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11/10/2026
10 min

Amazonas tem 36 cidades em emergência por incêndios: ‘mais grave do que eu imaginava’, diz ministro

Com Manaus encoberta pelo quarto dia, João Paulo Capobianco vê ação criminosa em focos de mata preservada e rebate Bombeiros

Amazonas tem 36 cidades em emergência por incêndios: ‘mais grave do que eu imaginava’, diz ministro

Nos dez primeiros dias de outubro, o Amazonas registrou 1.380 focos de incêndio, quase quatro vezes os 372 do mesmo período de 2025, segundo o Painel do Fogo do Censipam.

O fogo avança em duas frentes. No sul do estado, Lábrea, Apuí e Novo Aripuanã lideram os registros desde setembro. Na região metropolitana, Itacoatiara, Autazes e Careiro da Várzea queimam no entorno da capital, e um dos incêndios em Itacoatiara, no Lago do Canaçari, é investigado como criminoso.

Desde junho, o Corpo de Bombeiros do estado já combateu 21.112 incêndios urbanos e florestais, quatro em cada cinco no interior.

Em Manaus, onde a névoa vai e volta desde 9 de setembro, sensores do Selva, da Universidade do Estado do Amazonas, registraram na madrugada do dia 8 a maior concentração de partículas finas do ano, 490,1 microgramas por metro cúbico, e a prefeitura suspendeu as aulas da rede municipal no dia seguinte.

A escalada levou o governador Roberto Cidade (União Brasil) a decretar emergência em 36 municípios no sábado, 10, do entorno de Manaus ao sul do estado, passando por cidades como Parintins, Coari e Tefé.

Quando o decreto saiu, porém, a crise já tinha aberto uma terceira frente, a disputa entre o governo estadual e a União sobre a ajuda pedida e recusada em setembro.

Na véspera, o comandante-geral dos Bombeiros, coronel Orleilso Muniz, havia afirmado a emissoras locais que a União negara um pedido de quatro aeronaves.

Menos de 24 horas depois, documentos do Ibama revelados pela Amazônia Real, agência de jornalismo independente sediada em Manaus, mostraram que o próprio comando havia declinado o envio de equipes federais em 25 de setembro, o que a corporação nega.

O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, também veio a público e contestou a versão do comandante em vídeo publicado nas redes sociais na manhã de sábado. “Não é verdade que o governo federal tem se recusado a ajudar”, disse.

Capobianco lembrou o montante de recursos federais já destinados à estrutura de combate a incêndios do estado e cobrou do governo estadual o acionamento formal da Defesa Civil, passo necessário para ampliar a ajuda da União.

No mesmo vídeo, reconheceu que a situação havia piorado e anunciou seis aeronaves para a região de Manaus, antes de se reunir à noite com o governador e com o ministro da Integração, Waldez Góes, na sede da Suframa.

Neste domingo, 11, a fumaça chegou a atrasar o sobrevoo da comitiva federal pelas áreas atingidas. Previsto para o início da manhã, o voo só decolou por volta das 13h, quando o teto de visibilidade foi considerado seguro, segundo o MIDR e o MMA.

Além dos dois ministros, sobrevoaram a região de Autazes o governador, o presidente do Ibama, Jair Schmitt, e o secretário nacional de Defesa Civil, Wolnei Wolff.

Em coletiva realizada para jornalistas locais nesta tarde, na Base Aérea de Manaus, o ministro Capobianco classificou o quadro como “mais grave do que eu imaginava”.

Segundo ele, a comitiva identificou inúmeros focos no meio da floresta preservada, e não apenas fogo de pastagem que avançou sobre a mata, o que indicaria ação intencional para degradar a vegetação e preparar o terreno para desmatamentos futuros.

Waldez Góes descreveu o que viu do alto como “centenas e centenas de focos” dentro da floresta e de áreas protegidas, o que, nas palavras dele, torna o desafio “infinitamente maior”.

O ministro do Meio Ambiente pediu que o governo estadual empregue a Polícia Militar ao lado dos Bombeiros para identificar os responsáveis e defendeu o combate à impunidade na região.

