Análise: Onda azul nas midterms transforma os alvos de Trump em protagonistas do poder
Democratas tomam o Congresso e elegem mulheres, negros, indígenas e muçulmanos em número inédito

Em agosto de 2023, perto de completar 50 anos, o especialista em recursos humanos Dia Harris deixou para trás os salários de seis dígitos que recebia em grandes empresas para assumir um cargo federal que pagava menos.
Tornou-se, assim, o primeiro responsável por equidade da Administração para Crianças e Famílias, ligada ao Departamento de Saúde (HHS), o equivalente americano a um Ministério da Saúde.
Criado por uma mãe solo, Harris acreditava que ali poderia ajudar crianças pobres a chegar à universidade com o apoio do Head Start, o programa de creche e merenda do qual ele mesmo dependeu quando menino.
Não houve tempo. Menos de dois anos depois, em fevereiro de 2025, seu nome apareceu numa lista on-line de 93 servidores ligados a iniciativas de diversidade, mantida por um grupo conservador próximo à Heritage Foundation.
Dois terços destes nomes eram de pessoas negras. Pouco depois, o DOGE, braço de corte de gastos da Casa Branca, o demitiu sem indenização e apesar das avaliações de desempenho máximas.
Harris é um entre 32 mil servidores de carreira dispensados desde a volta de Trump à Casa Branca.
Hoje, mais de um ano e 561 currículos depois, separa pedidos on-line num supermercado em Maryland por US$ 16 por hora e paga a hipoteca com a poupança da aposentadoria, relatou o Washington Post.
A reportagem saiu cinco dias antes da eleição. Na terça-feira, milhões de americanos deram nas urnas a resposta que o governo negou a Harris.
Negros, latinos, indígenas, imigrantes e mulheres, os grupos que o governo Trump passou dois anos tratando como alvo, saíram da eleição com um poder inédito no Congresso e nos estados.
Dois anos de cerco
A demissão de Harris foi fruto de uma agenda anunciada ainda na campanha de 2024, quando Trump prometeu varrer do governo tudo o que chamava de woke, rótulo usado pela direita americana para desqualificar pautas raciais e de gênero.
A promessa saiu do palanque já no primeiro dia de mandato quando, em 20 de janeiro de 2025, uma ordem executiva mandou desmontar os programas de diversidade em todas as agências federais.
No dia seguinte caiu a regra de 1965 que obrigava fornecedores do governo a manter ações afirmativas. Os servidores da área foram afastados e, em seguida, demitidos. E o alcance foi além de Washington.
Após a posse, o presidente culpou as políticas de inclusão por um acidente aéreo na capital. Columbia perdeu US$ 400 milhões em verbas, e mais de 40 universidades passaram a ser investigadas. Embaixadas americanas enviaram cartas a fornecedores europeus exigindo o fim desses programas.
No setor privado, Meta, Google, McDonald's, Walmart e Accenture abandonaram metas de representatividade ou baixaram o volume do discurso. As deportações em massa e as batidas do ICE, a polícia de imigração, completaram o recado de que certos grupos estavam na mira.
A conta chegou
Na terça-feira, 3, o eleitor respondeu. Pela contagem parcial da Associated Press até a manhã desta quarta, 4, os democratas já tinham 54 cadeiras no Senado, contra 44 dos republicanos. Na Câmara, somavam 228 eleitos e vantagem em outros 34 distritos, o que pode levar a bancada à maior força desde 1990.
Nem o pedido de Trump para que estados republicanos como o Texas redesenhassem seus mapas eleitorais segurou a onda. Na madrugada de quarta, os democratas tinham tomado 20 assentos dos adversários sem perder nenhum, segundo a NBC News.
No Senado, foram sete cadeiras arrancadas dos republicanos, em Iowa, Kansas, Ohio, Maine, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Texas, algumas em redutos historicamente conservadores.
No Kansas, a última vitória democrata para a Casa havia sido em 1932. Na Carolina do Sul, onde Trump venceu por 18 pontos há dois anos, a pediatra Annie Andrews encerrou um jejum que vinha desde 1998.
Minoria como maioria
Mais do que quantas cadeiras mudaram de mãos, importa quem vai ocupá-las. A começar pelo Texas, que entregou a dupla mais simbólica da noite.
No estado, em que aproximadamente quatro em cada dez moradores são latinos, Gina Hinojosa derrotou o governador Greg Abbott, no cargo havia três mandatos, e será a primeira latina a comandá-lo. Também será a primeira mulher no posto desde Ann Richards, que deixou o governo em 1995.
