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NegóciosMPOL
20/08/2026
7 min

Aos 18 anos, eles criaram uma startup antifraude que hoje fatura R$ 100 milhões

A Legitimuz lança o LegitFace, tecnologia que combina reconhecimento facial, análise de dispositivo e contexto para identificar riscos de fraude além da verificação de identidade

Aos 18 anos, eles criaram uma startup antifraude que hoje fatura R$ 100 milhões

Uma fraude pode começar com uma identidade verdadeira. O rosto é do cliente, o CPF também, mas alguém pode estar usando esses dados para abrir uma conta, contratar um empréstimo ou financiar um produto sem que o titular saiba. É esse problema que a Legitimuz quer atacar em uma nova etapa de sua tecnologia de autenticação.

Fundada em 2023, a startup atua na prevenção de fraudes de identidade. Agora, a companhia lança o LegitFace, uma tecnologia proprietária que amplia a autenticação facial tradicional. Em vez de apenas verificar se a pessoa diante da câmera é quem diz ser, o sistema combina diferentes camadas de informação para entender como aquela identidade está sendo usada e qual é o risco envolvido na operação.

A companhia começou a desenvolver o LegitFace em janeiro de 2025, quando já processava mais de 40 milhões de transações em um mês e ainda dependia de provedores estrangeiros de reconhecimento facial.

“Provar a identidade é o início, não o fim. A biometria é parte do processo e não o processo inteiro”, afirma Kayky Janiszewski, cofundador e CEO da Legitimuz.

A empresa fatura mais de R$ 100 milhões por ano e agora quer crescer principalmente no setor financeiro, onde já atende bancos, fintechs, empresas de crédito, marketplaces e varejistas. Ao mesmo tempo, prepara uma expansão para outros casos de uso, como a estimativa de idade para acesso a conteúdos e produtos destinados a maiores de idade.

Da verificação de identidade à análise de contexto

Antes da Legitimuz, Janiszewski trabalhava com marketing digital. Começou aos 15 anos, vendendo anúncios e páginas de internet, e depois montou uma agência de cursos online.

A Legitimuz nasceu em 2023, quando a digitalização acelerada pela pandemia já havia mudado a forma como consumidores abriam contas, contratavam serviços e tomavam crédito.

Antes, era comum provar a identidade presencialmente, diante de um funcionário e com documentos em mãos. Com a migração dessas etapas para o celular, empresas passaram a depender de sistemas capazes de verificar documentos e rostos à distância.

Um amigo de Kayky Janiszewski era dono de uma plataforma de pagamentos, mas usava uma solução de verificação de identidade que considerava ruim e apresentou o problema ao empreendedor. Aos 18 anos, Janiszewski decidiu transformar a dor em negócio ao lado do sócio, Mateus Mendes. Os dois investiram cerca de R$ 3 milhões do próprio bolso para desenvolver a empresa.

O primeiro desafio foi convencer os clientes a confiar em uma startup recém-criada para automatizar uma decisão crítica. Uma falha poderia permitir a abertura de uma conta fraudulenta, a concessão de crédito a um criminoso ou um financiamento em nome de uma vítima.

Para chegar aos primeiros clientes, os fundadores começaram pela conversa direta com profissionais de bancos, fintechs e varejistas para explicar a ideia da startup.

A estratégia levou aos primeiros testes e ajudou a empresa a entender onde o problema era maior. A Legitimuz passou a atender bancos, fintechs, empresas de empréstimo, marketplaces e varejistas, concentrando-se em mercados regulados. Cerca de um ano e meio depois do início da operação, a empresa chegou ao ponto de equilíbrio.

Na prática, a IA desenvolvida pela Legitimuz analisa fotos de documentos de identidade para verificar sua validade. O sistema cruza diferentes elementos, como fonte, alinhamento das informações, fotografia, cores e assinaturas, em uma análise que busca identificar sinais de adulteração. “A ideia é entender se o documento tem validade ou não”, diz.

O reconhecimento facial entra como outra etapa dessa verificação. Mas, para a Legitimuz, confirmar a identidade não encerra o processo. Uma pessoa pode apresentar o rosto e o documento corretos e, ainda assim, estar sendo manipulada por um fraudador ou participando de uma operação suspeita. É dessa mudança de abordagem que surge o LegitFace.

O que muda com o LegitFace

O lançamento parte de uma diferença em relação aos modelos tradicionais de autenticação. Neles, a prova de vida busca responder se existe uma pessoa real diante da câmera e se aquele rosto corresponde à identidade apresentada.

