Aos 27 anos, ele abriu um delivery de macarrão na garagem do pai. Hoje fatura R$ 237 milhões
Ital'in House nasceu como delivery de massas com R$ 10.000 e chegou a 194 franquias em operação; rede agora acelera expansão nos Estados Unidos

Nestor Girardi cresceu dentro das cozinhas dos restaurantes da família, em Barretos, no interior de São Paulo. O pai abria um negócio, vendia e partia para o próximo. As tias também tinham casas de comida na cidade.
Os restaurantes vendiam e ajudaram a construir o patrimônio da família, mas dependiam demais de quem estava na cozinha. Faltavam padrões, processos e uma operação que pudesse ser replicada. O que Girardi tirou daquela infância foi a certeza de que nunca teria um restaurante.
Ele tentou evitar seguir o mesmo caminho da família, mas hoje lidera a Ital'in House. A rede de massas no delivery tem 218 unidades vendidas, das quais 194 estão em operação, em 18 estados. O faturamento chegou a R$ 237,6 milhões em 2025. Para 2026, a projeção é crescer entre 25% e 30%.
Quem é o empreendedor
Girardi estudou engenharia e, na faculdade, cozinhava para os amigos na república duas ou três vezes por semana. Os amigos diziam que ele estava no curso errado.
Depois de formado, montou uma empresa de software e recebeu um projeto de uma franqueadora. Sua função era mapear os processos da companhia e transformá-los em especificações para os programadores.
Foi quando percebeu que o problema que enxergava nos restaurantes da família poderia ter solução. "Agora dá para eu ter um restaurante", diz.
A ideia ficou na gaveta de 2016 a 2020. Quando a pandemia começou, Girardi voltou para Barretos. Encontrou o pai prestes a abrir um restaurante à la carte, com buffet, em março de 2020. Tentou convencê-lo a desistir do formato e propôs outra coisa: vender massas exclusivamente por delivery.
"Eu só tenho a ideia, eu não tenho um real no bolso", diz.
A aposta estava justamente na lacuna que ele acreditava existir. Apesar de a massa estar entre os pratos mais consumidos, Girardi não enxergava uma grande operação de delivery especializada na categoria.
Com R$ 10.000 emprestados pelo pai, começou a operação na garagem da casa dele. Após seis anos, a rede soma mais de 200 unidades vendidas.
Como a Ital'in House virou uma rede de franquias
Antes de vender a primeira franquia, Girardi passou um ano validando o produto. A prioridade era conseguir fazer com que uma massa preparada em Barretos tivesse o mesmo padrão quando produzida a centenas de quilômetros dali.
A equipe testava cada etapa até que o preparo pudesse ser repetido sem depender de treinamento longo ou de um cozinheiro experiente. A primeira loja abriu em julho de 2020. A primeira franquia veio exatamente um ano depois.
Para estruturar a expansão, Girardi chamou um amigo da faculdade, Felipe Fontes, para a sociedade. Com Fontes chegou também o primeiro investidor-anjo, que já fazia aportes em startups.
"A gente tem que fazer a startup do macarrão", diz Girardi, sobre a conversa que ajudou a definir o modelo de gestão da empresa.
Depois vieram outras duas rodadas de investimento, uma delas com participação de um fundo canadense. Agora, a Ital'in House estrutura uma quarta captação. A companhia não divulga os valores levantados.
A verticalização começou em 2023, com uma fábrica própria em Barretos. A unidade produz cerca de 20 toneladas de nhoque por mês para abastecer a rede.
Você é multifranqueado? Inscreva-se gratuitamente no Prêmio MultiAs demais massas são importadas da Itália, enquanto o molho de tomate segue dos distribuidores diretamente para as lojas. O preparo final é feito em cada unidade.
A logística fica nas mãos de três operadores terceirizados, no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais e em São Paulo. O custo de distribuição é também uma das razões pelas quais a rede ainda não opera na região Norte.
Por que a Ital'in House não tem dark kitchens
A Ital'in House nasceu para o delivery, canal que ainda responde por 80% a 85% do faturamento da rede. Mesmo assim, Girardi descartou um formato que poderia reduzir o investimento e acelerar a expansão: as dark kitchens, cozinhas dedicadas exclusivamente às entregas e sem atendimento ao público.
"Se a gente quer criar uma marca, ela precisa estar na rua", diz Girardi.
Por isso, todas as unidades têm fachada e atendimento de balcão. Mais da metade já conta também com pequenos salões, normalmente com quatro ou cinco mesas.
O delivery, porém, não significa dependência exclusiva dos grandes aplicativos. Mais da metade do faturamento vem de canais próprios, entre redes sociais, WhatsApp, cardápio digital e aplicativo. A empresa também vende pelo iFood e pelo 99Food.
Para atrair clientes aos canais diretos, a rede investe em tráfego pago e influenciadores. O ticket médio fica entre R$ 75 e R$ 80 por pedido. Em média, cada cliente compra um box e meio, vendido por cerca de R$ 50 a unidade.
Com São Paulo quase esgotado, rede busca novos formatos
O modelo que sustentou a expansão da Ital'in House começa a encontrar um limite no estado onde a rede nasceu. Segundo Girardi, as cidades paulistas com mais de 80.000 habitantes estão praticamente todas comercializadas. Restam menos de cinco praças disponíveis para o formato tradicional de rua.
Para continuar crescendo, a empresa começou a testar duas alternativas.
A primeira são os shopping centers. A rede abriu uma unidade no Shopping Ibirapuera, em São Paulo, em janeiro, e outra no Shopping ABC, em julho. A segunda registrou o recorde de vendas da marca em um primeiro mês de operação.
Nesse formato, não há delivery. Segundo Girardi, o tempo necessário para despachar os pedidos dentro dos centros comerciais pode comprometer a qualidade da massa. O modelo está em fase final de validação e já há franqueados interessados em abrir novas unidades.
A outra aposta é a Ital'in House Pocket, uma versão reduzida voltada a cidades com menos de 50.000 habitantes. Cinco unidades estão em operação. O formato prevê o próprio franqueado à frente da loja, acompanhado de apenas um funcionário.
Em algumas cidades, porém, a demanda superou as expectativas e fez a empresa abandonar o modelo compacto para abrir uma unidade convencional.
Ital'in House abre segunda loja nos Estados Unidos
Depois de avançar pelo Brasil, a Ital'in House começou a testar se o modelo também funciona fora do país.
A primeira unidade nos Estados Unidos abriu em janeiro, em Orlando, na Flórida. A segunda está prevista para abrir entre o fim de agosto e o início de setembro, em Kissimmee. Um parceiro comercial local também avalia a abertura de outras três lojas até dezembro.
Nos Estados Unidos, Girardi enfrenta um problema que já não encontra em boa parte das cidades brasileiras: ninguém conhece a marca. Cada nova unidade precisa construir sua base de clientes praticamente do zero.
"É como se eu estivesse vivendo 2020, 2021 de novo", diz.
