Anvisa abre mercado de CBD para farmácias de manipulação — e esta empresa quer liderá-lo

Esqueça o frasquinho de óleo escuro das reportagens de TV. O novo capítulo da cannabis medicinal no Brasil é um pó branco cristalino, sem cheiro e sem sabor, que lembra açúcar de confeiteiro. É o canabidiol (CBD) isolado, com pureza acima de 98%, que desde maio pode ser vendido como matéria-prima para farmácias de manipulação. Uma das empresas que aposta nesse novo mercado é a Brascann Farmacêutica, que pretende ocupar um espaço ainda pouco explorado na cadeia da cannabis medicinal.
A cannabis medicinal movimentou R$ 970 milhões no Brasil em 2025, alta de 14% sobre o ano anterior, segundo a consultoria Kaya Mind. O setor atende cerca de 870 mil pacientes e deve ultrapassar R$ 1 bilhão em 2026. Até agora, porém, a cadeia da cannabis medicinal se concentrava em dois canais: a importação direta pelos pacientes e os produtos industrializados vendidos nas drogarias, todos muito parecidos entre si.
A Brascann, distribuidora liderada pelo farmacologista Fabricio Pamplona e pelo economista Alex Silveira, aposta em um terceiro canal. A empresa fornece CBD isolado para 23 farmácias de manipulação e se apresenta como a primeira distribuidora especializada em canabinoides do país. Pamplona compara a estratégia a uma velha máxima do empreendedorismo.
A janela abriu em fevereiro, quando a Anvisa publicou a RDC 1.015/2026, em vigor desde maio. Pela primeira vez, a norma autoriza o uso do CBD como Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) no setor magistral, o das farmácias de manipulação.
A unidade de insumos da Brascann, lançada em março, já responde por 32% da receita da companhia. Entre o envio do material de imprensa e a entrevista para a EXAME, a base de clientes passou de 16 para 23 farmácias, alta de quase 50% em poucas semanas. Segundo Pamplona, a demanda reprimida explica a velocidade da expansão.
“As farmácias estão buscando e praticamente ninguém tem insumo”, diz Pamplona.
A meta é chegar a cerca de 60 farmácias até o fim de 2026, além de atender associações de pacientes. A empresa, que nasceu com capital dos sócios e opera no azul desde o primeiro trimestre, projeta ultrapassar R$ 1 milhão em faturamento consolidado ainda no terceiro trimestre. A unidade de insumos deve encerrar o ano com cerca de R$ 600 mil.
O que muda com a RDC 1.015 da Anvisa
A resolução inaugura uma nova etapa da cadeia produtiva da cannabis medicinal no país. Desde 2019, quando a RDC 327 criou a categoria de produtos à base de cannabis, o mercado era dominado pela indústria, com produtos padronizados e sem espaço para personalização. A tentativa de incluir as farmácias de manipulação existia desde aquela época. Pamplona foi consultor da Farmag, associação do setor magistral, na discussão da norma. O processo levou sete anos.
“Isso é histórico. Com a entrada do CBD no setor magistral, a cannabis deixa de ser apenas uma marca na prateleira e vira um mar de soluções possíveis, centradas na necessidade dos pacientes”, afirma.
A regra exige pureza mínima de 98% para o insumo. Na prática, o padrão garante controle da formulação, precisão de dosagem e reprodutibilidade.
CBD manipulado: como funciona na prática
O insumo autorizado não é óleo. É um cristal importado dos Estados Unidos, já que o cultivo nacional só será autorizado a partir de agosto e deve levar anos para amadurecer.
A partir desse pó, a farmácia prepara a formulação prescrita pelo médico: soluções orais diluídas em óleo, cápsulas, sprays sublinguais e produtos tópicos, como cremes e géis.
É justamente aí que o setor magistral pode aumentar a concorrência com a indústria.
“Um creme tópico hoje não existe no mercado. Uma vez que a farmácia compre o nosso insumo, ela pode fazer no outro dia. A indústria vai demorar anos.”
As principais indicações incluem ansiedade, insônia, dor crônica, dor neuropática, epilepsia refratária e doenças dermatológicas, como dermatite e psoríase.
O perfil do paciente também mudou. O mercado nasceu associado principalmente à epilepsia infantil, mas hoje cresce impulsionado por tratamentos para fibromialgia, dores nas costas, estresse, distúrbios do sono e outras condições crônicas.
