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NegóciosMPOLBDR
05/08/2026
6 min

Aos 175 anos, gigante dona do vidro do iPhone fatura R$ 77 bilhões e quer dobrar receita no Brasil

Criadora da fibra óptica e do Gorilla Glass, a Corning aposta na infraestrutura de data centers de IA para crescer no país

Aos 175 anos, gigante dona do vidro do iPhone fatura R$ 77 bilhões e quer dobrar receita no Brasil

Poucas empresas podem dizer que mexeram tanto na vida das pessoas no último século quanto a Corning.

Fundada no interior do estado de Nova York e com operação em mais de 30 países, entre eles o Brasil, a companhia tem um currículo de dar inveja: fez o vidro da lâmpada de Thomas Edison, os recipientes Pyrex, o tubo de imagem das televisões, a fibra óptica, o vidro do iPhone e agora, ufa, a infraestrutura dos data centers de inteligência artificial.

A Corning é uma empresa de ciência de materiais que usa o vidro como matéria-prima principal. Fundada em 1851, chega a 2026 com 175 anos, faturamento global de 77 bilhões de reais (15,6 bilhões de dólares, segundo o balanço mais recente divulgado pela companhia) e presença em telecomunicações, eletrônicos, displays, automóveis e ciências da vida.

No Brasil, a operação é enxuta e com foco comercial. São cerca de 75 funcionários voltados para vendas, logística e atendimento a clientes. Não há fábrica própria no país: a produção fica na América Latina, onde o México é o maior empregador da Corning no mundo, com mais de 25 mil funcionários.

Ainda assim, a companhia trata o Brasil como um hub estratégico de crescimento, no grupo dos mercados emergentes, e tem colocado dinheiro para expandir três frentes por aqui: telecomunicações e data centers, catalisadores automotivos e ciências da vida.

No Brasil, o negócio de data centers cresceu dez vezes em dois anos, segundo a empresa, e a operação local aposta nessa onda para dobrar de tamanho.

O apetite tem lastro lá fora: em maio de 2026, a Corning fechou uma parceria com a NVIDIA que inclui um aporte de 500 milhões de dólares da fabricante de chips, com opção de investir até 3,2 bilhões de dólares por meio de warrants, papéis que dão direito de compra de ações.

O acordo prevê três novas fábricas de conectividade óptica nos Estados Unidos para atender à construção de data centers de inteligência artificial — o mesmo tipo de demanda que move a operação brasileira.

"Empresas que inovam por mais de um século entendem que inovação não é um evento isolado, mas um processo contínuo, estruturado e alinhado ao propósito do negócio", afirma Flávio Guimarães, presidente da Corning Brasil.

Além das três frentes atuais, a operação brasileira mantém uma carteira de novos negócios de prazo mais longo — de dois a cinco anos — em bioagricultura, vidros especiais para para-brisas e outras tecnologias ainda em validação.

É essa soma que, na conta da empresa, deve dobrar o faturamento da Corning no Brasil e na América Latina.

Qual é a história da Corning

A história da Corning começou em 1851, em Massachusetts, com vidro para construção civil.

Em 1879, a empresa fez o invólucro de vidro que protegia o filamento da lâmpada incandescente de Thomas Edison. Em 1915, lançou o Pyrex, a linha de utensílios de cozinha resistentes ao calor.

Em 1947, passou a produzir em massa os tubos de imagem das televisões.

O salto que definiria as décadas seguintes veio em 1970. Atendendo a um pedido dos correios do Reino Unido, um time de três cientistas — Robert Maurer, Donald Keck e Peter Schultz — apresentou o primeiro cabo de fibra óptica capaz de transmitir sinais por longas distâncias sem perdas significativas de qualidade.

Quando inventaram a fibra óptica de baixa perda, o mercado ainda não existia. A empresa teve de criar o mercado inteiro, um risco alto que estabeleceu o negócio de comunicações ópticas.

Em 2007, veio o capítulo mais conhecido. Steve Jobs procurou a Corning em busca de um vidro resistente para a tela do primeiro iPhone. Nasceu o Gorilla Glass, um vidro reforçado quimicamente contra riscos e quedas. Desde então, o produto já gerou mais de 20 bilhões de dólares em receita e está em mais de 8 bilhões de aparelhos no mundo.

A nova aposta em data centers

O eixo de crescimento da Corning hoje é a infraestrutura de inteligência artificial. Modelos de IA exigem milhares de GPUs, unidades de processamento gráfico, conectadas entre si. Essa conexão consome volumes cada vez maiores de fibra óptica. É aí que a empresa vê a repetição de um roteiro conhecido.

"Isso é algo que aconteceu antes com o Gorilla Glass", afirma Guimarães, ao comparar a parceria com a NVIDIA ao movimento que colocou a Corning dentro do iPhone.

No Brasil, o negócio de data centers cresceu dez vezes em dois anos, segundo a companhia, e a expectativa é crescer mais cinco vezes.

Para dar conta da demanda, a Corning montou equipe de vendas local, time técnico-comercial e de pós-venda, e está transferindo o centro de distribuição em São Paulo para uma área maior, com mais automação.

O novo espaço vai atender também o negócio de telecomunicações.

A empresa desenvolve ainda uma cadeia de fornecedores parceiros no país para montagem final e conectorização de cabos destinados a projetos de data center.

Quais outras apostas no Brasil

A frente automotiva da Corning esbarra em uma questão regulatória. A empresa produz catalisadores e filtros para escapamentos, equipamentos que dependem de regras de controle de emissões para ter mercado.

E o Brasil, segundo Guimarães, está atrás.

"O Brasil é um dos únicos países que não aprovou a regulação de particulados leves para veículos leves", afirma o executivo, que preside o conselho da FEVAS, associação do setor de equipamentos de emissões veiculares.

Hoje o país controla a emissão de particulados apenas para veículos pesados, como caminhões e ônibus, não para carros de passeio.

A companhia trabalha junto a órgãos como CONAMA, IBAMA e Ministério do Meio Ambiente para equiparar as regras brasileiras às da Europa, China e Estados Unidos. Se a regulação avançar, abre-se um mercado relevante para os equipamentos da Corning nos próximos anos.

Já a área de ciências da vida, que reúne vidros, plásticos e soluções de bioprodução para diagnósticos, vacinas e terapia celular, cresce entre 10% e 12% ao ano, segundo o CEO.

A Corning tem ampliado o número de grandes clientes atendidos diretamente por cientistas de aplicação, profissionais que ajudam o cliente a desenvolver o próprio processo de produção.

Há ainda uma carteira de novos negócios tocada em conjunto com o centro de pesquisa da companhia nos Estados Unidos. Três projetos se destacam. O primeiro é uma tecnologia de encapsulamento de biopesticidas, insumos biológicos que substituem defensivos químicos na agricultura, ainda em fase de validação, mas com potencial grande em um país que tem um dos agronegócios mais avançados do mundo. O segundo são vidros especiais para para-brisas de caminhões fora de estrada e ônibus rodoviários, que sofrem com quebras frequentes. O terceiro grupo reúne projetos de dois a cinco anos que a companhia mantém no pipeline.

É essa combinação, data centers no curto prazo, automotivo dependente de regulação e ciências da vida em expansão, que a Corning aposta para dobrar o faturamento no Brasil.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
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