Aos 19, eles faziam dinheiro cortando cabelo na pandemia. Agora vão faturar R$ 12 milhões em viagens

Você manda mensagem para a agência de viagem num sábado à noite pedindo para remarcar um voo. A resposta vem em segundos, com as opções e o valor da diferença. Você escolhe uma, e o bilhete chega. Parece um atendimento comum, do jeito que agência de viagem sempre fez. Só que não tem nenhuma pessoa por trás.
Esse é o serviço que a Blis AI vende. A startup mineira desenvolve agentes de inteligência artificial que atendem, vendem e remarcam voos dentro do WhatsApp, do e-mail e de um chat próprio da agência.
O cliente da Blis não é o viajante. É a agência de viagem, um setor onde a conta nunca fechou muito bem. Uma agência grande chega a ter 500 pessoas atendendo telefone e respondendo e-mail. Cada uma custa entre 5.000 e 8.000 reais por mês e dá conta de 300 a 500 solicitações.
A Blis AI tem cinco meses de mercado. Foi lançada em fevereiro,depois de três meses de testes gratuitos com agências parceiras. A receita anual recorrente está em 2,5 milhões de reais, e a lista de espera chegou a 160 agências. A meta de dezembro é fechar o ano com 1 milhão de reais de receita mensal — o que projetaria os 12 milhões anuais.
"Um atendente de agência de turismo faz de 300 a 500 atendimentos por mês e custa de cinco a seis mil reais, em São Paulo chega a 8.000 com encargos. Vamos construir um agente, limitar ele a 1.500 atendimentos, ele é pelo menos 500% mais produtivo que um atendente humano e custa o mesmo tanto", diz Rodrigo Cioffi, um dos três fundadores.
O plano para os próximos meses é entrar nas agências pequenas e médias, que ficaram de fora do produto original, e usar a parceria com a Flytour, maior franquia de viagens corporativas do país, para chegar a outros estados e à América Latina.
A empresa quer terminar o ano com pelo menos 150 clientes com todos os serviços implantados.
Como a história começou
Rafael Cohen e Rodrigo Cioffi se conheceram no ensino médio, em Belo Horizonte. Luiz Antunes entrou na roda na faculdade — os três estudavam no Ibmec, e Antunes cursava engenharia de software na PUC ao mesmo tempo.
No quarto período, a pandemia fechou tudo, inclusive as barbearias. Os três tinham 19 anos e um barbeiro conhecido. Montaram um serviço de corte de cabelo em casa, com três profissionais, no modelo que a Singu tinha popularizado entre mulheres.
Chamaram de EasyBarbers. Fizeram mais de 2.000 cortes em Belo Horizonte, no boca a boca, e viram a renda dos barbeiros subir. Aí a vacinação avançou.
"A gente tava postando muito que essa era uma tendência que ia continuar, a do corte de cabelo em casa, igual tinha muita gente que postava a tendência do home office para sempre. E a gente viu que não era bem assim", diz Cohen.
Os clientes voltaram para as barbearias. No fim de 2021, os três fecharam o negócio.
Cohen se mudou para São Paulo. A família dele tem história no turismo: o avô fundou a Belvitur, em Minas, que comprou a Flytour e formou a BeFly, um dos maiores grupos de turismo do Brasil.
Ele passou 2022, 2023 e 2024 trabalhando em áreas diferentes da empresa — operação, receita —, e foi ali que viu o problema que viraria negócio.
"Só na BeFly já tinha mais de 500 pessoas atendendo telefonema, respondendo e-mail, tudo de dúvida de viajante, remarcando voo, cancelando voo, muitas coisas que são repetitivas. Tem muita gente envolvida na operação, e isso gera um custo muito grande para a agência de viagem", diz Cohen.
O padrão se repetia nas agências menores, com 20, 30, 100 pessoas. E em um setor de margens baixas, o peso é proporcionalmente maior.
Cioffi foi trabalhar na empresa do pai, a Squadra, software house mineira com 700 funcionários e 40 anos de mercado. Ali, tocou uma operação que virou uma spin-off chamada Distalbot, principal parceira da Blip na implantação de chatbots. Foram quatro anos e mais de mil projetos. Antunes empreendeu no ramo de bebidas.
