Aluguel de imóvel no Brasil custa 76% mais do que consumidor pode pagar
Levantamento mostra que aluguel mediano é de R$ 3 mil, ante orçamento declarado de R$ 1,7 mil

Encontrar um imóvel que caiba no bolso virou um desafio para boa parte dos brasileiros que procuram uma casa ou apartamento para alugar. No país, o valor anunciado dos imóveis está 76% acima do que os consumidores dizem conseguir pagar, segundo levantamento do DataLais, frente de inteligência de dados da Lastro.
O estudo cruzou o orçamento declarado por 905.466 pessoas, de todos os estados brasileiros, com os preços pedidos em 118 mil apartamentos anunciados. As informações dos consumidores foram coletadas em conversas pelo WhatsApp com 1.500 imobiliárias clientes da DataLais entre 23 de março e 16 de setembro.
A distância entre desejo e realidade aparece logo nos valores nacionais. O orçamento mediano informado por quem procurava um imóvel para alugar foi de R$ 1.700. Já o aluguel mediano dos apartamentos anunciados pelas imobiliárias chegou a R$ 3 mil.
São R$ 1.300 de diferença entre o que o consumidor sinaliza que consegue desembolsar e aquilo que encontra nos anúncios.
O CEO e cofundador da Lastro, Allan Paladino, identifica que o descompasso ajuda a entender por que uma busca por imóvel nem sempre avança para as próximas etapas da locação.
"Os dados mostram uma distância importante entre aquilo que o consumidor sinaliza como possível para o seu orçamento e o que está disponível no mercado. Isso ajuda a explicar por que tantas buscas não necessariamente se transformam em visitas, propostas ou contratos", detalha.
Aluguel sobe mais do que a inflação
A dificuldade para encontrar um imóvel dentro do orçamento ocorre em um momento de avanço dos preços de locação acima da inflação. Segundo o Índice FipeZAP, os preços dos novos aluguéis residenciais acumularam alta de 9,16% nos 12 meses encerrados em agosto.
No mesmo período, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou 4,22%.
Os dois dados ajudam a mostrar lados diferentes do mercado, pois o FipeZAP acompanha os preços anunciados dos aluguéis, enquanto o levantamento do DataLais observa quanto as pessoas que estão procurando um imóvel dizem conseguir pagar.
Essa distância fica ainda mais evidente quando os números são analisados cidade por cidade.
Em Balneário Camboriú, diferença chega a 131%
Balneário Camboriú, em Santa Catarina, apresentou o maior descompasso entre o orçamento dos consumidores e os valores encontrados nos anúncios entre as cidades destacadas pelo levantamento. Lá, o aluguel anunciado ficou 131% acima do orçamento projetado por quem procurava um imóvel.
Porto Alegre (SC) também aparece com uma diferença expressiva, com o preço anunciado 100% acima do valor indicado pelos consumidores. Já Campinas (SP) registrou diferença de 90%, seguida por Itajaí (SC), com 88%, e Ribeirão Preto (SP), onde o descompasso chegou a 87%.
Em São José dos Campos (SP), a distância foi de 84%. Na cidade de São Paulo, os aluguéis anunciados ficaram 80% acima do orçamento informado pelos consumidores. Belo Horizonte (MG) apresentou diferença de 76%, enquanto Londrina (PR) registrou 63%.
Os números mostram que o problema não está concentrado apenas nos locais tradicionalmente associados a imóveis mais caros. O descompasso aparece em grandes capitais, cidades do interior e polos regionais.
Por que o aluguel que cabe no bolso é difícil de encontrar
O levantamento foi elaborado a partir das conversas entre consumidores e imobiliárias realizadas pela DataLais, inteligência artificial (IA) desenvolvida pela Lastro e utilizada no atendimento pelo WhatsApp.
Durante essas interações, consumidores informam quanto pretendem ou conseguem gastar com aluguel. O DataLais cruzou esses valores com os preços efetivamente pedidos nos imóveis anunciados pelas mesmas imobiliárias.
Com isso, o levantamento consegue comparar duas pontas que nem sempre aparecem juntas nas estatísticas do setor imobiliário. De um lado está a oferta disponível e o preço pedido pelo proprietário. Do outro está a capacidade de pagamento declarada por quem procura uma nova moradia.
Para a Lastro, esse cruzamento evidencia a necessidade de aproximar os imóveis disponíveis da realidade financeira dos consumidores.
A companhia avalia que transformar as conversas entre potenciais inquilinos e imobiliárias em dados estruturados também ajuda a identificar as faixas de preço com maior demanda e os pontos em que há mais dificuldade para transformar uma busca em visita, proposta ou contrato.
Segundo os dados apresentados pela empresa, a tecnologia já realizou mais de 2 milhões de interações e atende quase mil imobiliárias no país.A Lastro também informa ter captado mais de US$ 20 milhões em investimentos, com participação de fundos como Prosus, Canary, QED Investors, 1Sharpe Ventures e FJ Labs, além da Endeavor Scale Up.
