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MercadosCMDT
13/07/2026
5 min

Antimicrobianos: Brasil pode ficar fora do mercado europeu até 2028, aponta especialista

Antimicrobianos: Brasil pode ficar fora do mercado europeu até 2028, aponta especialista

“Tic, tac, tic, tac”. A indústria da carne acompanha com atenção a contagem regressiva até 3 de setembro, data que marca a entrada em vigor das novas exigências da União Europeia para a importação de produtos de origem animal. Caso o Brasil não consiga comprovar o cumprimento das regras até lá, poderá ficar impedido de embarcar carne bovina para o bloco.

Historicamente conhecida pelo rigor de suas normas sanitárias, a União Europeia avalia que o Brasil ainda precisa apresentar garantias adicionais relacionadas ao uso de antimicrobianos na produção animal.

Segundo Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, o principal desafio não está apenas na exigência em si, mas na forma como o processo de adequação vem sendo conduzido.

“Essa nova diretriz precisa ser feita ‘de cima para baixo’ e não ‘de baixo para cima’. É preciso uma normativa do Ministério da Agricultura que passe pelas Secretarias de Agricultura dos estados até chegar à indústria e ao pecuarista.”

Iglesias avalia que o Brasil demorou a acompanhar a evolução das normas internacionais e agora paga o preço. Segundo ele, o país precisa correr contra o tempo para reunir a documentação capaz de comprovar que não utiliza os antimicrobianos proibidos pela União Europeia na produção animal.

Outro ponto destacado pelo especialista é que a adaptação só será viável se houver incentivos econômicos para toda a cadeia.

“A indústria precisa ser bem remunerada pelo importador e criar um programa robusto de bonificação, premiando o pecuarista que entregar animais com esse tipo de especificação técnica. Foi o que aconteceu com o ‘boi China’, em 2020 e 2021, quando havia um prêmio entre R$ 20 e R$ 40 por arroba. Depois, a precocidade virou a regra no mercado brasileiro.”

Na avaliação de Iglesias, a discussão sobre os antimicrobianos acabou se transformando em um jogo de transferência de responsabilidades entre o setor público e o privado, o que dificulta ainda mais a adequação de uma cadeia tão fragmentada quanto a pecuária de corte.

“Se analisarmos esse cenário sob uma ótica mais pessimista, e não houver flexibilização por parte da União Europeia, o Brasil pode ficar fora do mercado europeu por cerca de dois anos, até conseguir reunir toda a documentação exigida.”

Questionado sobre alternativas caso a Europa suspenda as compras, Iglesias diz que o Brasil continua tentando abrir o mercado japonês, mas ainda enfrenta dificuldades.

Ele reconhece que a União Europeia responde por apenas cerca de 3% das exportações brasileiras de carne bovina, porém ressalta que o bloco funciona como um “mercado vitrine”.

Retirada dos antimicrobianos aumenta custos

Iglesias afirma que deixar de utilizar os antimicrobianos não representa um risco sanitário para a produção, mas exigirá mudanças estruturais na cadeia e elevará os custos da atividade.

Entre os principais impactos, ele cita:

  • aumento dos custos operacionais;
  • mudanças profundas no manejo dos animais;
  • adaptação dos protocolos de tratamento;
  • revisão das práticas produtivas em toda a cadeia.

Segundo o analista, trata-se de uma transformação que exige coordenação nacional e liderança do poder público.

Além disso, foco principal não deve ser o uso dos antimicrobianos em si, mas sim a rastreabilidade: o Brasil precisará controlar toda a cadeia produtiva para comprovar a origem dos animais e atender às exigências internacionais.

Além disso, ele afirma que um sistema robusto ajudaria o país a responder críticas frequentes feitas por importadores sobre:

  • desmatamento;
  • trabalho escravo;
  • sustentabilidade da pecuária.

Para Iglesias, fortalecer a rastreabilidade também significa defender internacionalmente a imagem da carne brasileira.

O que dizem a indústria e o Ministério da Agricultura?

O Money Times procurou a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), que informou não estar concedendo entrevistas sobre o tema. Segundo a entidade, toda a comunicação relacionada ao assunto está centralizada em um grupo de trabalho coordenado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Como posicionamento institucional, a Abiec divulgou a seguinte nota em 12 de maio:

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) esclarece que o Brasil segue plenamente habilitado a exportar carne bovina ao mercado europeu. Não há, neste momento, qualquer proibição das exportações para o bloco.

A medida anunciada está relacionada à implementação de novas exigências regulatórias referentes ao uso de antimicrobianos na produção animal, com entrada em vigor prevista para setembro de 2026. O eventual impedimento às exportações somente ocorrerá caso as garantias e adequações requeridas pelas autoridades europeias não sejam apresentadas até a data estabelecida.

O setor privado tem trabalhado em parceria com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) na elaboração de protocolos voltados ao atendimento das novas exigências europeias, além de manter diálogo técnico e colaboração com as autoridades competentes sobre o tema. Há, inclusive, previsão de uma missão europeia ao Brasil no segundo semestre para dar continuidade ao processo técnico.

A carne bovina brasileira atende aos requisitos sanitários e regulatórios dos principais mercados internacionais, com rígidos controles oficiais, sistemas de rastreabilidade e protocolos reconhecidos globalmente. Atualmente, o Brasil exporta para mais de 170 países, sustentado por um dos sistemas de inspeção e defesa agropecuária mais robustos do mundo.

AutorPasquale Augusto
FonteMoney Times
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