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Sacre Investimentos
InvestMercadosBDR
29/09/2026
7 min

Anel que mede o sono cobra US$ 70 ao ano. Na bolsa, ele chega valendo US$ 14 bi

Fabricante finlandesa do Oura Ring precifica IPO nesta terça e pode levantar até US$ 2,2 bi na Nasdaq, com demanda quatro vezes maior que a oferta

Anel que mede o sono cobra US$ 70 ao ano. Na bolsa, ele chega valendo US$ 14 bi

A Oura, fabricante finlandesa do anel inteligente que mede sono, recuperação e sinais vitais, deve precificar nesta terça-feira, 29, sua oferta inicial de ações (IPO) na Nasdaq. A operação pode levantar até US$ 2,2 bilhões e, segundo a Bloomberg, atraiu cerca de quatro vezes mais pedidos do que o número de ações disponíveis.

A companhia e seus acionistas oferecem 50 milhões de ações, com preço indicativo entre US$ 40 e US$ 44 por papel, de acordo com documentos enviados à SEC, a comissão de valores mobiliários americana. Do total, 13,5 milhões de ações serão emitidas pela própria Oura. Os outros 36,5 milhões serão vendidos por investidores como as gestoras de venture capital Forerunner Ventures e Lifeline Ventures. As ações devem ser negociadas sob o código OURA.

No teto da faixa, a empresa valeria US$ 14,1 bilhões em bolsa. Considerando opções e ações restritas de funcionários, o valor totalmente diluído chegaria a cerca de US$ 15 bilhões.

Um IPO bilionário em um mercado arisco

A Oura chega à bolsa em um momento de instabilidade para novas ofertas nos Estados Unidos. Nos últimos dias, a Holtec Nuclear, de serviços de energia nuclear, e a Bamboo Insurance, apoiada pela CVC Capital Partners, adiaram seus IPOs citando as condições de mercado.

Depois de um setembro fraco em estreias, a operação pode ser a primeira acima de US$ 1 bilhão desde a listagem da rede de sanduíches Jersey Mike's, em julho. A leitura do mercado é que o resultado da Oura pode abrir caminho para outras empresas de wearables de saúde. A próxima candidata mais provável da fila, segundo a Barron's, é a americana Whoop, fabricante de pulseiras fitness que vem acompanhando a Oura de perto nas rodadas de captação privada.

O anel é a porta de entrada. A assinatura é o negócio

A Oura ganha dinheiro com a venda do anel, que custa entre US$ 400 e US$ 500 no modelo mais recente, lançado em junho e considerado o menor do mercado. Depois, cobra US$ 70 por ano de quem quer acesso completo aos dados de sono, temperatura, oxigenação, pressão arterial e outros indicadores, além das orientações de um assistente de inteligência artificial, o Oura Advisor.

"A assinatura é o modelo de negócio", afirmou o CEO Tom Hale em entrevista a Vlad Tenev, CEO da Robinhood, durante o roadshow da oferta.

A base de assinantes pagantes chegou a 5 milhões e vem dobrando ano a ano, no mesmo ritmo das vendas de anéis. Mais de 70% dos assinantes são mulheres e a taxa média de renovação é de 85%, segundo a empresa.

Nos nove meses encerrados em junho, a Oura faturou US$ 1,2 bilhão, alta de cerca de 75% em relação ao mesmo período do ano anterior, com a maior parte das vendas nos Estados Unidos. O lucro antes de impostos, excluindo despesas que não afetam o caixa, foi de US$ 107 milhões. No ano passado, a empresa já projetava receita de US$ 1 bilhão.

Hale também quer levar o anel para além da saúde. Em sua visão, o dispositivo poderia funcionar como carteira e chave, sendo usado para pagamentos e para destravar o computador.

Valuation salgado e dinheiro que não fica no caixa

Análise da revista Barron's ressalta que a oferta não é barata. No ponto médio da faixa, de US$ 42 por ação, a Oura seria avaliada em US$ 13,5 bilhões, mais de oito vezes as vendas anualizadas e 30 vezes o fluxo de caixa. O múltiplo de receita é comparável ao da GoPro no auge da década passada, embora inferior ao da Apple hoje.

