Aos 45 anos, Giraffas fatura R$ 1 bilhão e busca aumentar o lucro do franqueado

Depois de atravessar hiperinflação, planos econômicos e a pandemia, o Giraffas chega aos 45 anos diante de um desafio diferente. Com faturamento recorde de 1,07 bilhão de reais em 2025 e mais de 400 restaurantes pelo país, a rede fundada em Brasília busca aumentar o lucro dos franqueados.
A companhia, criada por Carlos Guerra em 1981, prevê encerrar 2026 com faturamento de 1,12 bilhão de reais e cerca de 415 unidades. Mas o foco da empresa já não é apenas abrir restaurantes. Em um cenário de custos elevados, consumidor endividado e mudanças nos hábitos de consumo, a prioridade passou a ser extrair mais eficiência das operações.
Essa mudança acontece depois de uma desaceleração no ritmo de crescimento. Após avançar em dois dígitos entre 2022 e 2024, o Giraffas cresceu 5% em 2025 e espera um desempenho semelhante neste ano. Nas mesmas lojas, o avanço deve ficar perto de 2%.
"Nos últimos anos entramos em um ambiente mais desafiador. Os custos aumentaram bastante e o consumidor está mudando. Precisamos aumentar a rentabilidade do franqueado", afirma Guerra.
Para isso, a companhia vai lançar nafeira de franquias da ABF o Projeto de Lucratividade Máxima (PLM), um conjunto de iniciativas que busca elevar em cerca de 6% a rentabilidade das unidades. O ganho virá da combinação entre tecnologia, redução de desperdícios, gestão de estoques e maior produtividade nas lojas.
Como o Giraffas quer aumentar o lucro das lojas
Segundo Guerra, a ideia é atacar dezenas de pequenas ineficiências da operação. O projeto inclui melhorias no controle de estoque, redução do desperdício, gestão dos turnos de trabalho, economia de energia e água e adoção de novos equipamentos.
O programa surgiu depois que a inflação dos últimos anos reduziu a rentabilidade das operações. A ideia é devolver parte desse ganho por meio de produtividade e redução de desperdícios, em vez de simplesmente repassar custos ao consumidor.
A empresa também trabalha na incorporação de ferramentas de inteligência artificial para monitorar a produção nas cozinhas e identificar falhas operacionais.
"Pode parecer pouco, mas 6% é muito. Num ambiente de custo alto, competitividade alta e consumidor endividado, buscar eficiência é a forma de continuar competitivo", diz o CEO.
Os primeiros pilotos com IA devem começar ainda este ano, com expansão mais ampla prevista para 2027.
R$ 8,5 milhões em tecnologia
O Giraffas prevê investir 8,5 milhões de reais em tecnologia em 2026. Parte relevante do montante será destinada à expansão dos totens de autoatendimento.
Hoje, 60% das unidades já operam com o sistema. A meta é universalizar a solução até outubro. Nas lojas que já contam com os equipamentos, eles respondem por mais da metade das vendas.
A companhia também ampliou os investimentos em CRM, programas de cashback e ferramentas para medir a satisfação dos clientes por meio do NPS, indicador que permite acompanhar o desempenho de cada restaurante e de cada região.
Além de melhorar a experiência do consumidor, a digitalização também responde a um problema crescente do setor: a dificuldade de contratar.
"A própria captação de colaboradores não está fácil", afirma Guerra.
A empresa já testa modelos alternativos de jornada, como escalas 12x36 e 6x2, em uma preparação para possíveis mudanças no atual modelo 6x1.
Bets e canetas emagrecedoras entram no radar
Para o fundador do Giraffas, a desaceleração do crescimento do food service não tem uma única explicação.
Além da inflação e do endividamento das famílias, ele vê a expansão das apostas esportivas como uma nova concorrência pelo orçamento dos consumidores.
"O varejo desacelerou e existe uma concorrência forte das bets", diz.
Outro movimento observado pela companhia é a mudança nos hábitos alimentares impulsionada pelos medicamentos para emagrecimento e pela busca por refeições mais ricas em proteína.
"Isso ainda não é o principal motivo da desaceleração, mas vai se tornar mais importante nos próximos cinco anos", afirma.
Segundo o executivo, a rede já prepara mudanças no cardápio para atender consumidores que buscam porções menores e opções mais alinhadas às novas tendências de alimentação.
A lanchonete que se transformou numa empresa de R$ 1 bilhão
Quando comprou uma pequena lanchonete em Brasília, em fevereiro de 1981, Carlos Guerra vendia apenas sanduíches e refrigerantes. A inspiração para o negócio veio alguns anos antes, quando passou seis meses nos Estados Unidos, aos 15 anos, e conheceu uma indústria de fast food e franquias ainda inexistente no Brasil.
Nos primeiros anos, o desafio era fazer a operação sobreviver em meio aos planos econômicos e à hiperinflação. Ao mesmo tempo, Guerra buscava uma forma de aumentar as vendas fora do jantar. Na época, cerca de 70% a 80% do faturamento vinha depois das 17 horas.
A solução foi construída aos poucos. Ao longo dos anos 1980, o Giraffas testou buffet, prato do dia e diferentes combinações de carnes e acompanhamentos até consolidar uma linha de refeições completas. A aposta ganhou força na década seguinte e mudou o rumo da companhia.
Hoje, os pratos representam 75% das vendas da rede, enquanto os sanduíches respondem por 25%."Quando começamos, ninguém vendia pratos em praça de alimentação. Nós popularizamos o arroz e feijão nesses espaços", afirma Guerra.
A decisão permitiu distribuir melhor o movimento ao longo do dia e transformou o Giraffas em um dos principais players de refeições do país. A rede consome entre 2.500 e 3.000 toneladas de arroz e feijão por ano.
"É muito mais trabalhoso. Nossa operação é complexa. Temos sanduíches, pratos e um cardápio muito variado", afirma.
Quarenta e cinco anos depois, a companhia continua nas mãos do fundador e se aproxima de 415 restaurantes, mas o desafio mudou. Se nos anos 1980 era preciso atrair clientes para o almoço, hoje o objetivo é aumentar a rentabilidade das lojas em um ambiente de custos altos e crescimento mais lento.
