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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
06/10/2026
11 min

Aos 162 anos, esta paranaense vai investir R$ 1 bilhão para chegar ao maior porto da América Latina

Controlada pela quarta geração da família fundadora, Rocha quer quadruplicar de tamanho em dez anos, avançar pelo Arco Norte e chegar ao Porto de Santos

Aos 162 anos, esta paranaense vai investir R$ 1 bilhão para chegar ao maior porto da América Latina
RESUMO +

A operadora portuária e logística Rocha prepara mais de R$ 1 bilhão em investimentos nos próximos anos, após aportar R$ 751 milhões em 2024 e 2025. Com 162 anos e receita líquida de R$ 872,4 milhões em 2025, a companhia pretende chegar ao Porto de Santos em até quatro anos e quadruplicar de tamanho em uma década.

Quando a Rocha começou a operar em Paranaguá, no litoral do Paraná, 162 anos atrás, o porto ainda estava longe de parecer o complexo logístico que recebe milhões de toneladas de cargas hoje.

Madeira, erva-mate e café passavam pelos cais em operações que pouco lembram os terminais automatizados atuais.

Quatro gerações depois, a mesma família continua no controle da companhia. E repara uma das maiores expansões de sua história.

A Rocha Terminais Portuários e Logística movimentou 14,5 milhões de toneladas em 2025 entre fertilizantes, grãos e cargas industriais.

Com origem no Paraná, a empresa hoje tem operações que passam por Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Maranhão e Amapá. Em 2025, registrou receita líquida de 872,4 milhões de reais.

Depois de investir mais de 700 milhões de reais entre 2024 e 2025, a Rocha prepara mais de 1 bilhão de reais em aportes nos próximos anos. Parte do dinheiro será usada para ampliar as operações atuais.

Outra parte terá uma missão diferente: levar a companhia a portos onde ela ainda não está. O principal nome da lista é Santos, o maior porto da América Latina.

“A gente quer plantar e colocar a bandeira da Rocha lá”, afirma Darlan Fábio De David, diretor-presidente da companhia.

Darlan Fábio De David, diretor-presidente da Rocha: “À medida que o negócio foi se tornando mais sólido, a gente conseguiu captar recursos para reperfilar a dívida e trazer uma estabilidade melhor para o negócio” (Nizo Gomide / Divulgação)

A expectativa é entrar em Santos dentro dos próximos três a quatro anos.

O movimento faz parte de um plano maior. Em dez anos, a Rocha quer quadruplicar de tamanho.

Para isso, pretende avançar também pelo Arco Norte, ampliar capacidade nos portos onde já opera e automatizar parte das estruturas.

O caminho passa por um mercado de fertilizantes em retração em 2026, pelo custo de financiar novos investimentos e pela dificuldade de encontrar mão de obra qualificada para sustentar a expansão.

Qual é a história da Rocha

A Rocha nasceu em Paranaguá há 162 anos, quando a operação portuária local ainda era muito diferente da atual. A empresa foi fundada por duas famílias, mas uma delas deixou o negócio quando um dos sócios decidiu seguir carreira política.

A outra permaneceu e mantém o controle da companhia até hoje.

A empresa está agora na quarta geração da família. Os atuais controladores herdaram o negócio de um tio que não teve filhos e, até o início dos anos 2000, tocavam diretamente a operação. Naquele momento, o principal negócio da Rocha em Paranaguá era a movimentação de contêineres.

A trajetória mudou quando o porto licitou essa operação e a Rocha perdeu a disputa para outro operador.

A companhia precisou decidir como continuaria no setor depois de mais de um século de atividade portuária. A resposta foi usar o conhecimento acumulado para crescer em outra frente: a importação de fertilizantes.

A Rocha passou a atuar na descarga dos produtos dos navios e na armazenagem das cargas até a retirada pelos clientes. No começo dos anos 2000, segundo De David, o negócio ainda tinha resultado financeiro na casa de um dígito de milhão de reais, próximo de 5 milhões de reais. A escala começou a mudar na década seguinte.

Em 2010, a entrada de um investidor financeiro abriu espaço para uma primeira expansão maior, inicialmente em Paranaguá e depois em outros estados. Em 2015, o BNDES também entrou na sociedade. Hoje, a família continua como controladora, com cerca de 42% do capital, enquanto o investidor financeiro tem aproximadamente 41% e o BNDES, 17%.

A partir daí, a Rocha ampliou o negócio para além dos fertilizantes.

