Aos 66 anos, ele lidera a maior 'academia do cérebro' do Brasil e mira R$ 200 milhões

Antes de fundar a Supera, Antônio Carlos Guarini Perpétuo já havia empreendido em setores tão distintos quanto uma fábrica de foguetes antigranizo e uma rede varejista. Ainda estudante de engenharia aeronáutica no ITA, chegou a montar um carrinho de batatas fritas na porta de outra universidade. Nenhum desses negócios, porém, nasceu de uma motivação tão pessoal quanto a Supera.
Vinícius, o filho caçula, tinha 9 anos quando começou a enfrentar dificuldades de aprendizagem. Depois de tentar reforço escolar, terapias e uma rotina de estudos mais rígida, Perpétuo encontrou uma alternativa no soroban, o tradicional ábaco japonês. O que começou como a busca por uma solução dentro de casa se transformou no maior negócio de sua carreira.
Duas décadas depois, a Supera tem 250 unidades em todos os estados brasileiros, 28 mil alunos e faturou R$ 187 milhões em 2025. Para 2026, a projeção é crescer cerca de 17% e ultrapassar os R$ 200 milhões.
Ao longo da trajetória, o perfil do público mudou completamente. Hoje, 85% dos alunos têm mais de 50 anos — e quase 80% já passaram dos 60.
"A gente praticamente inaugurou um segmento no Brasil", afirma Perpétuo.
Como surgiu a maior rede de 'academias do cérebro' do Brasil
Foi pesquisando maneiras de ajudar o filho que Perpétuo conheceu o soroban, instrumento criado há mais de dois mil anos e tradicionalmente utilizado em países como Japão e China. No Brasil, a prática estava concentrada na comunidade japonesa — e os relatos de crianças que haviam superado dificuldades escolares o convenceram de que havia ali uma oportunidade.
O engenheiro tratou a ideia como qualquer outro empreendimento. Fez uma pesquisa de mercado, elaborou um plano de negócios e, em 2006, abriu a primeira escola em São José dos Campos (SP), onde a empresa mantém sua sede.
É multifranqueado? Inscreva-se no Prêmio Multi, iniciativa da EXAME que reconhece os principais operadores de franquias do país. As inscrições são gratuitas.O risco era apostar em uma ferramenta analógica em plena aceleração digital. "Poderia existir uma resistência muito grande da sociedade em dar esse passo para trás", afirma.
Em meio à preocupação com o excesso de telas, o ábaco deixou de parecer ultrapassado para se tornar um diferencial, favorecendo a proposta da Supera.
Na prática, o soroban é uma moldura com hastes e contas deslizantes que representam as casas decimais. Diferentemente da calculadora, ele não faz as contas pelo aluno: soma, subtração, multiplicação e até raiz quadrada exigem cálculo mental do início ao fim.
Em uma aula típica, o aluno trabalha com o ábaco em uma mão e o lápis na outra — em exercícios como o ditado, ouve os números, faz a conta nas hastes e registra resultados e acertos na apostila, combinando escuta, coordenação motora e memória.

Hoje, o soroban é uma das seis ferramentas do método, ao lado de livros de exercícios cognitivos, jogos de tabuleiro, dinâmicas em grupo, neuróbicas e uma plataforma digital. As aulas são semanais, têm duas horas de duração e fazem parte de um ciclo estimado de 18 meses. As mensalidades variam entre R$ 400 e R$ 450.
Por que os idosos se tornaram o principal público da Supera
Nos primeiros anos, a Supera cresceu entre famílias interessadas em melhorar o desempenho escolar dos filhos. Hoje, os brasileiros acima de 60 anos dominam a operação, uma mudança que acompanha a transformação demográfica do país.
Segundo a PNAD Contínua, do IBGE, os brasileiros com 60 anos ou mais já representam 16,6% da população, cerca de 35 milhões de pessoas. A projeção é que esse número alcance 75,3 milhões até 2070.
Neste ano, a metodologia ganhou respaldo científico. Um ensaio clínico randomizado da Faculdade de Medicina da USP acompanhou 207 idosos saudáveis — que não eram alunos da rede — durante 18 meses e registrou ganho de 45% em memória, melhora de 11% nas funções executivas e redução de 29% nos sintomas depressivos entre os praticantes do método.
O estudo, publicado na revista International Psychogeriatrics, mediu ganhos cognitivos, não a prevenção de doenças como o Alzheimer.
Para Perpétuo, o mercado segue um caminho semelhante ao das academias de ginástica. "20, 30 anos atrás, só atletas treinavam. Hoje todo mundo treina, todo mundo sabe que isso é uma necessidade", diz.
Como a Supera expandiu a rede de franquias pelo Brasil
A expansão por franquias estava prevista no plano de negócios desde o início. A lógica era crescer rapidamente antes que o modelo fosse copiado.
Os primeiros interessados apareceram antes do previsto, e a Supera começou a franquear ainda no primeiro ano de operação.
Em 2018 e 2019, a rede ultrapassou a marca de 300 unidades. A pandemia, que atingiu em cheio o setor educacional, provocou o fechamento de parte das operações. Hoje, com 250 unidades, a empresa tenta retomar o ritmo de expansão.
Quer receber uma mentoria gratuita no seu negócio? Inscreva-se no Choque de GestãoO investimento inicial parte de R$ 159 mil, com rentabilidade média de 25%, segundo a empresa. O foco está em cidades com mais de 30 mil a 40 mil habitantes que ainda não contam com uma unidade.
Além das escolas, a rede atua com treinamentos corporativos e projetos dentro de instituições de ensino.
O desafio da Supera para crescer em um Brasil que envelhece
Se o envelhecimento da população favorece o negócio, a renda das famílias impõe um freio à expansão.
Perpétuo afirma que o crescimento está abaixo do esperado. Há interessados em se matricular, mas sem recursos para pagar pelo curso.
"Na verdade, ela já chegou. É que não fala muito ainda, mas ela chegou", afirma, sobre a crise.
Ainda assim, o fundador considera que o modelo já foi comprovado. Em duas décadas, a rede afirma ter atendido cerca de 280 mil alunos.
Aos franqueados, a empresa oferece um argumento que vai além do retorno financeiro. Para Perpétuo, abrir uma unidade significa "empreender com sentido maior", em um negócio capaz de transformar a vida das pessoas.
A escola criada para ajudar um filho encontrou seu principal mercado em uma população que envelhece — e quer chegar à velhice com o cérebro em forma.
