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NegóciosMPOL
23/07/2026
5 min

Aos 53 anos e com R$ 1 bi em receita, CNA aposta em cursos de IA e influência

Aos 53 anos e com R$ 1 bi em receita, CNA aposta em cursos de IA e influência

Há 53 anos, o CNA vendia uma coisa só: aulas de inglês e espanhol. Hoje, isso mudou. A instituição passou a oferecer também programação, robótica, IA e influência. A escola que ensinou gerações inteiras a falar outro idioma percebeu que aprender novas línguas, por si só, não sustenta mais o negócio.

Essa mudança de rumo se apoia numa escala que poucas escolas de idioma têm. São mais de 700 franquias no país, 200 mil alunos por semestre e um faturamento perto de R$ 1 bilhão por ano (incluindo o que passa pelo caixa da rede, o que alunos pagam às franquias e o que as franquias repassam ao CNA). 

É esse motor, construído em mais de cinco décadas, que a empresa está usando para financiar a virada de apenas uma escola de idiomas para um ecossistema completo de educação complementar – como o próprio CNA gosta de definir.

“A gente nem gosta mais de falar em venda de cursos. Estamos indo para um lugar de venda de competência”, afirma Eduardo Guedes, VP de marketing do CNA. Na prática, isso quer dizer vender o ensino de idiomas, mas também a coragem de falar em público, a lógica de programar e o domínio de IA.

Eduardo Guedes, VP de Marketing, Vendas, CX e Tecnologia do CNA

Três negócios dentro de um só

A reorganização se apoia em três frentes. O ensino de idiomas, parte da origem da marca, continua no portfólio. Aulas de inglês e espanhol, presenciais ou online, ainda sustentam o negócio. Mas há outras frentes. Reunida sob a marca Ctrl+Play, o CNA também ensina programação e robótica a crianças a partir dos 12 anos, usando linguagens como Python, e oferece a adultos os novos cursos de IA e criação de conteúdo digital. Uma outra frente consiste em vender a metodologia CNA para escolas de bairro sem tradição de ensino bilíngue. Aqui, a venda é para outras empresas e não para o aluno final.

A ideia para estruturar o negócio dessa maneira nasceu de uma lacuna que a empresa enxergou. O público de maior renda, diz Nicadan Galvão, diretor de marketing do CNA, migrou para escolas internacionais e bilíngues. Em vez de brigar por esse território, a rede passou a vender sua metodologia para escolas que não nasceram bilíngues, em bairros e cidades menos concorridos.

Multiproduto, hoje, é receita de verdade. Cursos além do inglês e do espanhol respondem por 20% do faturamento da rede, diz Guedes. No primeiro trimestre de 2026, o crescimento passou de 15%, um número que a empresa credita menos ao aquecimento do setor e mais à própria mudança de rota.

O que mudou nos últimos anos

Por trás dos números, há uma mudança de discurso sobre o próprio produto que fez o CNA existir. “A gente fala que inglês deixou de ser diferencial. Na verdade, se você não fala inglês, você é o diferente”, defende Guedes. O que antes abria portas em multinacionais virou piso mínimo, e um negócio construído sobre um piso mínimo precisa de outras paredes para ficar de pé.

Há também uma pressão mais simples de entender: preço. Guedes e Galvão reconhecem que a educação não entra na lista de gastos essenciais das famílias brasileiras, o que empurra o valor do curso de idioma para baixo toda vez que o orçamento aperta. A pandemia funcionou como divisor de águas: mostrou que dava para aprender um idioma fora da sala de aula tradicional e colocou o CNA em um mercado digital que antes nem existia para a marca.

Nicadan Galvão está há 27 anos no CNA e hoje é diretor de marketing

Diante da concorrência de aplicativos de tradução e ensino, o CNA e a consultoria Box1824 ouviram cerca de mil pessoas (entre pais, adolescentes e jovens adultos) para entender como diferentes gerações aprendem idioma.

O levantamento expõe que, atualmente, o primeiro contato com o idioma costuma ser digital: 48% dos adolescentes e 42% dos jovens adultos começam por aplicativos e plataformas online antes de procurar uma escola. Mesmo assim, 83% concordam que, mesmo com ferramentas de inteligência artificial, professor em sala de aula e contato com outros estudantes continuam fundamentais para aprender outro idioma. 

O fator que mais explica esse aprendizado, segundo Galvão, é a desinibição, algo que nenhuma tela sozinha consegue entregar. “Por mais que você treine com uma máquina, você precisa do humano. É na hora que você fala que vai ter o sotaque, o nervosismo, o olho no olho”, afirma.

IA como apoio

É por isso que, dentro do CNA, a inteligência artificial fica no banco de apoio e não no lugar do professor. A rede utiliza IA para produzir peças publicitárias e analisar campanhas e está lançando um tutor que funciona como professor de bolso, reservado para as tarefas mais mecânicas, como fixar vocabulário e gramática. Mas Guedes trata com cautela o entusiasmo do mercado com IA.

“É uma varinha mágica. Mas dar uma varinha mágica na mão de qualquer um é perigoso”, diz. 

Para ele, o ganho de eficiência da IA ainda não aparece de forma clara no resultado financeiro, e o risco de a tecnologia virar apenas distração é real.

A marca que virou lifestyle

Mas essa cautela não significa parar de inovar. O CNA criou uma sala ambientada com personagens da Disney e construiu o maior mapa de uma marca brasileira dentro do Fortnite, um dos jogos mais populares do mundo: o Game Exchange, que simula um intercâmbio para quem não pode viajar. 

Sala de aula do CNA ambientada com personagens da Disney, parte da aposta em imersão (CNA/Divulgação)

A lógica, segundo os executivos, é ensinar o idioma pelo caminho que cada geração já escolheu para aprender qualquer outra coisa da vida.

Depois de mais de cinco décadas vendendo aulas de inglês, o CNA aposta que seu próximo capítulo não é apenas ensinar um idioma, mas transformá-lo na porta de entrada para um repertório amplo de competências, em um mercado de trabalho que muda mais rápido do que qualquer sala de aula.

AutorGuilherme Santiago
FonteExame
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