Entrou na exportação de grãos, principalmente soja e milho, avançou em cargas industriais e aumentou sua presença em diferentes portos brasileiros.

Agora, a companhia prepara outra mudança de escala: depois de investir mais de 700 milhões de reais entre 2024 e 2025, quer expandir pelo Arco Norte, chegar a Santos e quadruplicar de tamanho em dez anos.

De R$ 240 milhões para mais de R$ 500 milhões

O tamanho dos investimentos ajuda a explicar a velocidade que a empresa quer imprimir à nova fase.

Em 2024, a Rocha investiu cerca de 240 milhões de reais. Em 2025, foram 511 milhões de reais. Boa parte desse dinheiro ficou em Paranaguá.

Entre os projetos está um novo armazém para fertilizantes, com capacidade estática de aproximadamente 70 mil toneladas. A companhia também conectou berços de atracação a armazéns por meio de esteiras.

A mudança reduz etapas da operação. Em vez de retirar a carga do navio, colocá-la em caminhões e transportar o produto até os armazéns, parte do fertilizante pode seguir diretamente pelas esteiras.

A companhia também comprou dois equipamentos usados na descarga de navios de fertilizantes. Cada um custou cerca de 30 milhões de reais. Um foi destinado ao Porto de Rio Grande e outro, a Paranaguá.

O maior projeto recente está do outro lado da operação paranaense. A Rocha já operava no chamado Cais Leste de Paranaguá. Agora, passou a atuar também no Cais Oeste.

O novo terminal foi projetado para movimentar 2 milhões de toneladas por ano e tem capacidade estática de 100 mil toneladas. Soja, milho e sorgo estão entre os produtos que poderão passar pela estrutura. O investimento ficou na casa dos 300 milhões de reais.

A empresa calcula que sua estrutura no Cais Leste já representa cerca de 20% da exportação de grãos de Paranaguá. Com o novo terminal, espera disputar outros 5 a 6 pontos percentuais desse mercado.

Há ainda uma vantagem operacional. Se um cliente estiver com um navio esperando no Cais Leste, por exemplo, a Rocha poderá avaliar a transferência da carga para sua estrutura no Cais Oeste, caso haja menos fila por lá.

Uma empresa de 162 anos estreia nas debêntures

Para financiar uma parte desse ciclo, a Rocha fez algo inédito em sua história.

A companhia captou 400 milhões de reais por meio de debêntures, títulos de dívida usados por empresas para levantar recursos no mercado de capitais.

Durante o processo, a S&P Global Ratings atribuiu à Rocha o rating AA+, nota de crédito que indica baixo risco dentro da escala nacional da agência.

Nem todo o dinheiro captado foi para obras. Uma parte também serviu para reperfilar dívidas, ou seja, substituir obrigações anteriores por financiamentos com prazos e condições diferentes.

“À medida que o negócio foi se tornando mais sólido, a gente conseguiu captar recursos para reperfilar a dívida e trazer uma estabilidade melhor para o negócio”, afirma De David.

A empresa terminou 2025 com receita líquida de 872,4 milhões de reais, alta de 15% sobre o ano anterior. O EBITDA, indicador usado para medir a geração operacional de caixa, ficou em 292 milhões de reais.

Para 2026, a expectativa da empresa é encerrar o ano com aproximadamente 880 milhões de reais em receita e EBITDA de 310 milhões de reais.

Por que Santos entrou no plano

Para quadruplicar de tamanho, a Rocha entende que não pode depender apenas de crescer nos lugares onde já está. A companhia quer acompanhar os clientes.

Grandes empresas de fertilizantes e grãos operam em diferentes corredores logísticos do país. Para se tornar uma opção frequente para esses grupos, a Rocha quer estar presente nos mesmos portos.

É aí que Santos ganha peso. O porto paulista é hoje o maior da América Latina e uma peça que ainda falta no mapa da companhia.

Segundo De David, a entrada deve acontecer em um prazo de três a quatro anos. A empresa não detalhou qual modelo pretende usar para chegar ao porto.

A expansão geográfica também atende a uma característica do negócio da Rocha. A companhia funciona como um terminal bandeira branca, ou seja, presta serviços para diferentes donos de carga em vez de operar apenas produtos próprios. Quanto mais portos conseguir atender, maior a possibilidade de acompanhar um mesmo cliente em diferentes regiões do país.

Santos é apenas uma das pontas dessa estratégia. A outra está a milhares de quilômetros dali.