No fim de 2024, Cohen pediu demissão da BeFly. Em janeiro de 2025, ele e Antunes se mudaram para o Vale do Silício, para um curso de empreendedorismo em Stanford, e passaram o semestre discutindo inteligência artificial. Cioffi acompanhava por telefone, de Belo Horizonte, e só conseguiu sair da operação da Distalbot em agosto.
O que a IA faz e o que ela não faz
A Blis começou a ser desenvolvida em agosto de 2025. A primeira versão ficou pronta no fim de outubro. De novembro a janeiro, algumas agências usaram o produto de graça, em fase beta, versão de testes, enquanto os fundadores recolhiam reclamações e ajustavam.
A diferença que os sócios apontam frente a soluções genéricas de IA é a conexão com os sistemas do setor: APIs, canais de comunicação entre programas, de companhias aéreas, hotéis e locadoras, além de plataformas de back-office, os sistemas administrativos internos das agências. Isso permite que o agente não só responda, mas execute: venda o voo, marque assento, adicione bagagem, cancele, remarque.
Há limites, e eles são de sistema. Incluir um pet numa viagem, por exemplo, não é possível por nenhuma API: só por telefone, com a companhia aérea. É onde entra a agência, e é a razão pela qual a Blis não quer virar uma.
"Se a IA resolver isso tudo, a gente poderia ir direto no viajante final e nem ter time de atendimento. Mas não é assim, tem coisas nesse setor que exigem atendimento humano", diz Cohen.
A empresa escolheu os processos mais frequentes e mais demorados: cancelamento, remarcação, venda e o que o setor chama de ancillaries, os serviços acessórios como bagagem e assento.
Para treinar o agente, os fundadores entrevistaram viajantes, atendentes e donos de agência, e analisaram mais de 200.000 solicitações reais cedidas por agências parceiras. Ainda assim, o turismo produz situações que nenhuma base cobre.
"A IA nunca vai estar treinada. É um eterno treinamento. São cenários que a gente não consegue prever, e sempre vão ter coisas que a gente nem imaginava", diz Cioffi. Segundo ele, o time sobe de 20 a 30 atualizações por semana, alimentadas pelo que a equipe de atendimento ao cliente traz da linha de frente.
Qual é o modelo de negócio
O modelo é de assinatura. Um agente da Blis custa cerca de 6.000 reais por mês e é limitado a 1.500 atendimentos — o equivalente a três a cinco atendentes humanos, pelo preço de um.
O produto original foi desenhado para agências corporativas, que atendem empresas — menos numerosas, mas de volume alto. A demanda que chegou foi outra. "A gente começou a receber tanto lead de agência de lazer que decidiu desenhar um produto mais enxuto, específico para agência de lazer", diz Cioffi.
Para essas, a lógica se inverte: em vez de fazer cinco vezes mais que um humano, o agente faz o mesmo tanto por um quinto do preço.
Os primeiros meses de venda foram os mais difíceis. Até fevereiro, a empresa só tinha desenvolvedores — Cohen e Cioffi faziam as reuniões comerciais sem produto para mostrar. Depois vieram a montagem do time de vendas, a estruturação do atendimento e a busca por um canal de aquisição. "Foram muitos desafios. Parece que são vários meses que já passaram anos", diz Cioffi.
Quais são os desafios
O concorrente real da Blis não é outra IA. É o grupo de agências digitais que, desde 2018, vem tirando clientes das tradicionais. São as traveltechs, empresas de viagem que nasceram com sistema próprio e captaram fundos, todas focadas no mercado corporativo.
"Muita agência tradicional começou a perder cliente para esses caras porque eles tinham uma promessa de tecnologia muito forte. Hoje, por mais que o dono da agência seja um pouco resistente à tecnologia, ele sabe que se não tiver, vai continuar perdendo", diz Cioffi.
A aposta da Blis é no ponto fraco do outro lado. Segundo Cioffi, clientes de traveltechs reclamam da falta de atendimento humano quando surge um problema no pós-venda. "O cliente da agência de viagem quer uma tecnologia igual da traveltech, mas quer um atendimento que a agência sabe prestar", diz.