Queimadas concentradas, chuvas adiadas

Entre 1º e 22 de setembro, o satélite de referência do Inpe detectou 3.240 focos de calor no Amazonas, ante 942 no mesmo intervalo de 2025, segundo nota técnica do Ministério Público de Contas do estado.

Só em 22 de setembro foram 520, quase nove vezes o número da mesma data do ano anterior. No acumulado do ano, porém, o estado está abaixo de 2024, quando somou 25.499 focos.

A diferença está na concentração: em 2026, as queimadas se acumularam em setembro e outubro e chegaram mais perto de Manaus.

Em Itacoatiara, segundo município mais populoso do estado, um incêndio ainda avançava sobre a mata fechada em 6 de outubro, 17 dias depois de começar.

Na própria capital, o fogo em uma área de descarte irregular no Distrito Industrial II queimou plásticos, borrachas e solventes, e o Ipaam multou o responsável pelo terreno em R$ 5,5 milhões.

Calor e falta de chuva ajudam a explicar o ritmo. Manaus chegou a 39,2°C em 2 de outubro, e prognósticos do Censipam apontam alta probabilidade de que as condições do El Niño, que reduzem as chuvas na região, persistam até pelo menos o início de 2027.

Enquanto isso, a Defesa Civil mantém 24 municípios em alerta pela má qualidade do ar, os Bombeiros atuam no combate imediato a focos em 33 cidades, e o Instituto Socioambiental estima em cerca de 650 mil as pessoas diretamente afetadas pela seca e pelo calor.

Com o fogo espalhado por dezenas de municípios, os governos federal e estadual também divergem sobre onde ele começa.

Na reunião da Suframa, Capobianco informou que o Ibama extinguiu 1.037 incêndios no país nesta temporada, dos quais 229 no Amazonas, um quarto do total: “Vejam como a situação aqui, de fato, se agravou muito”, disse o ministro.

O governo estadual sustenta que quase 59% das queimadas de setembro e início de outubro ocorreram em áreas federais, como terras indígenas e unidades de conservação.

No recorte do Censipam para os dez primeiros dias de outubro, assentamentos federais, terras indígenas e unidades de conservação somaram 459 focos, cerca de um terço do total, enquanto 93 ocorreram em propriedades privadas e 101 em áreas sem situação fundiária definida.

O painel vincula ao desmatamento 174 focos, cerca de 13% do total, e não identifica a origem dos outros 1.206.

Pediram aviões, ofereceram brigadistas

Em nota, o Ministério do Meio Ambiente informou que o Centro Integrado Multiagência de Coordenação Operacional Federal (Ciman), coordenado pelo Ibama, recebeu em 23 de setembro um pedido de apoio do governo do Amazonas.

Foram então acionados combatentes do Respad, o projeto federal de resposta integrada a desastres, e uma aeronave do programa Pegasus. Segundo a pasta, em 30 de setembro, com as chuvas ajudando a conter os focos, o estado comunicou que o reforço era dispensável, antes do deslocamento das equipes.

O ministério acrescentou que orientou o governo estadual a pedir recursos pelo Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil, o que não havia ocorrido até a divulgação do comunicado.

O ofício do Ibama obtido pela Amazônia Real, agência de jornalismo independente sediada em Manaus, registra que, em 25 de setembro, o Respad comunicou ao Ciman que o comandante dos Bombeiros havia declinado o acionamento pedido pela Secretaria de Meio Ambiente do estado para nove municípios.

Em nota, a corporação negou qualquer recusa e afirmou ter formalizado um pedido de apoio, sobretudo aéreo, em 18 de setembro.

Ainda segundo os Bombeiros, o pedido foi reiterado em teleconferência no dia 25, quando o comando teria dito que o efetivo do Respad poderia ajudar, mas que a prioridade eram aeronaves.

A corporação argumenta também que o Respad reúne bombeiros de outros estados, e não servidores federais, e que, por isso, dispensá-lo não teria sido uma recusa de ajuda da União.

Parte da divergência se explica porque cada parte fala de uma solicitação diferente. O pedido de quatro aeronaves que o coronel Muniz diz ter sido negado foi feito ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Já a nota do MMA trata do pedido recebido pelo Ciman em 23 de setembro, que mobilizou equipes terrestres e acabou dispensado pelo estado.