A Rocha iniciou sua operação no Porto de Santana, no Amapá, seu primeiro movimento mais direto para entrar no Arco Norte, conjunto de portos e rotas logísticas que ganharam espaço no escoamento da produção agrícola brasileira.

A companhia venceu o leilão da área em 2024. A meta é modernizar a estrutura existente, aumentar a capacidade de armazenagem e elevar a velocidade da operação.

O terminal deverá atender principalmente à exportação de grãos.

A Rocha também enxerga a possibilidade de conectar Santana às rotas que passam por Miritituba, no Pará. Grãos produzidos principalmente no Centro-Oeste chegam à região por rodovia e depois seguem em barcaças pelos rios Tapajós e Amazonas.

Segundo De David, cerca de 20 milhões de toneladas de grãos já saem pela rota de Miritituba. No caminho inverso, a região recebe entre 2,5 milhões e 3 milhões de toneladas de fertilizantes.

É justamente a combinação que a Rocha conhece. “Movimentar grão e fertilizante é o que a gente sabe fazer”, afirma De David.

Um em cada quatro fertilizantes importados passa pela Rocha

A escala da companhia fica mais visível no mercado de fertilizantes. Em anos normais, o Brasil importa aproximadamente 45 milhões de toneladas do produto, segundo os números citados pela empresa. A Rocha movimenta perto de 10 milhões de toneladas em suas diferentes operações.

Em 2026, porém, o mercado encolheu.

A expectativa é que o Brasil termine o ano com cerca de 40 milhões de toneladas importadas, ante 43,3 milhões em 2025. A companhia estima movimentar entre 9 milhões e 10 milhões de toneladas.

Isso significa que algo próximo de uma em cada quatro toneladas de fertilizantes que entram no país passa por uma operação da Rocha.

Paranaguá também deve sentir a redução. O porto movimentou 10,8 milhões de toneladas de fertilizantes em 2025. A estimativa para 2026 é de aproximadamente 9,7 milhões.

Para a Rocha, essa queda ajuda a mostrar a importância de não depender de uma única carga.

Em 2025, a companhia movimentou cerca de 5,5 milhões de toneladas de grãos para exportação em Paranaguá e aproximadamente 4,5 milhões de toneladas de fertilizantes no porto.

“Agora tem uma crise no fertilizante brasileiro, mas o grão está indo muito bem. O industrializado também”, afirma De David.

Quais são os desafios no caminho

A diversificação ajuda com as oscilações das cargas, mas não elimina o principal risco apontado pelo presidente da companhia. Ele está no financiamento.

Uma empresa que pretende investir mais de 1 bilhão de reais precisa levantar capital sem comprometer o balanço.

O executivo diz acompanhar casos recentes de grandes empresas que aumentaram o endividamento durante ciclos de expansão e depois precisaram lidar com problemas financeiros.

Para a Rocha, o desafio é manter os investimentos sem deixar a dívida crescer em uma velocidade incompatível com a geração de caixa.

A companhia também mantém negócios diferentes dentro da mesma operação justamente para reduzir o impacto de crises pontuais.

Uma quebra de safra pode diminuir o volume de grãos. Uma crise internacional pode afetar os fertilizantes. A demanda industrial pode oscilar. O plano depende de esses riscos não acontecerem todos ao mesmo tempo.

Há outro problema que ganha importância à medida que a Rocha se espalha pelo país. Pessoas.

Operar em Rio Grande, Paranaguá, São Francisco do Sul, Maranhão ou Amapá exige equipes em regiões com mercados de trabalho e realidades diferentes.

Para a empresa, encontrar profissionais qualificados já se tornou um gargalo para a expansão.

“A gente tem uma dificuldade muito grande de conseguir mão de obra qualificada para trabalhar e para ajudar a garantir a sustentabilidade do nosso crescimento”, afirma De David.

O problema não está apenas em contratar. A empresa precisa conseguir replicar o mesmo padrão de operação em estruturas separadas por milhares de quilômetros.

Parte desse trabalho pode ser feita com treinamento interno. Outra parte depende da oferta de profissionais em cada região.

É um desafio que tende a ficar maior se o plano sair do papel.

A Rocha começou sua história movimentando madeira, erva-mate e café em um porto que pouco lembrava o atual. Passou por contêineres, perdeu essa operação, apostou em fertilizantes e depois entrou nos grãos. Agora, 162 anos depois, terá de fazer outra mudança de escala: sair de uma presença concentrada em alguns corredores portuários para tentar ocupar os principais caminhos do agronegócio brasileiro.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
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