Aos 50 anos, C&A abre loja de nova marca para disputar mercado de R$ 4 bilhões

Prestes a completar 50 anos no Brasil, a C&A decidiu criar uma marca que não leva o seu nome. A varejista acaba de lançar a ACE, primeira marca independente de sua operação brasileira.
A novidade nasce com lojas próprias, equipe dedicada, identidade visual separada e e-commerce exclusivo para disputar espaço no athleisure, categoria que mistura roupas esportivas e casuais e acompanha um consumidor que já não separa academia, trabalho e lazer.
O movimento representa uma mudança na estratégia da companhia, que sempre concentrou sua expansão na própria bandeira.
"Estamos conseguindo construir uma startup dentro da própria nave-mãe C&A", diz Paulo Correa, CEO da companhia, em entrevista à EXAME.
Desde que desembarcou no Brasil, em 1976, a C&A construiu uma das maiores operações de moda do país apostando em uma única marca. Ao longo de quase cinco décadas, ampliou categorias, desenvolveu coleções próprias, acelerou a digitalização e reformulou lojas, mas sempre sob a mesma bandeira.
A ACE é a primeira marca da companhia a ganhar uma operação independente e lojas próprias. A ideia, segundo Correa, nunca foi criar apenas uma nova linha de produtos dentro da C&A, mas desenvolver um negócio do zero.
"A dinâmica começou pelo fundamento mais importante, que é o consumidor. Fizemos pesquisas, estudamos concorrentes no Brasil e no exterior e entendemos que existia espaço para uma proposta diferente", diz o CEO.
O mercado que levou a C&A a criar outra marca
A decisão começou com uma mudança observada pela companhia depois da pandemia.
Os consumidores passaram a procurar roupas capazes de acompanhar diferentes momentos do dia. A mesma peça deixou de ser usada apenas para a prática esportiva e passou a fazer parte da rotina de trabalho, viagens e encontros sociais.
Foi essa mudança que levou a companhia a investir no mercado de athleisure premium.
Segundo estimativas apresentadas pela C&A, esse segmento movimenta cerca de R$ 4 bilhões por ano no Brasil e deve crescer em ritmo de dois dígitos nos próximos anos. Já o mercado esportivo como um todo representa aproximadamente R$ 30 bilhões em vendas no varejo brasileiro.
A proposta da ACE é ocupar justamente esse espaço, com peças desenvolvidas para transitar entre diferentes ocasiões de uso. A primeira coleção reúne roupas femininas e masculinas produzidas com tecidos tecnológicos e modelagens pensadas para acompanhar diferentes momentos da rotina, da academia a compromissos sociais.
"Hoje a vida está muito mais fluida. A pessoa pode ir à academia, encontrar as amigas, trabalhar. Queremos construir uma solução de moda para essa nova realidade", diz Correa.
Uma startup dentro da C&A
Apesar de fazer parte do grupo, a ACE opera de forma independente.
A marca ganhou equipe própria, identidade exclusiva, comunicação separada e lojas dedicadas. Ao mesmo tempo, aproveita parte da estrutura construída pela C&A ao longo das últimas décadas, como desenvolvimento de produto, relacionamento com fornecedores e gestão de varejo.
"Hoje estamos conseguindo construir uma startup dentro da própria nave-mãe C&A. Isso cria uma energia muito interessante para quem está construindo essa marca e também para quem continua trabalhando na operação principal", diz o CEO.
A escolha por uma marca independente também está ligada ao posicionamento da operação. Na avaliação da companhia, o consumidor de athleisure premium busca uma experiência diferente daquela encontrada no varejo de moda tradicional, tanto na curadoria dos produtos quanto no ambiente das lojas.
A primeira unidade, inaugurada no Shopping Ibirapuera, tem 130 metros quadrados e aposta em materiais naturais, iluminação mais suave e ambientes abertos para reforçar a proposta de bem-estar da marca.
Enquanto a C&A atua no varejo de moda de massa, a ACE nasce voltada ao segmento premium, apostando em tecidos tecnológicos, design minimalista e uma experiência de compra inspirada no universo de wellness.
Nos últimos trimestres, a companhia voltou a crescer em vendas, margem e lucro, movimento que Correa atribui ao aumento da produtividade das lojas, à integração entre canais e à melhora da percepção da marca pelos consumidores.
"Os resultados financeiros são consequência de uma percepção melhor da consumidora em relação à C&A. O NPS continua crescendo ano após ano, as lojas ficaram mais produtivas e seguimos evoluindo trimestre após trimestre", diz o CEO.
A escolha do Shopping Ibirapuera para inaugurar a primeira ACE também foi simbólica. A companhia decidiu iniciar a nova operação exatamente no mesmo endereço onde começou sua trajetória no Brasil há quase cinco décadas.
Novas lojas da ACE a caminho
Novas lojas da ACE devem ser inauguradas neste ano. A companhia não divulga quantas lojas pretende abrir nos próximos anos, mas já trata a ACE como uma nova avenida de crescimento.
"Essa é a primeira de muitas lojas da ACE. Já temos mais três lojas acertadas e, ainda neste segundo semestre, vamos inaugurar essas unidades", diz Correa.
A experiência também funciona como um teste para a própria C&A. Em vez de ampliar sua linha esportiva dentro da bandeira principal, a varejista decidiu construir um negócio independente, com posicionamento, operação e identidade próprios.
Questionado se a estratégia poderá abrir espaço para outras marcas dentro do grupo, Correa prefere não antecipar novos movimentos. "Neste momento, o foco é esse", diz o CEO.
Prestes a completar 50 anos de operação no Brasil, a C&A testa pela primeira vez um modelo de crescimento diferente. Em vez de expandir apenas a própria bandeira, a companhia aposta na criação de uma nova marca, apoiada na estrutura construída ao longo de cinco décadas, para disputar um mercado diferente e conversar com outro perfil de consumidor.
