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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
02/08/2026
7 min

Aos 26 anos, ela lidera a maior rede de pneus do Norte e fatura mais de R$ 330 milhões

Helena Monteconrado assumiu a operação da empresa da família aos 22 anos. Hoje, a Japurá Pneus atua em seis estados e aposta em tecnologia para acelerar o crescimento

Aos 26 anos, ela lidera a maior rede de pneus do Norte e fatura mais de R$ 330 milhões

Todo ano, a Japurá Pneus trabalha contra uma data: 15 de setembro. Até lá, os sete centros de distribuição da rede precisam estar completamente abastecidos. Depois disso, começa a estiagem dos rios da Amazônia, o nível baixa, a balsa deixa de passar e o pneu que não chegou simplesmente não chega mais.

"Na Japurá a gente não vende pneu, a gente vende logística", diz Helena Monteconrado, sócia-diretora e diretora de operações da companhia.

Aos 26 anos, Helena lidera uma empresa que faturou R$ 331 milhões em 2025 e projeta alcançar R$ 380 milhões neste ano. Ela assumiu a diretoria aos 22 anos, representando a geração mais recente da família fundadora à frente da Japurá Pneus, criada em 1973 em Manaus.

Hoje, a companhia opera 28 unidades — 21 lojas e sete centros de distribuição — em seis estados da Região Norte, emprega 400 pessoas e se tornou a maior rede de pneus e serviços automotivos da região.

Nos últimos quatro anos, segundo dados da empresa, a Japurá quadruplicou o faturamento e dobrou o número de lojas e colaboradores.

O crescimento veio com a expansão para segmentos mais rentáveis, a reorganização da operação e investimentos em tecnologia para resolver o maior desafio de quem faz negócios na Amazônia: fazer o produto chegar ao destino.

"A organização do processo é o trabalho mais invisível que existe em uma empresa. Ele não aparece na DRE no final do mês, ele não tem indicadores certos que comprovem", diz. "A gente só descobre se funcionou quando as coisas começam a rodar sozinhas e o resultado aparece. E às vezes ninguém nem sabe de onde veio".

Da borracharia em Manaus à maior rede de pneus do Norte

A empresa nasceu como uma pequena loja de pneus na Rua Japurá, dentro de um posto de gasolina, fundada pelo avô e pelo bisavô de Helena. O crescimento foi modesto nas primeiras décadas. A primeira unidade fora do Amazonas abriu em 1994.

O rumo mudou de vez no fim dos anos 1990. O avô sofreu um AVC e precisou deixar a operação. O comando passou para o filho, Marcos Martins, pai de Helena, que assumiram uma rede com três lojas e aceleraram a expansão para além do Amazonas.

Antes de assumir o negócio, Marcos percorreu redes de pneus de outras regiões do país para entender como funcionavam operações interestaduais. Anos depois, repetiria a estratégia com a filha, incentivando Helena a estudar administração e marketing nos Estados Unidos antes de entrar na empresa.

"Ele já tinha esse conhecimento, e surgiu a oportunidade dele expandir para outras regiões", diz Helena.

Roraima, Rondônia e Acre vieram na sequência.

"Crises e recessões, a gente teve que tomar algumas decisões de fechar algumas lojas ao longo desses 50 anos de história", afirma.

Desde 2021, a Japurá está presente em todos os estados da Região Norte.

Hoje, a empresa opera como distribuidora e prestadora de serviços automotivos. A única linha própria são as câmaras de ar, produzidas por parceiros.

A aposta em importação mudou o perfil do negócio

Até poucos anos atrás, o varejo respondia por cerca de 80% do faturamento da empresa. Hoje representa 27%.

A mudança começou durante a pandemia. Com as fábricas nacionais paradas, a Japurá acelerou a importação de pneus e ampliou a atuação em segmentos como transporte pesado, agronegócio, mineração e máquinas off-road.

"Conhecemos várias grandes marcas do mercado e tivemos a oportunidade de trabalhar mais com essa linha off-road", diz Helena. "Entendemos que o mercado estava muito parado, que tinha grandes oportunidades".

