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InvestMercados
28/08/2026
6 min

Analistas veem dólar mais forte e menos espaço para cortes da Selic após fala do Fed

Sinalização de Kevin Warsh nesta sexta, 28, de que a inflação ainda exige cautela elevou os juros dos Treasuries e reforçou apostas de aperto monetário nos EUA

Analistas veem dólar mais forte e menos espaço para cortes da Selic após fala do Fed

O tom mais duro do presidente do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, em Jackson Hole, nesta sexta-feira, 28, reforçou entre analistas a avaliação de que os juros dos Estados Unidos podem permanecer elevados por mais tempo. Um cenário que, inclusive, reduz o espaço para cortes mais rápidos da taxa básica de juros no Brasil, a Selic, e tende a manter o dólar pressionado para cima frente ao real.

Durante o discurso no tradicional palco em que autoridades do Fed costumam sinalizar os rumos da política monetária, Warsh afirmou que oFed ainda pode voltar a elevar os juros caso a inflação não mostre uma convergência mais clara e rápida para a meta de 2%.

Embora tenha evitado sinalizar uma decisão específica para os próximos dias 15 e 16 de setembro, o presidente do Banco Central americano deixou claro que considera insuficientes os avanços recentes dos índices de preços.

Para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, a mensagem de Warsh foi "hawkish", isto é, de uma visão de elevação dos juros, que reforça uma postura mais restritiva do Fed. "Não dá para afirmar que teremos aumentos de juros em setembro, mas o indicativo é de que há uma grande chance disso acontecer", afirma Castro Alves.

Na avaliação do estrategista, o discurso teve efeito imediato sobre os mercados. Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano avançaram, o dólar ganhou força e aumentaram as apostas em uma possível alta de juros em setembro. No Brasil, o movimento levou a moeda americana para a região de R$ 5,21. Às 14h10 desta sexta-feira,o dólar subia 1,04%, cotado a R$ 5,216.

A moeda ainda está acima da mínima do ano, de R$ 4,9539, registrada em 21 de abril. Para Castro Alves, a combinação de juros americanos elevados e condições financeiras mais restritivas limita a tese de um dólar globalmente mais fraco.

"Se o Fed afirma que a política não está apertada e que o juro curto continua sendo a ferramenta contra inflação persistente, o diferencial americano de juros ante mercados desenvolvidos tende a ficar elevado por mais tempo, fortalecendo assim o dólar", diz.

Menos espaço para cortes de juros no Brasil

O fortalecimento do dólar é um dos principais canais pelos quais uma política monetária americana mais dura pode afetar o Brasil. Osjuros mais altos nos Estados Unidos tornam os ativos americanos relativamente mais atrativos, favorecendo o fluxo de recursos para o mercado americano e reduzindo a atratividade relativa de mercados emergentes, como o brasileiro.

Para o Brasil, isso significa condições financeiras externas menos favoráveis e maior sensibilidade do real a movimentos de aversão ao risco. Uma moeda brasileira mais depreciada também pode aumentar a pressão sobre a inflação doméstica, o que tende a exigir maior cautela do Banco Central na condução da Selic.

Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, avalia que o discurso de Warsh aumentou de maneira relevante a possibilidade de uma nova alta dos juros americanos nos próximos meses, ainda que não represente uma sinalização direta de aumento já em setembro.

"Para o Brasil, a principal implicação de um Fed mais hawkish é a redução do espaço para flexibilização monetária adicional", afirma Lin. Segundo ele, juros americanos mais elevados por mais tempo tendem a apertar as condições financeiras globais, fortalecer o dólar e aumentar a sensibilidade do real a episódios de aversão a risco.

Esse ambiente também eleva o risco de repasse cambial para a inflação e de desancoragem das expectativas domésticas, acrescenta o economista. "Esse cenário não implica necessariamente uma retomada imediata do ciclo de alta da Selic, mas reforça a necessidade de cautela por parte do Copom e pode limitar a magnitude e a velocidade dos próximos cortes", afirma.

A leitura é semelhante à de Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank, embora a especialista ressalte que o discurso de Warsh, isoladamente, não altera a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que também ocorre nos dias 15 e 16 de setembro.

"Os Treasuries acabam ficando mais pressionados, com prêmio de risco maior, e o fluxo acaba indo para lá, e isso acaba afetando de forma negativa as moedas emergentes", afirma.

Segundo Quartaroli, se o dólar permanecer em um patamar mais elevado por um período prolongado, o efeito sobre a inflação brasileira pode fazer o Banco Central adotar uma postura mais cautelosa nas próximas decisões. Mas, em sua avaliação, não há impacto direto da fala de Warsh sobre a próxima reunião do Copom.

Dólar mais forte reduz margem de manobra

O mecanismo cambial ganha importância justamente porque Brasil e Estados Unidos estão em momentos diferentes de suas políticas monetárias. Enquanto o mercado americano passou a considerar com mais força a possibilidade de novos aumentos dos juros desde o início da gestão de Warsh, o debate no Brasil está concentrado no ciclo de cortes da Selic.

Na última decisão de juros, em 29 de julho, o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês), manteve a taxa básica de juros do país na faixa entre 3,50% e 3,75% pela quinta reunião consecutiva.

Já o Copom, na reunião de 5 de agosto, reduziu 0,25 ponto percentual da Selic,levando a taxa para 14% ao ano, a quarta redução da taxa de juros brasileira neste ano. A Selic chegou a 15% em junho de 2025 e permaneceu no maior patamar em mais de 20 anos até março de 2026.

Para Camilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby Capital, o discurso do presidente do BC dos EUA não muda a expectativa de corte de 0,25 ponto percentual da Selic em setembro, para 13,75%. Mas reduz a margem para que o Banco Central acelere o ritmo de flexibilização.

"O discurso de hoje de Warsh só redobra a atenção ao cenário externo — sobretudo porque qualquer sinal de reaceleração da inflação americana ou de alta de juros por lá tende a limitar o espaço de corte do Banco Central, por pressão cambial e de fluxo", afirma.

Na avaliação de Cavalcanti, o Fed pode ter aumentado apossibilidade de uma alta de juros na reunião de setembro e nas seguintes ao abandonar uma sinalização antecipada sobre suas decisões.

Warsh afirmou em Jackson Hole estar "comprometido com uma disciplina, não com uma decisão", indicando que pretende reduzir o chamado forward guidance e deixar que os dados econômicos tenham maior peso nas expectativas do mercado.

AutorClara Assunção
FonteExame
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