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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
04/08/2026
9 min

Aos 25 anos, ele vai faturar R$ 25 milhões ensinando marcas a falar com a geração Z

Jovem empresário à frente da agência BeClub atribui parte do crescimento à capacidade de liderar profissionais de sua geração

Aos 25 anos, ele vai faturar R$ 25 milhões ensinando marcas a falar com a geração Z

Os primeiros R$ 3 mil levantados pela agência BeClub não foram usados para contratar funcionários, alugar um escritório ou financiar uma campanha. O dinheiro comprou um MacBook usado. Era o equipamento com que João Camargo, então no início da carreira, sonhava trabalhar — e a única estrutura disponível para começar a atenderinfluenciadores digitais.

Aos 25 anos, o publicitário comanda uma empresa com mais de 45 funcionários, 35 criadores exclusivos e clientes como Mantecorp Skincare, Vitasay, Korres Brasil, Bio Extratus, Yamá, Yamasterol eNeosaldina. Em 2026, a BeClub vai faturar R$ 25 milhões e estima alcançar 90 milhões de pessoas por mês através dos conteúdos publicados por seu casting de influenciadores.

A operação combina uma agência de publicidade, o gerenciamento da carreira de influenciadores e, mais recentemente, uma frente de social commerce ligada ao TikTok Shop. Cerca de 60% da receita vem dos serviços prestados às marcas, enquanto os outros 40% são gerados pelo agenciamento artístico.

O crescimento ocorreu sem investidores externos. João credita parte do resultado à capacidade de formar e liderar uma equipe composta majoritariamente por profissionais da geração Z — grupo ao qual ele próprio pertence.

“Minha juventude me ajudou a saber liderar jovens. Converso com empresários que têm muita dificuldade de trabalhar com pessoas da geração Z, algo que, estranhamente, eu não tenho”.

“Eu também sou dessa geração e consigo lidar com o meu time de uma maneira mais eficaz”, completa João.

Como João começou a empreender

João cresceu em Salto, município do interior paulista próximo a Itu. Ainda adolescente, decidiu que trabalharia com publicidade, embora não soubesse exatamente quais atividades a profissão envolvia. O interesse pelo universo da beleza veio de casa, principalmente da convivência com a avó e com a mãe.

Em 2019, mudou-se para a capital paulista para cursar Publicidade e Propaganda. A permanência em São Paulo dependia de conseguir pagar parte dos próprios custos. Seis meses depois de começar a faculdade, ingressou como estagiário em uma pequena empresa de marketing de influência, na qual se tornou o primeiro funcionário.

A estrutura reduzida o colocou em contato não apenas com campanhas, mas com tarefas que iam da organização do negócio ao atendimento de clientes. Pouco depois, recebeu o convite para deixar o estágio e assumir a gerência de marketing de uma marca estrangeira de beleza que iniciava a operação brasileira.

A mudança parecia grande demais para alguém que acabara de entrar no mercado. A CEO da companhia, porém, incentivou João a aceitar o posto e, mais tarde, a abrir o próprio negócio.

“Eu nunca imaginei que empreender estaria no meu caminho. Não era uma pessoa que dizia ter nascido para isso”, afirma. “Ela me mostrou um lado do empreendedorismo que eu não conhecia e talentos que eu não sabia que tinha.”

Foi nesse período que o TikTok começou a ganhar força no Brasil, pouco antes da pandemia. João acompanhava criadores de beleza que cresciam rapidamente, mas ainda não tinham estrutura para negociar contratos, escolher campanhas ou planejar a própria carreira.

A oportunidade parecia estar no espaço entre as marcas e aquela nova geração de personalidades digitais. A BeClub começou agenciando alguns desses criadores. Atualmente, o casting inclui nomes como Karol Resende, que soma mais de 4 milhões de seguidores nas redes sociais, Cris Wraase e Taise Dias.

Como a BeClub cresceu

O primeiro modelo de negócio era semelhante ao de outras agências de influência: receber o briefing preparado por uma marca, repassá-lo ao criador e ficar com uma comissão pelo contrato.

João começou a questionar o formato ao perceber que algumas empresas não voltavam a contratar os influenciadores. Para ele, parte do problema não estava no desempenho do criador, mas na ausência de uma estratégia clara por parte do anunciante.

“Eu comecei a pensar: o erro é de fato do meu influenciador ou da marca, que não tem uma estratégia para o marketing de influência?”, diz.

A BeClub passou, então, a disputar as contas das próprias empresas. Em vez de apenas indicar um influenciador para uma campanha pronta, começou a participar do planejamento, dos lançamentos de produtos, da construção das narrativas digitais e da mensuração dos resultados.

A mudança alterou o centro financeiro do negócio. Hoje, o gerenciamento artístico representa 40% do faturamento. Os outros 60% vêm da atuação como agência de publicidade.

“Somos uma agência de publicidade que, por acaso, tem o agenciamento artístico como uma de suas frentes”, afirma o empresário.

A empresa se apresenta como uma "operação boutique" e mantém um portfólio relativamente restrito. A proposta é atender tanto as marcas quanto os criadores, ainda que isso possa produzir uma área sensível: a agência que recomenda influenciadores também possui talentos próprios em seu casting.