O LegitFace mantém essa camada, mas acrescenta outras informações à análise. A tecnologia combina a prova de vida com sinais do dispositivo e da própria operação para avaliar como aquela identidade está se comportando e qual é o nível de risco envolvido.

A pergunta, portanto, deixa de ser apenas “essa pessoa é quem diz ser?” e passa a incluir outra: “essa identidade está se comportando como deveria?”

Um CPF pode ser verdadeiro e o rosto também, mas o celular, a localização ou o comportamento podem indicar que a pessoa está sendo usada por um fraudador. É o caso, por exemplo, de alguém que acredita estar participando de um sorteio, mas é induzido a fazer um reconhecimento facial que, na verdade, será usado para financiar um carro em seu nome.

É nesse tipo de situação que a empresa pretende atuar. Em vez de tratar a identidade como uma informação isolada, o LegitFace analisa o contexto em que ela aparece.

O desenvolvimento começou em janeiro de 2025, quando a Legitimuz já havia atingido escala e processava mais de 40 milhões de transações em um mês. Naquele momento, a empresa usava provedores americanos de reconhecimento facial e concluiu que depender de tecnologias estrangeiras limitaria sua capacidade de lidar com as condições específicas do mercado brasileiro.

O desafio de reconhecer o brasileiro

Parte do desenvolvimento do LegitFace está relacionada às características do mercado brasileiro. Segundo a empresa, a tecnologia foi construída considerando dispositivos antigos, câmeras de menor qualidade, conexões instáveis e diferentes condições de uso. A companhia também diz ter trabalhado com situações como vitiligo, albinismo, cicatrizes, paralisia facial e dificuldades de leitura e acessibilidade.

A Legitimuz afirma ter treinado seus modelos com uma massa de dados com diferentes perfis para reduzir erros de reconhecimento. A proposta é evitar que características do usuário ou as condições do dispositivo levem à reprovação indevida de uma pessoa legítima.

Essa preocupação também se aplica à prova de vida. O sistema precisa diferenciar uma pessoa real de tentativas de manipulação, como fotografias, telas, máscaras e conteúdos gerados ou alterados digitalmente.

Essa identificação é apenas uma parte da análise. O objetivo é cruzá-la com outras informações para avaliar a legitimidade da interação como um todo.

O laboratório que tenta quebrar a própria tecnologia

Para testar os cenários de fraude, a Legitimuz criou um time de oito pessoas dedicado a atacar os próprios sistemas.

“Temos uma sala que a gente chama de laboratório da fraude, onde temos dezenas de máscaras, impressoras, projetores, monitores e até mesmo profissionais capacitados em alteração de hardware para fazer esse tipo de ataque”, afirma Janiszewski.

A equipe tenta reproduzir internamente as técnicas usadas por fraudadores. A empresa cita testes com máscaras, telas de alta resolução, papel impresso, deepfakes e injeção de câmera virtual.

A companhia também contratou empresas que acompanham tendências que aparecem na deep web, para identificar e se preparar para novas formas de ataque.

Próximos passos

A expansão do LegitFace acompanha o crescimento da Legitimuz. Nos últimos meses, a empresa passou de cerca de 40 para mais de 80 funcionários e hoje afirma ter mais de 150 clientes, processar aproximadamente 40 milhões de autenticações por mês e ter cerca de 150 milhões de faces vinculadas a CPFs únicos.

A empresa fatura mais de R$ 100 milhões por ano e projeta crescimento de 40% em 2027. Para sustentar a expansão, a Legitimuz ampliou a equipe e trouxe profissionais com experiência em bancos, tecnologia e identidade.

Segundo a companhia, a combinação entre o LegitFace e a inteligência de dispositivo contribui para a expansão dos negócios no setor financeiro. A empresa já atende bancos, fintechs, empresas de crédito, marketplaces e varejistas e pretende ampliar a atuação dentro dos mercados regulados.

Ao mesmo tempo, a tecnologia começa a ser levada para outros casos de uso. Uma das apostas é a estimativa de idade pela face, que combina a prova de vida com um modelo de inteligência artificial para identificar se uma pessoa é maior ou menor de idade.

O produto já está pronto e em operação, segundo Janiszewski, e pode ser usado em compras de bebidas, conteúdos restritos e outros serviços que exigem confirmação de idade.

No longo prazo, a ambição é ampliar os sinais usados nas decisões. Áudio, ligações e outras trocas de informação poderiam entrar na análise quando estiverem relacionadas a uma transação ou autenticação.

AutorBianca Camatta
FonteExame
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