Alta participação eleitoral e voto jovem desafiam pessimismo sobre a democracia
Eleições recentes pelo mundo registraram comparecimento expressivo às urnas e reforçaram o papel da mobilização popular, especialmente entre os mais jovens, na disputa política

RESUMO +
Eleições recentes na Sérvia, no Brasil e em Israel registraram participação elevada e reforçaram o papel da mobilização dos jovens na resistência democrática. Segundo Michael Froman, presidente do think tank Council on Foreign Relations (CFR), os resultados derrubaram um governo na Sérvia, deram a Luiz Inácio Lula da Silva um quarto mandato e deixaram Israel sem maioria parlamentar.
Em meio a preocupações com o avanço do autoritarismo, a perda de liberdade de imprensa e os riscos à integridade eleitoral, resultados eleitorais recentes em diferentes países oferecem sinais de resistência democrática.
Eleições na Sérvia, no Brasil e em Israel registraram índices elevados — em alguns casos, históricos — de participação e mostraram que, apesar das ameaças às instituições, o engajamento dos eleitores permanece forte e capaz de influenciar os rumos políticos, especialmente entre as gerações mais jovens.
Em análise publicada por Michael Froman, presidente do think tank Council on Foreign Relations (CFR), o destaque não está em uma orientação ideológica comum entre os três países, mas no comparecimento expressivo às urnas e, em muitos casos, na mobilização dos eleitores mais jovens.
Na Sérvia, um movimento liderado por estudantes derrotou um governo que estava no poder há mais de uma década. No Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva conquistou um novo mandato. Já em Israel, a participação atingiu o maior nível em mais de duas décadas, embora o resultado não tenha definido uma maioria parlamentar.
Mudanças de rumo
Funcionários municipais limpam ruas de Paris após protestos contra o alto custo de vida: manifestações terminaram em saques, incêndios e confrontos na França às vésperas das eleições (Matthieu RONDEL / AFP)
Na Sérvia, o Partido Progressista Sérvio, liderado pelo presidente Aleksandar Vučić, obteve menos de 40% dos votos nas eleições de 25 de outubro. A oposição Lista Estudantil, formada a partir de um movimento de protestos contra o governo, conquistou 53% dos votos e 141 das 250 cadeiras do Parlamento. Vučić, que dominava a política do país desde 2014, reconheceu a derrota.
O movimento estudantil surgiu há menos de dois anos, após o desabamento de uma estação ferroviária que matou 16 pessoas. A tragédia provocou manifestações de estudantes, que se transformaram em um amplo movimento de oposição diante de indícios de fraude e corrupção governamentais relacionados ao acidente. A campanha conseguiu canalizar o descontentamento popular e mobilizar principalmente os mais jovens.
O resultado sérvio reproduz, em parte, uma dinâmica observada na Hungria em abril, quando a participação dos jovens ajudou a encerrar os 16 anos de governo de Viktor Orbán. Assim como na Sérvia, a campanha vitoriosa de Péter Magyar e de seu partido, o Tisza, colocou a corrupção no centro do debate e atraiu eleitores jovens.
A mobilização em Belgrado já dava sinais de sua dimensão antes da votação. Segundo Charles Kupchan, especialista do CFR que esteve na capital sérvia na semana anterior à eleição, cerca de 150 mil pessoas se reuniram no centro da cidade para uma manifestação contra o governo. Para ele, o desafio do movimento estudantil agora será transformar o impulso político em propostas concretas e em capacidade de governar.
No Brasil, a participação eleitoral também foi determinante, mas com um resultado diferente. Lula venceu o segundo turno da eleição presidencial com 51,8% dos votos, contra 48,2% de Flávio Bolsonaro, e garantiu um quarto mandato. A vitória foi acompanhada de uma mobilização digital que ampliou o alcance da campanha petista, especialmente por meio do canal de WhatsApp "Exército do Lula".
A campanha contribuiu para aumentar o comparecimento às urnas no segundo turno. No primeiro, mais de 33 milhões de brasileiros — cerca de 21% do eleitorado — não haviam votado. Na etapa decisiva, 3 milhões de pessoas que haviam se absteram compareceram às seções eleitorais, enquanto os votos brancos e nulos atingiram o menor patamar do século. Com a maioria desses eleitores votando em Lula, o presidente venceu por uma margem de 4,4 milhões de votos.
Em Israel, a participação atingiu 77,7%, o maior índice desde 1999. Cerca de 67 mil israelenses que vivem no exterior viajaram de volta ao país para votar, em uma eleição vista como um julgamento dos 19 anos de liderança de Benjamin Netanyahu e de sua atuação nos conflitos em Gaza, no Líbano e no Irã. Aproximadamente 640 mil eleitores entre 18 e 22 anos estavam aptos a votar, o que corresponde a cerca de 10% do eleitorado.
Apesar do comparecimento histórico, o resultado não resolveu o impasse político. O bloco de Netanyahu conquistou 53 cadeiras no Parlamento, enquanto a oposição, liderada por Gadi Eisenkot, obteve 48. Os partidos árabes, por sua vez, alcançaram um resultado histórico, com 19 assentos. Como nenhum grupo garantiu maioria no Knesset, a formação do próximo governo permanece indefinida.
Mais chão pela frente
Apesar de vitória histórica, Lula ainda enfrenta o desafio de lidar com as insatisfações que quase elegeram seu rival (Paulo Pinto/Agência Brasil)
Mesmo assim, Froman ressalta que eleições com ampla participação não garantem, por si sós, governos capazes de superar a polarização ou de promover mudanças duradouras. Na Sérvia, o movimento estudantil terá de demonstrar capacidade de governança; no Brasil, Lula precisará responder às insatisfações que marcaram a disputa eleitoral; e, em Israel, a fragmentação política pode dificultar mudanças de rumo.
A capacidade de converter mobilização popular em transformações políticas também depende de fatores que vão além das urnas. Em um encontro no CFR, a jornalista filipina e laureada com o Prêmio Nobel da Paz, Maria Ressa, destacou o papel da imprensa e dos protestos na pressão por responsabilização política em seu país, as Filipinas.
A mobilização levou ao envio do ex-presidente Rodrigo Duterte a Haia, na Holanda, para responder a acusações no Tribunal Penal Internacional. Ressa citou, ainda, as manifestações na Geórgia e na Sérvia como exemplos de que a mobilização em defesa da democracia permanece ativa.
Outros testes eleitorais estão no horizonte: a Espanha terá eleições importantes no próximo mês, enquanto a França realizará uma disputa presidencial decisiva na primavera europeia, à sombra de grandes protestos. Nos Estados Unidos, as eleições legislativas de meio de mandato que ocorrem hoje também devem testar o ambiente político do país.
Em todo o caso, Froman considera prematuro falar em um declínio inevitável da democracia. Embora persistam sinais preocupantes, os resultados recentes mostram que a participação eleitoral e a mobilização da sociedade — com destaque para o engajamento dos jovens — ainda podem desempenhar um papel decisivo na defesa e na renovação das instituições democráticas.
