Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
06/07/2026
8 min

Aos 28, ele fez fortuna com o YouTube e abriu um banco. Agora, cria influencers de IA com R$ 19 mi

Aos 28, ele fez fortuna com o YouTube e abriu um banco. Agora, cria influencers de IA com R$ 19 mi

O carioca Victor Trindade tinha 15 anos quando entendeu, pela primeira vez, que audiência na internet podia virar negócio.

Em 2013, o canal no YouTube com gameplays de Minecraft que ele mantinha com o primo ainda era pequeno, cerca de 20 mil inscritos, mas a comunidade era fiel. Os dois lançaram um servidor próprio para jogar com os fãs, mas a demanda foi maior do que a estrutura suportava. O sistema caiu. Depois, passaram a cobrar por assinaturas VIP. Em pouco tempo, cada sócio adolescente tirava R$ 8 mil por mês.

“Ali foi onde finalmente deu o clique. A gente não tinha criado econômico, não tinha esse tato de que dava para ganhar dinheiro com a internet”, lembra Trindade, conhecido na internet como Eagle.

Treze anos depois, aos 28, ele aposta em um novo tipo de audiência. A FlyMedia, startup fundada por Trindade no fim do ano passado, cria influenciadores digitais feitos com inteligência artificial. Em nove meses, os personagens da empresa acumulam 1,2 bilhão de visualizações e 3,7 milhões de seguidores.

No final de 2025, a companhia recebeu um aporte de US$ 3,7 milhões (R$ 19 milhões na cotação atual do dólar) — em rodada liderada pela OneVC. Também participaram fundos como Alter Global, A16z Scout Fund, Norte, Hypersphere, Verve e FJ Labs, além de Fersen Lambranho, chairman da GP Investments. 

A tese é simples de explicar e difícil de executar: criar personagens que funcionem como influenciadores, mas sem depender de um rosto humano. Eles têm personalidade, rotina, universo narrativo, público-alvo e potencial de monetização. Para Trindade, a referência não está apenas no YouTube ou no TikTok. Está na Disney.

“Quando a Disney constrói uma Cinderela, constrói o Mickey Mouse, esses personagens são o talento criativo das pessoas que os construíram, mas independem do risco reputacional e motivacional de uma pessoa”, diz. “Tem um jogo de criar influenciadores, só que sem depender de um influenciador humano.”

Paralelamente, Trindade também cofundou o Canal Foco, projeto que rapidamente se tornou um dos fenômenos recentes do YouTube brasileiro. O canal ganhou notoriedade pelos debates da série "1 vs. 30", que colocam uma personalidade ou especialista frente a frente com 30 pessoas de opiniões divergentes para discutir temas como política, religião, empreendedorismo, saúde e comportamento.

Episódios como "1 Bilionário vs. 30 Trabalhadores", com Flávio Augusto, e "1 Patrão vs. 30 Demitidos", com Tallis Gomes, acumularam milhões de visualizações e transformaram o formato em uma das principais apostas da plataforma para conteúdos de debate.

Uma fábrica de personagens

Hoje, a FlyMedia tem sete influenciadores em operação, além de outros em fase de testes. Entre eles estão Zuka, ligada ao universo do futebol; Malu Sinistra, personagem de uma novela vertical; Gorila Cast, um podcast conduzido por gorilas; Plexus, um alien com humor mais ácido; Foka Fofoca, voltada a fofocas e conversas das redes; e Bob e Dave, aposta em conteúdo de maior duração, com ambição de chegar ao streaming.

O crescimento mais rápido veio de Zuka. O personagem chegou a 500 mil seguidores em 40 dias, sem mídia paga ou divulgação em canais proprietários. Já o Foka Fofoca ultrapassou 60 mil seguidores no Instagram em dois meses, após ser lançado para acompanhar conversas do Big Brother Brasil e do X, antigo Twitter.

O que diferencia a operação, segundo Trindade, é que a FlyMedia não se vê como produtora de vídeos sob demanda. A empresa está desenvolvendo uma plataforma interna, chamada Fly Studio, para organizar o processo de criação.

O fluxo começa no roteiro, passa por um storyboard e chega ao vídeo final. Depois, a performance do conteúdo alimenta uma espécie de “DNA” de cada personagem.

“Cada IP, cada personagem, tem o seu DNA exclusivo, porque nicho diferente e audiência diferente vão se comportar de formas diferentes”, diz. “Quando você chega na nossa plataforma, ela já tem o contexto todo. Ela já sabe o nome dos personagens, o universo e o tipo de humor.”

Na prática, cada influenciador é operado por um criador líder, com times pequenos, de uma a três pessoas. A IA reduz custo e tempo de produção, mas a empresa insiste que o centro do negócio não é a tecnologia em si, e sim a combinação de narrativa, distribuição e análise de dados.

Como ganhar dinheiro com influenciadores de IA

A FlyMedia já poderia ter seguido um caminho mais óbvio: vender personagens sob encomenda para marcas. Trindade diz ter recusado esse modelo. A explicação é que criar avatares para terceiros colocaria um teto no negócio.