Quanto custa o tratamento com canabidiol
O argumento central da tese é o preço. Hoje, um mês de tratamento com produtos industrializados custa entre R$ 700 e R$ 1.200 nas drogarias.
“Com a farmácia magistral, entendo que esse valor pode cair para algo abaixo de R$ 500”, afirma Pamplona.
Segundo a empresa, a redução pode chegar a 50%, dependendo da formulação.
O potencial de mercado sustenta a aposta. A Kaya Mind projeta que o setor alcance R$ 1,2 bilhão até 2027 e estima potencial de 6,9 milhões de consumidores no longo prazo, cenário em que os atuais 870 mil pacientes seriam apenas o começo.
Como a Brascann pretende crescer nesse mercado
Fundada por Pamplona e Silveira, a Brascann nasceu como distribuidora de produtos acabados importados. Hoje, representa a americana Cannaviva, com medicamentos à base de CBD, THC, CBG e CBN, e a indiana Bombay Hemp Company, especializada em extratos ayurvédicos produzidos nos Himalaias.
Com a regulamentação do setor magistral, porém, a empresa mudou o foco da expansão. A unidade de insumos passou a concentrar a principal aposta de crescimento. Atualmente, as farmácias de manipulação respondem por 55% da receita dessa divisão, seguidas pelas associações de pacientes, com 39%, e pelas farmácias veterinárias, com 6%.
Pamplona é farmacêutico, doutor em Farmacologia e trabalha com canabinoides há mais de duas décadas. Participou da criação de uma das primeiras startups brasileiras do setor e atuou na construção do marco regulatório da cannabis medicinal junto à Anvisa. Silveira, por sua vez, é fundador da Vital Green, grupo de investimentos voltado para saúde, tecnologia e inovação.
Além de distribuir o insumo, a Brascann presta suporte farmacotécnico às farmácias, oferecendo orientação sobre formulação, treinamento de farmacêuticos e educação médica. A estratégia é tornar-se parceira das operações, e não apenas fornecedora de matéria-prima.
A concorrência, por enquanto, ainda é limitada. Segundo Pamplona, as grandes distribuidoras farmacêuticas enxergam o segmento como complexo e de baixo volume, enquanto o único fornecedor que atuava anteriormente operava por decisão judicial com um óleo de CBD a 3%, modelo que deixou de atender às exigências da nova regulamentação.
“Estamos entrando em um mercado que existe há poucos meses. As farmácias querem trabalhar com cannabis medicinal, mas precisam de um fornecedor que entregue qualidade, estabilidade e suporte técnico”, diz.
Próximo passo nas farmácias de manipulação
As importações da Brascann ainda são modestas, mas a empresa já prevê ampliar os volumes até o fim do ano conforme aumenta a demanda das farmácias de manipulação.
Os insumos continuam vindo dos Estados Unidos. Embora o cultivo nacional de cannabis tenha recebido autorização judicial para avançar e novas iniciativas devam surgir nos próximos anos, Pamplona acredita que a produção brasileira ainda levará tempo para atingir escala e padrão farmacêutico suficientes para abastecer o mercado.
Apesar da expansão, a empresa descarta construir uma indústria própria. A aposta permanece concentrada na distribuição de insumos, um elo da cadeia que, na visão dos sócios, tende a ganhar relevância à medida que mais farmácias entrarem no segmento.
A expectativa é que o mercado magistral avance sobre parte do espaço hoje ocupado pelos produtos industrializados. A lógica combina três fatores: preços potencialmente menores, a ampla capilaridade das farmácias de manipulação espalhadas pelo país e a possibilidade de desenvolver formulações personalizadas para cada paciente.
Se essa tese se confirmar, a próxima disputa da cannabis medicinal no Brasil será sobre quem fornece os ingredientes que dão origem a eles.
Durante anos, o setor concentrou seus esforços na aprovação regulatória e na chegada de novos produtos às prateleiras. Agora, a discussão passa a incluir personalização dos tratamentos, ampliação do acesso e o desenvolvimento de uma nova cadeia de fornecedores.
“A cannabis entra em uma nova fase, menos barulhenta, mais técnica e possivelmente mais transformadora pela escala que vai atingir. Durante anos, o setor discutiu autorização de produtos e regulamentação. Agora começamos a discutir personalização, escala e ampliação do acesso”, afirma Pamplona.
