Aos 167 anos, gigante dos carros-fortes fatura R$ 27 bi — e tem um plano para um mundo sem dinheiro
Com o Pix dominando os pagamentos, a Brink's parou de competir por frete e passou a transportar remédio de 100 mil reais, relógio de luxo e até celular

Quando surgiu, em 1859, em Chicago, o carro-forte não carregava dinheiro. A empresa que o criou, fundada por Washington Perry Brink com uma carroça e um cavalo, transportava malas e baús de comerciantes em viagem de negócios.
Foi só em 1900, com a entrega de seis sacos de moedas de prata a um banco, que a Brink's virou a primeira transportadora de valores do mundo. E o carro-forte passou a ser sinônimo do que ficaria conhecido por mais de um século: levar dinheiro de empresas para bancos, e de bancos para empresas.
Mais de um século e meio depois, o dinheiro que fez a fama da empresa deixou de ser o centro do jogo. Aqui no Brasil, mais de 90% dos brasileiros usam o Pix, hoje o principal meio de pagamento do país. Diante da digitalização, o mercado deu como certo o encolhimento do dinheiro físico.
A Brink's fez uma leitura diferente. Em vez de tratar a mudança como ameaça, decidiu que o dinheiro não vai desaparecer, vai apenas circular de outro jeito. Com isso em mente, reorganizou o negócio para transportar qualquer coisa de valor, de um comprimido que custa 100 mil reais a um lote de eletrônicos, como iPhones.
Por aqui, a virada ganhou corpo quando Roberto Martins reassumiu a presidência da operação brasileira, em maio de 2024.
Ele voltou ao Brasil depois de comandar operações na Ásia durante a pandemia, período em que acompanhou de fora a transformação dos meios de pagamento em mercados como Estados Unidos, Europa e o próprio Brasil. Encontrou uma empresa diante de um velho dilema. O de reinventar-se, de novo.
O ponto de partida foi recusar o caminho automático do setor, o de cortar custos para sobreviver a um mercado que muda.
"Quando você entra nesse ciclo vicioso de ficar só ajustando a operação, você entra num ciclo de corte de custos", diz Martins. "Nós mudamos o foco disso para entrar no ciclo de vamos melhorar a operação, transformar ela numa operação mais inteligente. Dessa forma a gente otimiza não necessariamente cortando custos, mas aumentando receita, aumentando lucratividade."
O plano aposta em três frentes que já crescem mais rápido que o negócio tradicional de transporte de dinheiro:
- cargas de alto valor que exigem gerenciamento de risco
- cofres inteligentes que digitalizam o caixa do varejo
- terceirização da rede de caixas eletrônicos dos bancos
Globalmente, a estratégia sustenta números que a empresa não abre para a operação brasileira, mas divulga em nível mundial. A Brink's fechou 2025 com receita de 5,26 bilhões de dólares, cerca de 27 bilhões de reais, dos quais quase um terço já vem das operações digitais e de gestão de ATMs, sigla em inglês para caixas eletrônicos.
Qual é a história da Brink's
A Brink's é uma das empresas mais antigas em operação no mundo.
Fundada em 1859, começou transportando bagagens de empresários em Chicago, quando a cidade se firmava como polo comercial do meio-oeste americano. Washington Perry Brink investiu em uma carroça e um cavalo e batizou o negócio de Brink's City Express. A companhia prosperou carregando baús, e só décadas depois assumiu a função que a tornaria conhecida.
A primeira entrega bancária veio em 1900, com seis sacos de dólares de prata levados a um banco.
A partir dali, a empresa se especializou em transporte de valores e o carro-forte passou a ser seu símbolo. Ao longo do século 20, a demanda por segurança no transporte de cargas valiosas fez o modelo se espalhar pelo mundo e ganhar blindagem, aproveitando tecnologia de origem militar.
No Brasil, a Brink's chegou em 1966. A empresa começou com poucos carros-fortes e foi expandindo a operação pelo país nas décadas seguintes, em parte por meio da compra de concorrentes.
"Ela é uma empresa de 167 anos", diz Martins. "Na década de 60 de 1960, cem anos depois, ela começou uma expansão geográfica bastante grande para outros países, outras regiões, e o Brasil foi uma delas."
Hoje, a operação brasileira reúne cerca de 7 mil funcionários, 71 filiais e 1.200 veículos, dos quais mais de 800 são blindados.
A empresa atende mais de 3 mil municípios e está presente em quase todos os estados. No estado de São Paulo, está em praticamente todas as cidades.
Qual é o paradoxo do dinheiro
A tese por trás do reposicionamento parte de um dado que contraria a percepção comum.
Apesar da adoção acelerada do Pix e dos bancos digitais, a quantidade de dinheiro em papel em circulação no Brasil segue acima do patamar anterior à pandemia. O país tinha 289 bilhões de reais em papel-moeda em circulação antes de 2020; o número subiu para 364 bilhões em 2022 e se manteve elevado.
É o fenômeno que o setor chama de cash paradox, o descompasso entre a queda no uso do dinheiro em algumas transações e a alta na quantidade de cédulas em circulação.