Outro ponto de atenção é que cerca de três quartos da oferta correspondem a ações vendidas por fundos de venture capital, caso os bancos exerçam o lote suplementar. Assim, a maior parte dos recursos não vai financiar o crescimento da empresa. Os cerca de US$ 500 milhões líquidos que ficam com a Oura devem ser usados quase integralmente para cobrir impostos retidos sobre opções de ações de funcionários.

Ainda assim, a publicação vê a Oura como uma aposta atraente na convergência entre bem-estar e saúde digital. O valuation pedido não fica muito acima dos US$ 10 bilhões que a Danaher pagou em fevereiro pela Masimo, especializada em oximetria de dedo.

Da Finlândia ao dedo dos CEOs

A história da Oura começou em 2013, em Oulu, no norte da Finlândia, polo de tecnologia do país. Os fundadores Petteri Lahtela, Kari Kivelä e Markku Koskela vinham de empresas locais de tecnologia, como Nokia e Polar, e partiram da ideia de que sono e recuperação eram pilares da saúde que quase nenhum dispositivo conseguia medir bem.

Ao apresentar o primeiro anel, em 2015, em um evento de startups em San Francisco, Lahtela resumiu a proposta com uma provocação. Todo mundo sabe quanta bateria resta no celular, mas quase ninguém sabe quanta energia resta no próprio corpo. É essa leitura sobre desgaste e capacidade de recuperação que aproxima o produto da prevenção ao esgotamento.

Os primeiros anos foram de aperto. Segundo relato publicado pela própria empresa, os salários chegaram a atrasar meses e os funcionários viviam de cartão de crédito pessoal. O nome original era Jouzen, derivado de joutsen, "cisne" em finlandês, ave nacional do país, com o "zen" para remeter a calma e equilíbrio. A marca foi trocada por Oura antes da chegada ao mercado.

Até as cores tinham simbologia. A primeira geração, vendida em preto e branco brilhantes, fazia referência ao contraste entre os invernos escuros e os verões ensolarados da Finlândia.

A campanha no Kickstarter, em 2015, bateu a meta de US$ 100 mil em apenas 15 horas e terminou com cerca de 2.400 pré-vendas e US$ 650 mil arrecadados, sem publicidade paga. Pouco depois, veio uma validação inesperada. Sem que ninguém na Oura soubesse, pesquisadores do Stanford Research Institute compraram dois anéis na campanha para compará-los à polissonografia, o exame de referência em laboratórios do sono. O estudo, publicado em 2017, apontou o anel como o wearable mais preciso na medição das fases do sono.

A pandemia ampliou o alcance da marca. Mais de 65 mil usuários cederam dados a um estudo da Universidade da Califórnia em San Francisco (UCSF), que mostrou a capacidade do anel de detectar pequenas variações de temperatura da pele, útil para sinalizar doenças precocemente. Na sequência, a Oura passou a vender soluções corporativas para hospitais, bancos e ligas esportivas como NBA e WNBA.

Em 2022, alcançou 1 milhão de anéis vendidos e, com o tempo, virou acessório frequente entre executivos. A trajetória do unicórnio finlandês já chamava atenção por crescer à margem das big techs.

A aposta na saúde preventiva

A tese de longo prazo da Oura passa pela aproximação com o sistema de saúde. Em janeiro, a FDA, agência que regula alimentos e medicamentos nos Estados Unidos, publicou orientação que incentiva empresas de bem-estar a oferecer dados de saúde, desde que não prometam diagnóstico.

A Oura e a Whoop já encaminham assinantes para exames de sangue em laboratórios e participam, com empresas de serviços médicos, de programas-piloto do governo americano que remuneram o monitoramento remoto de doenças crônicas.

Por enquanto, o nicho de anéis inteligentes movimenta alguns poucos bilhões de dólares por ano, pequeno demais para atrair gigantes como a Apple, que fatura mais de US$ 30 bilhões anuais com wearables.

*com agências internacionais

AutorMitchel Diniz
FonteExame
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