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NegóciosMPOL
27/07/2026
6 min

Aos 66 anos, ele lidera a maior 'academia do cérebro' do Brasil e mira R$ 200 milhões

Aos 66 anos, ele lidera a maior 'academia do cérebro' do Brasil e mira R$ 200 milhões

Antes de fundar a Supera, Antônio Carlos Guarini Perpétuo já havia empreendido em setores tão distintos quanto uma fábrica de foguetes antigranizo e uma rede varejista. Ainda estudante de engenharia aeronáutica no ITA, chegou a montar um carrinho de batatas fritas na porta de outra universidade. Nenhum desses negócios, porém, nasceu de uma motivação tão pessoal quanto a Supera.

Vinícius, o filho caçula, tinha 9 anos quando começou a enfrentar dificuldades de aprendizagem. Depois de tentar reforço escolar, terapias e uma rotina de estudos mais rígida, Perpétuo encontrou uma alternativa no soroban, o tradicional ábaco japonês. O que começou como a busca por uma solução dentro de casa se transformou no maior negócio de sua carreira.

Duas décadas depois, a Supera tem 250 unidades em todos os estados brasileiros, 28 mil alunos e faturou R$ 187 milhões em 2025. Para 2026, a projeção é crescer cerca de 17% e ultrapassar os R$ 200 milhões.

Ao longo da trajetória, o perfil do público mudou completamente. Hoje, 85% dos alunos têm mais de 50 anos — e quase 80% já passaram dos 60.

"A gente praticamente inaugurou um segmento no Brasil", afirma Perpétuo.

Como surgiu a maior rede de 'academias do cérebro' do Brasil

Foi pesquisando maneiras de ajudar o filho que Perpétuo conheceu o soroban, instrumento criado há mais de dois mil anos e tradicionalmente utilizado em países como Japão e China. No Brasil, a prática estava concentrada na comunidade japonesa — e os relatos de crianças que haviam superado dificuldades escolares o convenceram de que havia ali uma oportunidade.

O engenheiro tratou a ideia como qualquer outro empreendimento. Fez uma pesquisa de mercado, elaborou um plano de negócios e, em 2006, abriu a primeira escola em São José dos Campos (SP), onde a empresa mantém sua sede.

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O risco era apostar em uma ferramenta analógica em plena aceleração digital. "Poderia existir uma resistência muito grande da sociedade em dar esse passo para trás", afirma.

Em meio à preocupação com o excesso de telas, o ábaco deixou de parecer ultrapassado para se tornar um diferencial, favorecendo a proposta da Supera.

Na prática, o soroban é uma moldura com hastes e contas deslizantes que representam as casas decimais. Diferentemente da calculadora, ele não faz as contas pelo aluno: soma, subtração, multiplicação e até raiz quadrada exigem cálculo mental do início ao fim.

Em uma aula típica, o aluno trabalha com o ábaco em uma mão e o lápis na outra — em exercícios como o ditado, ouve os números, faz a conta nas hastes e registra resultados e acertos na apostila, combinando escuta, coordenação motora e memória.

Hoje, o soroban é uma das seis ferramentas do método, ao lado de livros de exercícios cognitivos, jogos de tabuleiro, dinâmicas em grupo, neuróbicas e uma plataforma digital. As aulas são semanais, têm duas horas de duração e fazem parte de um ciclo estimado de 18 meses. As mensalidades variam entre R$ 400 e R$ 450.

Por que os idosos se tornaram o principal público da Supera

Nos primeiros anos, a Supera cresceu entre famílias interessadas em melhorar o desempenho escolar dos filhos. Hoje, os brasileiros acima de 60 anos dominam a operação, uma mudança que acompanha a transformação demográfica do país.

Segundo a PNAD Contínua, do IBGE, os brasileiros com 60 anos ou mais já representam 16,6% da população, cerca de 35 milhões de pessoas. A projeção é que esse número alcance 75,3 milhões até 2070.

Neste ano, a metodologia ganhou respaldo científico. Um ensaio clínico randomizado da Faculdade de Medicina da USP acompanhou 207 idosos saudáveis — que não eram alunos da rede — durante 18 meses e registrou ganho de 45% em memória, melhora de 11% nas funções executivas e redução de 29% nos sintomas depressivos entre os praticantes do método.

O estudo, publicado na revista International Psychogeriatrics, mediu ganhos cognitivos, não a prevenção de doenças como o Alzheimer.

Para Perpétuo, o mercado segue um caminho semelhante ao das academias de ginástica. "20, 30 anos atrás, só atletas treinavam. Hoje todo mundo treina, todo mundo sabe que isso é uma necessidade", diz.

Como a Supera expandiu a rede de franquias pelo Brasil

A expansão por franquias estava prevista no plano de negócios desde o início. A lógica era crescer rapidamente antes que o modelo fosse copiado.

Os primeiros interessados apareceram antes do previsto, e a Supera começou a franquear ainda no primeiro ano de operação.

Em 2018 e 2019, a rede ultrapassou a marca de 300 unidades. A pandemia, que atingiu em cheio o setor educacional, provocou o fechamento de parte das operações. Hoje, com 250 unidades, a empresa tenta retomar o ritmo de expansão.

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O investimento inicial parte de R$ 159 mil, com rentabilidade média de 25%, segundo a empresa. O foco está em cidades com mais de 30 mil a 40 mil habitantes que ainda não contam com uma unidade.

Além das escolas, a rede atua com treinamentos corporativos e projetos dentro de instituições de ensino.

O desafio da Supera para crescer em um Brasil que envelhece

Se o envelhecimento da população favorece o negócio, a renda das famílias impõe um freio à expansão.

Perpétuo afirma que o crescimento está abaixo do esperado. Há interessados em se matricular, mas sem recursos para pagar pelo curso.

"Na verdade, ela já chegou. É que não fala muito ainda, mas ela chegou", afirma, sobre a crise.

Ainda assim, o fundador considera que o modelo já foi comprovado. Em duas décadas, a rede afirma ter atendido cerca de 280 mil alunos.

Aos franqueados, a empresa oferece um argumento que vai além do retorno financeiro. Para Perpétuo, abrir uma unidade significa "empreender com sentido maior", em um negócio capaz de transformar a vida das pessoas.

A escola criada para ajudar um filho encontrou seu principal mercado em uma população que envelhece — e quer chegar à velhice com o cérebro em forma.

AutorIsabela Rovaroto
FonteExame
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