Os números do cotidiano reforçam a leitura. Cerca de 22% das transações diárias do varejo brasileiro ainda são feitas em dinheiro físico. Uma proporção maior que a dos Estados Unidos, em 16%. Em mercados emergentes, o dinheiro segue dominante, com participação que passa de 90% em países como Camboja e Etiópia.
Para Martins, o dinheiro não sumiu, apenas mudou de comportamento. O uso de cédulas cresceu durante a pandemia, quando as pessoas buscaram a segurança do dinheiro em espécie, e depois recuou com a expansão dos serviços digitais.
"O dinheiro é o segundo meio de pagamento mais importante no Brasil", diz Martins. "Depois da pandemia, o uso do dinheiro ainda era maior do que antes da pandemia, e segue da mesma forma. É uma percepção que normalmente as pessoas não têm."
Ainda assim, o negócio de transporte de dinheiro, que sustentou a empresa por seis décadas, se estabilizou. Deixou de crescer, mas continua sendo o núcleo da operação. A aposta da Brink's foi usar a mesma estrutura — os carros-fortes, as filiais, a expertise em segurança — para entrar em mercados que crescem mais rápido.
As novas entregas
A primeira frente é o transporte de cargas de alto valor. A lógica é usar a competência que a Brink's desenvolveu para mover dinheiro com segurança a qualquer bem que precise do mesmo cuidado. Medicamentos de alto custo, como as canetinhas emagrecedoras, equipamentos médicos de alta complexidade, relógios de luxo e dispositivos eletrônicos entraram na carteira.
"A base do negócio é entregar alguma coisa, garantir que esse bem vai chegar no destino", diz Martins. "Com esse conceito, a gente deixa de ser uma transportadora de dinheiro e passa a ser uma transportadora de qualquer bem que precise de gerenciamento de risco nesse nível."
O movimento também mudou a forma de cobrar. Em vez de precificar apenas pela distância percorrida ou pelo valor do frete, a empresa passou a considerar o valor da carga, o nível de risco da operação, a cobertura de seguro e os protocolos de segurança.
A mesma inteligência de logística usada com dinheiro se transfere para as novas cargas. O carro-forte que traça rotas para reduzir a previsibilidade do trajeto aplica esse conhecimento a qualquer produto sensível que precise chegar ao destino sem desvios.
E como são os cofres inteligentes
A segunda frente ataca um problema prático do varejo. Até pouco tempo, a Brink's ia a farmácias, postos e comércios várias vezes por semana para recolher o dinheiro do caixa, levá-lo para contagem e depositá-lo no banco. Esse fluxo levava, em média, cinco dias até o dinheiro chegar à conta do lojista.
A empresa instalou milhares de cofres inteligentes nos pontos de venda, dentro de uma solução que chama de DRS, sigla em inglês para soluções digitais de varejo. O comerciante deposita o dinheiro no equipamento, que reconhece o valor na hora e o credita em uma conta digital da própria Brink's, batizada de Brink's Pay.
"Aquele fluxo de caixa que demorava cinco dias para chegar na conta corrente dele, a gente cortou isso para instantes, horas, talvez até minutos dentro do mesmo dia", diz Martins. "Vendeu, recebeu, depositou, tá na conta digital."
O modelo inverte a logística do dinheiro. O varejista não vai mais ao banco depositar. O dinheiro fica sob custódia da Brink's, que passa a abastecer as agências e os caixas eletrônicos com esse mesmo recurso. A empresa só recolhe os valores quando o cofre atinge um nível mais alto, o que reduz a quilometragem dos veículos e, segundo Martins, corta emissões de gás carbônico.
O modelo de cobrança acompanhou a mudança: em vez de tarifar pelo número de coletas, os contratos passaram a prever mensalidades e taxas ligadas ao volume financeiro administrado.
Assumir os caixas eletrônicos dos bancos
A terceira frente é a gestão terceirizada de caixas eletrônicos, chamada internamente de AMS, sigla em inglês para gestão de redes de ATMs.
Com a redução das agências físicas e a mudança na circulação do dinheiro, os bancos passaram a precisar de menos estrutura própria. A Brink's absorve a rede de caixas eletrônicos, que se torna ativo da empresa, e assume a operação completa.
A proposta é reduzir custo e risco para bancos, fintechs e cooperativas de crédito, num mercado em que grandes instituições reduzem presença física enquanto ampliam a digital.
Em nível global, as soluções digitais e de gestão de ATMs já respondem por 28% da receita da companhia e cresceram 19% em 2025.
O que vem pela frente
Martins resume o reposicionamento como uma mudança de mentalidade, mais que de operação.
"É a intensificação da mudança de cultura e de comportamento da empresa para acelerar a introdução de novas soluções", diz. "E enxergar menos os problemas da mudança do mercado e olhar mais as oportunidades. Onde é que a gente consegue crescer, avançar, já que o mercado está mudando e a gente muda junto com ele."
Nos próximos meses, a operação brasileira também troca a frota de veículos leves, com a chegada de dezenas de carros elétricos para substituir modelos a combustão.
É um movimento pequeno diante do reposicionamento geral, mas alinhado à lógica que a empresa vem defendendo: usar a mesma estrutura de sempre para operar de um jeito diferente.
