Aos 64 anos, ele adiou a aposentadoria e hoje faz R$ 160 milhões com academias premium e hambúrguer
Empresa reúne indústria frigorífica, açougue, restaurante, academias próprias e unidades da Bluefit. Nova rede criada por Sérgio Arnault recebeu investimento de R$ 30 milhões para abertura de duas unidades

Ao chegar na casa dos 60 anos, o empresário Sérgio Arnaut planejava diminuir o ritmo. Depois de mais de quatro décadas no setor de academias, o empresário havia atravessado a pandemia, vendido parte de suas unidades da Bluefit e ampliado os investimentos em uma indústria de hambúrgueres. Ao completar 64 anos, considerou que seria hora de trabalhar menos.
O plano durou pouco. Incentivado por um sócio, decidiu reunir em uma marca própria o conhecimento acumulado desde 1984, quando abriu sua primeira academia com equipamentos usados e reformados por ele mesmo. O resultado foi a Nitrogym, rede que recebeu cerca de R$ 30 milhões em suas duas primeiras unidades e deve faturar aproximadamente R$ 20 milhões em 2026.
“Meu sócio falou que eu tinha feito tudo para todo mundo, mas ainda não havia criado nada com a minha cara”, diz Arnaut. “Eu aceitei com uma condição: o cheque tinha de vir em branco, porque eu queria fazer bonito.”
Somados a algumas academias da rede Bluefit que permanecem em seu portfólio e ao negócio de carnes, os empreendimentos de Arnaut devem alcançar uma receita de cerca de R$ 160 milhões neste ano. A frente de alimentos reúne uma indústria frigorífica, a loja Beef Boutique e o restaurante Bertaglia.
Como Arnault iniciou sua trajetória empreendedora
Formado em administração de empresas, Arnaut trabalhou em bancos e como operador audiovisual antes de empreender. Nos períodos em que estava desempregado, ajudava um tio que mantinha uma academia na região do Ibirapuera, em São Paulo.
A oportunidade de abrir o próprio negócio surgiu depois de sua demissão do Banco Safra. Com a indenização recebida e o dinheiro da venda de uma motocicleta, comprou do tio equipamentos antigos, reformou as máquinas e, em 1984, inaugurou a academia Dynamic Center, no bairro do Jaguaré. O espaço tinha 120 metros quadrados.
O negócio cresceu, ganhou piscinas e uma sala de ginástica, mas enfrentava uma limitação: a falta de estacionamento. A solução encontrada por Arnaut foi levar a academia para o Shopping Continental, vizinho ao empreendimento.
Na época, academias ainda não eram ocupantes comuns de centros comerciais. O empresário passou entre seis meses e um ano tentando convencer o proprietário do shopping a aceitar a operação. Em troca, conseguiu estacionamento gratuito para os alunos, um diferencial importante naquele momento.
“Eu estava olhando o funcionamento do shopping, não apenas a academia”, afirma. “Havia estacionamento, segurança, fluxo de pessoas e a garantia de que aquele espaço estaria aberto.”
Batizada de Arena Esportiva, a nova academia começou com 800 metros quadrados e posteriormente passou de 2 mil metros quadrados. Foi nesse período que Arnaut conheceu Edgard Corona, fundador da Bio Ritmo e da Smart Fit.
À época, Corona tinha três academias e aceitou comprar metade da Arena com a condição de manter Arnaut como sócio. A unidade foi transformada na quarta operação da Bio Ritmo. Arnaut afirma que passou a participar da negociação de contratos, das obras e do desenvolvimento das novas unidades da rede. A sociedade durou de 1999 a 2017 e atravessou também a criação e o crescimento da Smart Fit.
Após vender sua participação, ele tentou investir no varejo de moda, com a compra de três lojas da Hering. A experiência foi breve.
“Foi a pior coisa que fiz na minha vida. Moda exige um conhecimento específico e eu não me adaptei”, diz.
Arnaut retornou ao fitness e entrou na Bluefit. Chegou a controlar nove unidades. Posteriormente, vendeu seis operações para a própria companhia e outros sócios, mas ainda mantém academias da rede.
Disciplina fora e dentro dos negócios
Aos 64 anos, Arnaut treina todos os dias e compartilha parte da rotina nas redes sociais. A relação com os exercícios, porém, nem sempre foi constante.
Durante os anos de expansão da Bio Ritmo e da Smart Fit, o empresário deixou os próprios cuidados em segundo plano. Passava longos períodos em obras, alimentava-se mal e, em algumas ocasiões, dormia nos locais em construção.
A retomada dos treinos ocorreu após sua saída da sociedade. Na casa dos 50 anos, passou a acompanhar alimentação, exercícios e saúde com nutricionista, médico e treinador. Aos 60, participou de uma competição de fisiculturismo e conquistou um segundo e um terceiro lugares em categorias com concorrentes mais jovens.
A experiência também se tornou parte de sua comunicação empresarial. Para Arnaut, a busca por força e longevidade ajuda a aproximar a Nitrogym de pessoas que começam a treinar depois dos 40, 50 ou 60 anos.