O impacto foi significativo. Em 2020, cerca de 70% da receita vinha de pneus nacionais. Hoje, os importados representam 95% do faturamento.

A mudança também alterou o perfil dos clientes. Atualmente, empresas respondem por cerca de três quartos da receita da companhia, impulsionadas pelo crescimento do atacado e do atendimento a frotas.

A nova estratégia trouxe outro desafio: abastecer uma operação espalhada pela Amazônia. Um contêiner importado pode levar até 120 dias para chegar a Manaus.

Depois disso, começa outra jornada. Há municípios em que o acesso só é possível por barco, em viagens que podem durar até 30 dias. Se o estoque não estiver completo antes da seca, a janela de abastecimento se fecha por meses.

Foi justamente esse cenário que levou a empresa a repensar toda a operação.

Organizar antes de crescer

Quando Helena entrou na empresa, em 2022, o desafio não era vender mais pneus.

"Quando eu entrei na Japurá, já era uma grande empresa", diz. A marca era conhecida, os produtos tinham mercado e a operação havia crescido. O problema, segundo ela, era a falta de processos padronizados, dependência de pessoas específicas e uma estrutura que já não acompanhava o tamanho do negócio.

O primeiro ano foi dedicado quase exclusivamente a reorganizar a operação.

"Em empresas familiares, sempre querem crescer primeiro e organizar depois", afirma. "Aqui a gente fez o inverso, a gente organizou para poder crescer."

A reorganização ganhou força depois da seca histórica de 2023, quando a empresa precisou lidar com interrupções nas rotas de abastecimento. Em vez de contratar um software pronto, a Japurá decidiu desenvolver uma plataforma própria para integrar compras, crédito, cobrança, financeiro e logística.

Um dos módulos monitora acidentes, interdições, condições das estradas e o nível dos rios para orientar as entregas na região. A plataforma centraliza boa parte da operação da companhia e é utilizada pelos 400 colaboradores.

A tecnologia chegou também ao atendimento. A empresa desenvolveu agentes próprios de inteligência artificial para apoiar as equipes das 28 unidades e automatizar processos internos.

"Eu não acho que a IA veio para substituir humanos, eu acho que ela veio para tornar as pessoas mais produtivas", diz Helena. Segundo ela, a adoção das ferramentas não reduziu o quadro de funcionários, mas aumentou a produtividade da operação.

Apesar do crescimento, o principal gargalo da empresa continua sendo financeiro.

A operação exige compras com meses de antecedência, estoques elevados para atravessar o período da seca e prazos de pagamento aos clientes. Na prática, a companhia financia parte da própria cadeia logística.

A meta dos R$ 380 milhões

A Japurá pretende continuar crescendo sem sair do território que conhece. Entre as prioridades estão ampliar o uso de inteligência artificial, concluir novos módulos da plataforma de gestão, lançar um projeto de oficinas credenciadas e acelerar a digitalização das vendas.

A empresa é a primeira a vender no marketplace da Bemol, varejista amazonense, onde hoje ocupa a quinta colocação, e monta um site próprio para direcionar o cliente ao atendimento por WhatsApp.

"Existe um público novo que é extremamente engajado nas redes sociais. E essas crianças já cresceram e já têm carro", afirma Helena, sobre a relutância do setor em investir no digital.

A frente mais recente é a exportação. A empresa começou a atender clientes na Guiana a partir de Boa Vista, em Roraima, ainda em escala pequena. É a única operação da Japurá fora do Brasil e, mesmo assim, sem sair do Norte.

"Nós somos uma empresa da Amazônia. Esse aqui é o nosso lugar, aqui que a gente sabe fazer logística, é aqui que a gente tem a nossa história, as nossas raízes", diz Helena.

Nenhuma das frentes, isoladamente, entrega os R$ 380 milhões projetados para 2026. O número depende de a empresa repetir o que fez nos últimos quatro anos em um ambiente que ela não controla: o nível dos rios, o prazo dos contêineres e o caixa que financia a própria cadeia.

"A Amazônia é uma terra de muita oportunidade", diz Helena. "A gente pretende continuar explorando."

AutorIsabela Rovaroto
FonteExame
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