O comandante também esclareceu que os R$ 45 milhões do ProAmazon, projeto financiado pelo Fundo Amazônia com pagamentos em janeiro de 2025 e março de 2026, se destinam a viaturas, equipamentos e três quartéis, sem previsão de aviões.

Enquanto isso, o estado proibiu o uso do fogo por 120 dias e contratou um avião para operar em Manaus e Iranduba.

Na coletiva deste domingo, os ministros endureceram o tom. Capobianco afirmou que R$ 34,7 milhões do ProAmazon já foram liberados e aplicados pelos Bombeiros na ampliação de sua estrutura, conforme apresentação feita pelo próprio comandante aos ministros horas antes.

“Receber uma informação por parte de uma autoridade do governo do estado, criticando o governo federal por não ter agido, é inaceitável, porque ela não é verdadeira”, disse o ministro.

Waldez Góes contou que o presidente Lula telefonou durante o voo e pediu que fosse refutada qualquer informação inverídica sobre o apoio federal. “Isso não contribui, isso bota mais fogo em vez de estar apagando o fogo”, afirmou no telefonema.

O governo federal confirmou uma frota de 11 aeronaves. Entre elas estão aviões Air Tractor que já lançam água sobre as áreas atingidas e dois cargueiros KC-390 da FAB que já pousaram em Manaus e começam a operar na segunda-feira, ao lado de 290 brigadistas federais em campo.

Capobianco afirmou que o efetivo permanecerá no estado do Amazonas até que sejam apagados os focos que afetam a população de Manaus.

Waldez acrescentou que, se o governo estadual apresentar um plano de trabalho, a União pode repassar recursos para a contratação de mais aeronaves, além das 11, inclusive por meio de atas de preço federais, que aceleram a compra.

O secretário ressaltou que, além do combate ao fogo, a União precisa assistir quem já depende de ajuda humanitária e médica, e informou que equipes da Força Nacional do SUS já atuam no estado.

Segundo ele, a Defesa Civil permanece no Amazonas para planejar essa assistência, que depende de pedidos dos municípios, a serem coordenados pelo governo estadual.

A negociação ocorre com um governo estadual em fim de mandato. Cidade assumiu em abril, após a renúncia de Wilson Lima para disputar o Senado, e ficou em terceiro lugar no primeiro turno, com 21,8% dos votos válidos. Omar Aziz (PSD) e Maria do Carmo (PL) disputam o governo em 25 de outubro.

Três temporadas, a mesma resposta

Em outubro de 2023, o Amazonas teve o maior número de focos para o mês desde o início da série do Inpe, em 1998, e em 12 de outubro Manaus registrou o terceiro pior ar do planeta.

A União enviou então 149 brigadistas do Ibama e do ICMBio, que elevaram a equipe na região a 289 pessoas, contingente quase idêntico ao mobilizado agora.

O governo estadual atribuiu ao Pará parte da poluição, versão contestada por pesquisadores do Inpa, que apontaram queimadas ao sul de Manaus como origem principal.

Em 2024, ano recordista em focos no estado, a estiagem levou 20 dos 62 municípios à emergência ainda em agosto, com quase 290 mil pessoas afetadas.

O desmatamento caiu 32,4% no país naquele ano, mas a Amazônia fechou 2024 com 15,6 milhões de hectares queimados, a maior área de sua série histórica e 117% acima da média, segundo o MapBiomas. O coronel Muniz lembrou que os Bombeiros também haviam pedido apoio federal naquela temporada.

Nos três anos, as brigadas federais chegaram depois que a capital já estava encoberta, e as autoridades passaram a discutir quem havia pedido ou recusado ajuda. A prevenção no interior, de onde parte a maior parte dos incêndios, continua a depender de decretos de emergência.

No Amazonas, a queda do desmatamento foi ainda maior que a média regional. Na coletiva, Capobianco lembrou que, desde 2023, o desmatamento caiu 50% na Amazônia e 75,8% no estado, resultado que o fogo em floresta preservada, apontado por ele como preparo para novas derrubadas, pode comprometer.

AutorLia Rizzo
FonteExame
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