“Quando você treina, fica mais determinado. Essa determinação vai para os negócios. A mesma intensidade que coloco no treino, na dieta, no sono e na alimentação eu levo para as empresas.”
A aposentadoria, por ora, voltou a ficar distante.
“Tem gente que chega ao domingo pensando que terá de trabalhar na segunda. Eu penso o contrário: amanhã vou trabalhar. Eu gosto disso.”
O que Arnault está fazendo de diferente em sua nova rede
A Nitrogym nasceu com uma proposta diferente das redes de "baixo custo" queganharam escala pelo país. Em vez de oferecer uma grande variedade de modalidades, a marca concentra a operação somente em musculação e exercícios cardiovasculares.
A primeira unidade foi instalada na Granja Viana, na região metropolitana de São Paulo. O imóvel tem 6 mil metros quadrados, dos quais 3 mil são destinados à academia. A operação funciona 24 horas por dia, sete dias por semana.
Foram investidos R$ 15 milhões no endereço: desse total, foram R$ 8 milhões em equipamentos e R$ 7 milhões em obras, incluindo a instalação de elevadores e a adaptação do imóvel. A segunda unidade, inaugurada no Shopping Tamboré, recebeu outros R$ 15 milhões — cerca de R$ 9 milhões somente em máquinas.
Cada academia possui quase 300 posições de equipamentos. Segundo Arnaut, uma unidade convencional costuma ter entre 80 e 100 aparelhos na área de musculação. A maior disponibilidade busca atacar uma das principais queixas dos frequentadores: as filas nos horários de pico.
“Eu tenho um limite de alunos. Quando atingir esse número, vou encerrar as matrículas e criar uma lista de espera”, diz. “A ideia é garantir que quem está dentro não precise disputar equipamento.”
Os planos custam R$ 389 por mês no contrato anual, R$ 459 no semestral e R$ 559 na modalidade mensal. O dia de uso sai por R$ 90. Com isso, Arnaut busca ocupar um espaço intermediário entre as academias low cost e as marcas premium, cujas mensalidades, segundo ele, podem alcançar R$ 700 ou R$ 800.
“Existe uma multidão nas academias mais baratas. Não preciso conquistar todo esse público. Se uma pequena parcela buscar uma estrutura melhor e sem filas, já existe um mercado muito grande.”
Como a Nitrogym quer crescer
A estratégia inicial para expandir a Nitrogym não passa pela criação de uma franquiatradicional. Arnaut prefere entrar como sócio nas novas operações, participando do investimento e preservando maior controle sobre o padrão da marca.
Segundo ele, interessados já o procuraram com a proposta de montar até 50 academias. O empresário tenta convencê-los a reduzir o número de unidades e aumentar o investimento em cada endereço.
“É melhor fazer 20 academias boas do que 50 iguais a tudo o que já existe”, afirma. “Entrar no segmento apenas para ser mais um é uma maneira de perder dinheiro.”
Arnaut aponta Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília e Salvador entre os mercados que considera mais promissores para a expansão. O modelo também tem despertado o interesse de administradoras de shopping centers.
Em paralelo, uma indústria de hambúrgueres
A diversificação para o setor de alimentos ganhou força durante a pandemia. Com as academias fechadas, Arnaut usou parte de suas reservas para manter as operações e evitar encerramentos. A recuperação, afirma, levou entre dois e três anos.
Nesse período, surgiu a oportunidade de entrar como sócio em uma indústria de hambúrgueres. Há quatro anos, quando assumiu participação no negócio, a empresa faturava R$ 2 milhões por mês. Hoje, a receita mensal está em torno de R$ 9 milhões.
A fábrica, localizada em Itapecerica da Serra, produz 120 mil hambúrgueres por dia e abastece mais de mil hamburguerias no estado de São Paulo. A expectativa é elevar a capacidade para 200 mil unidades diárias no próximo ano.
A matéria-prima é adquirida de frigoríficos, entre eles a JBS. A companhia processa os cortes e desenvolve hambúrgueres para clientes do setor de alimentação e possui cerca de 120 funcionários.
“Quando entramos, o negócio já existia, mas ainda tinha uma escala muito menor”, afirma Arnaut. “Nós organizamos a operação, ampliamos a produção e começamos a atender algumas das maiores hamburguerias de São Paulo.”
A indústria frigorífica deve superar R$ 100 milhões em receita neste ano. Considerados também a Beef Boutique, loja de carnes localizada na Vila São Francisco, e o Bertaglia, restaurante em Osasco, a frente de alimentos deve faturar entre R$ 120 milhões e R$ 130 milhões em 2026.
O próximo passo é levar os produtos para outros estados. A empresa estuda a criação de centros de distribuição ou de novas unidades produtivas em regiões como Rio de Janeiro e Centro-Oeste. Como trabalha com alimentos perecíveis, porém, a expansão depende de uma estrutura refrigerada e de um desenho logístico mais complexo.
“Hoje ainda estamos concentrados em São Paulo. Para atender o país inteiro, o negócio pode multiplicar por dez, mas não basta vender. É preciso garantir que o produto chegue com a mesma qualidade”, diz.
