na história da sigla, e um ímpeto da direita alemã não visto no pós-guerra. O desempenho deixou a CDU, de Friedrich Merz, em segundo lugar, com apenas cerca de 18%, e intensificou a pressão sobre o chanceler.

Duas semanas depois, a AfD voltou a vencer, desta vez em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, no nordeste do país, com 38,2% dos votos e 32 das 71 cadeiras do Parlamento estadual. A CDU ficou abaixo da cláusula de 5% e não conquistou assentos, o que a coloca em seu pior desempenho estadual desde o pós-guerra.

Os resultados consolidam a expansão da AfD, sobretudo no leste alemão, e aumentam a pressão sobre o chamado “cordão sanitário” que impede os demais partidos de formar coalizões com a legenda.

Apesar das vitórias regionais, a AfD continua fora do governo federal e sem parceiros dispostos a governar com ela, enquanto sua agenda inclui restrições mais duras à imigração, a aproximação com a Rússia e a oposição ao atual apoio alemão à Ucrânia.

No palco global: Alemanha como peça central

Friedrich Merz, chanceler da Alemanha, discursando no World Economic Forum. Após décadas de estabilidade política, a Alemanha se tornou peça central dos afazeres geopolíticos (Fabrice Coffrini/Getty Images)

Na política externa, a chegada dos liberais ao governo, com Guido Westerwelle como vice-chanceler e ministro das Relações Exteriores, deveria aproximar Berlim de Washington, avalia o CFR.

A expectativa era manter o apoio às missões da Otan, embora o novo governo acompanhasse de perto a revisão da estratégia americana e reconhecesse as dificuldades enfrentadas.

Em relação ao Irã, a Alemanha teria um papel relevante por manter uma das principais relações comerciais europeias com o país, com cerca de US$ 5 bilhões em comércio anual. A descoberta de uma segunda instalação de enriquecimento de urânio reforçou a posição alemã favorável a um regime de sanções mais eficaz, inclusive com a participação da Rússia e da China.

Ao mesmo tempo, o novo governo deveria incorporar duas mudanças importantes em sua política externa: a busca por uma relação renovada com a Rússia e uma defesa mais firme do desarmamento nuclear.

Essa última posição, historicamente associada ao FDP, poderia levar a pressões sobre Merz para retirar as armas nucleares táticas americanas mantidas em território alemão.

A questão nuclear poderia representar um ponto de tensão com os Estados Unidos. Muitos alemães consideravam que as potências nucleares não haviam avançado o suficiente na redução de seus arsenais e defendiam que a Alemanha não deveria ser um território de onde pudesse partir uma guerra nuclear.

Para Washington, porém, essas armas ainda tinham função de compensar a redução das forças convencionais americanas na Europa.

Na política energética, a nova coalizão também deveria rever o calendário de desativação da energia nuclear. Uma lei aprovada durante o governo social-democrata previa o desligamento das usinas alemãs até 2020, mas os liberais defendiam a extensão de sua operação até o fim de sua vida útil.

A mudança poderia provocar uma forte reação do SPD, do Die Linke e dos Verdes, abrindo espaço para novos protestos.

Apesar de assumir o comando da diplomacia, Westerwelle não era considerado um especialista em política externa.

O líder liberal era visto como um político articulado e progressista em temas sociais e se tornaria o primeiro-ministro das Relações Exteriores alemão abertamente gay, mas deveria depender de assessores e especialistas para formular parte da política internacional do novo governo.

Qual foi o resultado das eleições na Alemanha?

As eleições encerraram a coalizão entre a União Democrata-Cristã (CDU) e o Partido Social-Democrata (SPD) e abriram caminho para um governo de centro-direita entre CDU e Partido Democrático Liberal (FDP). A CDU recebeu 33,5% dos votos, enquanto o SPD teve um de seus piores desempenhos históricos.

Por que o FDP ganhou força nas eleições alemãs?

O FDP ganhou força com uma plataforma de reformas orientadas pelo mercado e redução da presença do Estado na economia e na sociedade. Parte dos eleitores conservadores também votou estrategicamente no partido para viabilizar uma coalizão de centro-direita.

Por que o SPD perdeu apoio na Alemanha?

O SPD perdeu apoio após reformas que reduziram o Estado de bem-estar social e afastaram sindicatos e trabalhadores tradicionais. Segundo William M. Drozdiak, especialista em Alemanha, a campanha liderada por Frank-Walter Steinmeier também foi pouco mobilizadora e não apresentou uma agenda capaz de reconquistar eleitores.

Como está a aprovação do chanceler Friedrich Merz?

Friedrich Merz tem 13% de aprovação, o menor índice registrado por um chanceler alemão desde o início das pesquisas, segundo o texto. O resultado eleitoral aumentou a pressão sobre o governo apenas 16 meses após o início do mandato.

Quanto a AfD cresceu nas eleições estaduais?

A AfD recebeu cerca de 44% dos votos na Saxônia-Anhalt e 38,2% em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, onde conquistou 32 das 71 cadeiras estaduais. Apesar das vitórias regionais, o partido permanece fora do governo federal e sem aliados dispostos a formar uma coalizão.

Como a nova coalizão pode mudar a política externa alemã?

A entrada do FDP no governo deve aproximar Berlim de Washington e manter o apoio às missões da Otan, segundo avaliação do Council on Foreign Relations (CFR). A coalizão também deve buscar uma relação renovada com a Rússia e defender com mais firmeza o desarmamento nuclear.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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