Segundo João, a estrutura permite que uma empresa encontre, em um mesmo lugar, planejamento publicitário, produção de conteúdo, contratação de criadores e execução de campanhas. A BeClub afirma considerar a aderência entre marca e audiência antes de contratar seus próprios agenciados.

A aposta em beleza

Escolher um segmento específico foi uma maneira de reduzir a concorrência enfrentada por uma agência recém-criada. Em vez de se apresentar como mais uma empresa capaz de atender qualquer anunciante, a BeClub se especializou no segmento de beleza.

Embora já trabalhe com companhias de outros setores, a categoria continua sendo seu principal território. O período de especialização permitiu à agência formar uma base de dados sobre campanhas, produtos, públicos e criadores do segmento.

“Temos clientes que vieram de agências infinitamente maiores e diziam que elas não entendiam direito o negócio ou o produto”, afirma João. “Quando trabalhamos com beleza e moda, não precisamos de muito tempo para entender, porque vivemos e respiramos isso.”

A estratégia colocou a companhia em uma categoria na qual a demonstração de um produto pode influenciar diretamente a compra. Cosméticos, itens para cabelo e produtos de cuidados pessoais são usados diante da câmera, comparados em tempo real e incorporados à rotina dos criadores. 

Esse comportamento também ajuda a explicar por que a beleza se tornou uma das categorias mais relevantes no live commerce. No primeiro ano de operação do TikTok Shop no Brasil, o volume bruto médio diário vendido pela plataforma cresceu 102 vezes.

O número médio de criadores afiliados ativos aumentou 46 vezes, enquanto o GMV (Gross Merchandise Value — em português, valor bruto de mercadorias vendidas) gerado pelas transmissões ao vivo avançou 161 vezes entre maio de 2025 e maio de 2026. Cosméticos estão entre as categorias com maior volume de vendas nas lives, segundo o TikTok.

A Naturafoi uma das empresas a testar o formato. Em 2025, a companhia realizou 52 mil transmissões com suas consultoras de beleza, que geraram mais de 32 milhões de impressões. Em uma live de 12 horas durante a Black Friday, a marca afirma ter aumentado em 228% a conversão de consumidores que haviam abandonado o carrinho.

Influência que termina no carrinho

Lançado no Brasil em maio de 2025, o TikTok Shop permite que consumidores assistam a vídeos ou transmissões ao vivo e concluam a compra sem deixar o aplicativo.

O recurso aproximou ainda mais publicidade, entretenimento e varejo. Para as agências, a mudança significa que o desempenho de uma campanha pode ser medido não apenas em visualizações ou curtidas, mas em produtos efetivamente vendidos.

A BeClub foi escolhida pelo TikTok como agência parceira da plataforma e começou a auxiliar marcas em seus lançamentos dentro do marketplace. A operação ainda é descrita por João como embrionária, mas amplia a participação da companhia na jornada de consumo: da escolha do influenciador ao fechamento da venda.

Em seus primeiros cinco meses no Brasil, o GMV médio diário do TikTok Shop cresceu 26 vezes, enquanto o número de criadores ativos aumentou 12 vezes. Os dados são da própria plataforma.

“A gente está falando de um poder de decisão que começa aqui”, diz João. “Às vezes, as pessoas compram um produto viralizado sem saber que a campanha que ajudou a torná-lo viral começou dentro de uma agência.”

A expansão do social commerce ocorre enquanto o trabalho dos criadores ganha novas regras e enfrenta maior escrutínio. Em janeiro de 2026, o Brasil sancionou a lei que regulamentou a profissão de multimídia, categoria que reúne atividades de criação, produção, gestão e distribuição de conteúdo digital.

Projetos mais específicos sobre a identificação de publicidade feita por influenciadores e a responsabilidade por conteúdos patrocinados, porém, ainda tramitam no Congresso.

Como liderar a geração Z

A proximidade com a geração Z não aparece apenas nas campanhas da BeClub. Segundo João, 93% da equipe pertence ao grupo. O quadro também é formado quase integralmente por mulheres, que ocupam os cargos de liderança.

O publicitário diz que administrar profissionais de sua idade exige compreender uma relação menos rígida entre vida pessoal e trabalho. Em sua avaliação, remuneração e plano de carreira continuam importantes, mas não bastam para reter os jovens.

“O salário que eles recebem é importante, mas o salário emocional é o que faz com que fiquem”, afirma. “Eles podem receber bem, mas, quando não se sentem bem na empresa, isso gera impacto.”

João descreve essa geração como mais orientada pelas emoções, mas rejeita o estereótipo de que ela não aceita cobranças ou feedbacks. Para ele, são trabalhadores leais quando encontram propósito, espaço para participar das decisões e uma liderança capaz de considerar o que acontece fora do escritório.

Na BeClub, a equipe trabalha remotamente três dias por semana. O escritório fica no bairro do Paraíso, em São Paulo.

O fundador também procura reduzir sua participação nas tarefas operacionais. A frente comercial e o relacionamento diário com os influenciadores já são conduzidos pelos funcionários. Para um empresário que abriu a companhia praticamente sozinho, delegar se tornou parte da estratégia de crescimento.

“A empresa não seria nada sem o meu time”, afirma. “Foram essas mentes jovens que levantaram a BeClub junto comigo.”

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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