Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
Mercado ImobiliárioFII
06/07/2026
6 min

Antigo convento de freiras no Ipiranga vai virar empreendimento de luxo

Antigo convento de freiras no Ipiranga vai virar empreendimento de luxo

Ao lado do Museu do Ipiranga, em São Paulo, um conjunto arquitetônico que nasceu como resposta a uma urgência social da virada do século XIX voltou ao centro de uma disputa imobiliária que atravessa décadas de abandono, reocupações e mudanças de destino.

O edifício foi concebido por volta de 1920 como parte da atuação do Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, as Irmãs Salesianas, grupo religioso ligado à pedagogia de Dom Bosco. À época, São Paulo enfrentava crescimento acelerado, com bolsões de pobreza, abandono infantil e falta de estrutura educacional. A construção surgiu dentro desse contexto. Era uma instituição voltada a acolher, educar e formar jovens em situação de vulnerabilidade.

O projeto, assinado pelo artista Domingos Del Piano, foi doado pelo conde José Vicente de Azevedo, proprietário das terras e um dos nomes ligados ao desenvolvimento urbano do Ipiranga. O conjunto foi inaugurado como Casa Maria Auxiliadora e, poucos anos depois, rebatizado como Noviciado Nossa Senhora das Graças.

Ao longo das décadas, o espaço deixou de ser apenas um centro de formação religiosa e passou a acumular novas funções: centro de espiritualidade, pensionato para jovens e, mais tarde, até faculdade. Nos últimos anos, no entanto, o espaço estava em estado avançado de abandono, funcionando como lar informal para dezenas de gatos abandonados.

O destino do imóvel centenário mudaria assim que André Davidovich, sócio diretor da incorporadora Alfa Realty desde 2005, recebeu a notícia de seu sócio de que a empresa havia acabado de comprar um convento. "Me surpreendi e questionei o que faríamos com o convento. Logo descobri que, além de tudo, ele era tombado", afirma à EXAME.

A venda não foi apenas uma transação financeira, mas um processo de seleção para garantir que o legado do prédio seria respeitado. "Para conseguir comprar o terreno fizemos uma bela entrevista com as irmãs. Elas que homologaram a gente, né?", conta Davidovich, acrescentando que até criaram uma relação de amizade com as freiras.

Em outras histórias, o destino de um imóvel como esse poderia ter seguido um roteiro bem diferente. Em narrativas de filmes ou programas infantis como Castelo Rá-Tim-Bum, não seria difícil imaginar a chegada de um “doutor Abobrinha” qualquer, interessado em demolir tudo para erguer um prédio de cem andares.

Neste caso, porém, o desfecho foi outro — e o antigo convento escapou desse enredo mais destrutivo para entrar em uma nova fase, dessa vez para uso residencial, no empreendimento batizado de Alma Mater.

A lógica do retrofit permite que antigas salas e ambientes sejam convertidos em unidades residenciais independentes, preservando elementos arquitetônicos e a leitura original do edifício. O projeto incorpora uma piscina no pátio central e até mesmo um clubhouse na antiga capela das irmãs.

Registro histórico do pátio do Noviciado Nossa Senhora das Graças ( Museu Vicente de Azevedo/Reprodução)

As aquisições do convento

Essa, no entanto, não foi a primeira compra pela qual o terreno passou. A primeira grande mudança veio ainda nos anos 1970, quando a Faculdade São Marcos passou a operar no local. Primeiro como inquilina, depois como proprietária parcial do terreno, a instituição comprou cerca de quase 5.000 metros quadrados do imóvel em 1979 e transformou parte do antigo convento no chamado Prédio João XXIII.

Durante aproximadamente três décadas, o espaço abrigou cursos superiores até que a faculdade entrou em colapso administrativo e financeiro. O desfecho veio em 2012, quando o Ministério da Educação descredenciou a Universidade São Marcos após intervenção judicial. O MEC apontou irregularidades como inviabilidade financeira, desorganização acadêmica e falhas de gestão.

Com o fechamento, cerca de 2 mil alunos foram transferidos para outras instituições, e o prédio entrou em um ciclo de abandono e deterioração. Forros cedendo, falta de manutenção e disputas jurídicas marcaram o período seguinte.

O imóvel, originalmente parte de um quarteirão único, acabou fracionado em duas matrículas. Uma parcela foi a leilão e adquirida por uma outra incorporadora. A outra, que abriga a construção do convento em si, retornou às Irmãs Salesianas após a faculdade não concluir os pagamentos. Esse retorno abriu caminho para uma nova etapa da história do terreno.

Em 2015, a incorporadora Alfa Realty adquiriu a área remanescente com a proposta de preservação integral e reuso adaptativo.

O projeto, assinado pela arquiteta Sol Camacho, prevê a transformação do antigo convento em 19 unidades residenciais, com preservação da fachada, escadarias e corredores originais. A lógica não é apagar as camadas do passado, mas expô-las: “descascar” intervenções acumuladas ao longo das décadas para recuperar a leitura arquitetônica de 1920.

A negociação com as irmãs foi determinante para o desenho final do projeto. Segundo o incorporador responsável, o processo de venda envolveu uma espécie de seleção conduzida pelas próprias religiosas. “As irmãs nos homologaram depois de uma entrevista. Elas queriam ter certeza de que o prédio seria restaurado e não demolido”, afirmou André Davidovich. Ele diz que o histórico da incorporadora, com foco em retrofit, foi decisivo para a aprovação.

As restrições impostas pelo grupo religioso também moldaram a transação. O imóvel fazia parte de um conjunto de doações históricas ligadas ao conde José Vicente de Azevedo, e apenas uma parte estava juridicamente disponível para venda.

“Havia um cuidado muito grande com o destino do prédio. Não era apenas uma decisão imobiliária, era também uma decisão de preservação”.

Hoje, o antigo convento passa por obras de restauro com entrega prevista para 2028. O projeto mantém elementos estruturais do edifício histórico e os integra a um conjunto residencial de alto padrão.

Especificações do projeto

O empreendimento terá Valor Geral de Vendas (VGV) estimado em R$ 130 milhões. No total, serão 51 unidades, sendo 19 delas localizadas no edifício histórico — chamado de “O Legado” — com 8 unidades no pavimento térreo e 11 no pavimento superior. As demais 32 unidades estarão distribuídas em duas alas novas, de arquitetura contemporânea e escalonada, construídas ao lado do conjunto original.

As tipologias variam de studios a apartamentos maiores. No prédio histórico, os apartamentos terão áreas em torno de 90 metros quadrados, com algumas unidades maiores chegando a 300 metros quadrados ou mais. Nos prédios novos ladeados, haverão studios de 34 metros quadrados e até unidades de 370 metros quadrados. O preço do metro quadrado é de R$ 20, com variação positiva de 10% para as unidades localizadas dentro do convento histórico.

Até o momento do fechamento da matéria, metade das unidades de todo o empreendimento (que soma 51 unidades no total) já havia sido vendida. Do prédio histórico, restavam apenas três. As obras começam no segundo semestre de 2026 e a entrega do empreendimento está prevista para outubro de 2028.

AutorLetícia Furlan
FonteExame
Distribuído por