“A visão de criar uma nova Disney não nasce dentro de uma marca”, afirma.

O modelo de receita imaginado por ele tem quatro frentes. A primeira é a monetização tradicional das plataformas, como AdSense e programas de remuneração por visualização. Segundo Trindade, essa receita já cobre o custo de produção de alguns canais.

A segunda é publicidade. A terceira é licenciamento. A quarta, considerada a de maior potencial, são produtos próprios.

A personagem Malu Sinistra é o primeiro caso de conversão apresentado pela empresa. Em uma ação com link de afiliado para uma peça de roupa, a personagem gerou mais de 26 mil cliques e mais de R$ 8 mil em vendas.

“Com IA, produto vai ficar cada vez mais fácil de construir. O grande diferencial vai ser quem tem distribuição", afirma Trindade.

A aposta da FlyMedia chega em um momento de expansão da creator economy e dos influenciadores virtuais. O Goldman Sachs projeta que a economia dos criadores pode chegar a US$ 480 bilhões em 2027, ante cerca de US$ 250 bilhões em 2023.

Já o mercado global de influenciadores virtuais deve crescer de US$ 11,22 bilhões em 2025 para US$ 15,9 bilhões em 2026, segundo a The Business Research Company.

Lá fora, o conceito já tem exemplos conhecidos. Lil Miquela, uma das personagens virtuais mais famosas do mundo, já estrelou campanhas com marcas como Calvin Klein, Prada e Pacsun. A espanhola Aitana López, criada pela agência The Clueless, ficou conhecida por gerar receita com publicidade e assinaturas mesmo sem existir fisicamente.

No Brasil, a Lu do Magalu é um caso anterior à onda atual de IA generativa, mas mostra como personagens digitais podem virar ativos de marca de longo prazo.

A diferença, no caso da FlyMedia, é que Trindade quer criar personagens nativos de redes sociais, com linguagem de TikTok, Instagram e YouTube, e depois levá-los para publicidade, produtos, licenciamento e streaming.

O que mais Trindade fez antes da Fly Media

A trajetória de Trindade ajuda a explicar por que a FlyMedia nasceu com ambição de plataforma, e não apenas de estúdio criativo. Depois das gameplays de Minecraft, o canal Neagle migrou para vlogs com o primo Gabriel, conhecido na internet como Neox.

Em 2016, quando moravam nos Estados Unidos para estudar na Full Sail University, na Flórida, universidade especializada na indústria do entretenimento, o canal saltou de 500 mil para 1,2 milhão de inscritos em um mês. Trindade largou a faculdade no terceiro mês.

Vieram quatro anos de vídeos diários, casas compartilhadas com outros criadores e uma rotina que misturava entretenimento e empreendedorismo.

Em paralelo, ele e os sócios criaram negócios para monetizar a própria audiência: loja geek, servidor de Minecraft, turnês de teatro, livro e uma agência para ajudar outros influenciadores a vender produtos e estruturar carreiras.

A maior aposta fora do conteúdo foi a NG.CASH, fintech voltada à geração Z. A ideia surgiu da percepção de que adolescentes tinham dificuldade para acessar produtos financeiros pensados para eles.

A fintech nasceu como “Neagle Bank”, ligado ao canal, e teve 60 mil downloads em dois dias. Depois, virou NG.CASH, captou investimento e ganhou vida própria. Hoje, Trindade na empresa como conselheiro, sem função executiva.

“Depois de dez anos tentando achar um produto maior que a nossa marca, deu o clique final. Isso aqui é uma dor geracional, não é sobre a nossa audiência do canal”, diz.

Quais os próximos passos da Fly Media

O próximo passo da nova empresa de Trindade agora é ampliar a operação para fora do Brasil. Trindade morou nove anos nos Estados Unidos e quer voltar ao país. A FlyMedia já nasce com a ambição de criar personagens multilíngues, capazes de falar inglês e disputar audiência global.

“A próxima geração de mídia será formada por influenciadores e personagens que já nascem digitais, multilíngues e orientados por tecnologia”, disse ele em material de divulgação da empresa.

O desafio é transformar crescimento em negócio recorrente. Por enquanto, a FlyMedia tem audiência, investimento e cases iniciais de conversão. Falta provar que seus personagens podem sustentar comunidades por anos — e não apenas surfar a curiosidade em torno da inteligência artificial.

Trindade sabe que a pergunta não é se a tecnologia consegue produzir vídeos. Isso já está dado. A pergunta é se personagens sintéticos conseguem ocupar o mesmo espaço emocional, comercial e cultural que influenciadores humanos ocupam hoje.

Aos 15 anos, ele descobriu que 20 mil inscritos podiam lotar um servidor de Minecraft. Aos 28, quer provar que personagens que não existem podem vender produtos, criar fandoms e virar propriedade intelectual global.

“Não é apenas sobre crescer rápido”, diz. “É sobre criar ativos que geram conexão real e contínua com o público.”

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
Distribuído por