E na disputa pelo Senado, James Talarico, ex-professor e seminarista presbiteriano de 37 anos - e grande estrela das midterms -, venceu o procurador-geral Ken Paxton, apoiado por Trump, e será o primeiro democrata eleito senador pelo Texas desde 1988.
Na Geórgia, onde a segregação racial vigorou por lei até os anos 1960, Keisha Lance Bottoms se tornou a primeira mulher negra eleita para governar um estado em 250 anos.
Já no Novo México, Deb Haaland, do povo Laguna Pueblo, será a primeira indígena no comando de um estado. E em Michigan, o médico Abdul El-Sayed, filho de imigrantes egípcios, derrotou o ex-deputado republicano Mike Rogers e levará o primeiro muçulmano ao Senado.
Abdul El-Sayed comemora em Detroit: filho de imigrantes egípcios, será o primeiro muçulmano no Senado americano. (Photo by Jeff Kowalsky / AFP) (AFP)
Os marcos não param por aí. No Senado, Peggy Flanagan, de Minnesota, será a primeira mulher indígena, e Chris Pappas, de New Hampshire, o primeiro homem declaradamente gay. Com Juliana Stratton, de Illinois, três senadoras negras terão mandato ao mesmo tempo, algo sem precedente.
Na Câmara, a etíope Melat Kiros, de 29 anos, inaugura a presença da Geração Z entre as mulheres do Congresso. A microbiologista Jasmine Clark chega pela Geórgia com a bandeira da ciência.
Mulheres, aliás, puxaram boa parte da onda: nunca antes mais de 100 deputadas democratas haviam sido eleitas para a Câmara, segundo a bancada feminina do partido.
Custo de vida ou levante woke?
A tentação de ler o resultado como revanche identitária é grande. Convém lembrar, porém, que o custo de vida e a impopular guerra no Irã dominaram a campanha, e foi nessa tecla que os democratas mais bateram.
Talarico, por exemplo, seguiu essa cartilha à risca. Neto de um pastor batista, ele evitou as pautas de costumes e fez uma campanha centrada no bolso do eleitor.
Saiu vitorioso apesar de enfrentar a disputa ao Senado mais cara da história americana,com mais de US$ 200 milhões de Elon Musk a favor de Paxton. Na manhã desta quarta-feira, resumiu à CBS: o Texas “não está à venda”.
As duas leituras, contudo, não se excluem. Quem mais sente o preço do aluguel e do supermercado são justamente os grupos que estiveram na mira nos últimos dois anos.
A trajetória de Dia Harris, do cargo federal ao balcão de um supermercado, ilustra como a ofensiva contra a diversidade chegou ao contracheque de quem foi atingido por ela.
E foram esses grupos que viraram a eleição. O voto latino, que havia migrado para o republicano em 2024, voltou, e 62% apoiaram democratas na Câmara, ante 51% que votaram em Kamala Harris, segundo a pesquisa de boca de urna da NBC News.
Entre os eleitores negros, o apoio chegou a 89%, e a 92% entre as mulheres negras. No eleitorado como um todo, 57% acham que a política de deportações de Trump foi longe demais.
Para estimular o não comparecimento, o ICE intensificou operações em outubro e chegou a avisar nas redes que encontraria quem votasse ilegalmente.
No entanto, conforme o Brennan Center, o efeito foi o oposto do pretendido, com picos de participação justamente nas comunidades mais visadas.
O recado
Na Casa Branca, a reação oscilou. Na noite da eleição, Trump escreveu que os republicanos teriam vencido de lavada se ele estivesse na cédula. Nesta quarta, admitiu ser “em grande parte verdade” que a guerra no Irã custou a derrota, embora tenha dito que o conflito valeu a pena.
Afirmou ainda aceitar o resultado e lembrou que mantém o poder de veto. Com aprovação em torno de 36% a 37%, a menor de seus dois mandatos, torna-se o primeiro presidente republicano a perder as duas Casas numa eleição de meio de mandato desde George W. Bush, em 2006.
A apuração ainda não terminou. No Alasca, Mary Peltola, que pode se tornar a primeira nativa do estado no Senado, disputa voto a voto com o republicano Dan Sullivan, e os democratas podem chegar a 55 cadeiras.
O novo Congresso toma posse em 3 de janeiro com poder de investigar o governo, mas Trump segue no cargo até 2029, com o veto e as ordens executivas à mão.
É cedo, portanto, para dimensionar os efeitos dentro dos Estados Unidos. Mas o resultado já transmite ao mundo um recado poderoso: somados, os minorizados são maioria. E nesta terça, votaram como tal.
