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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
12/09/2026
7 min

Aos 7 anos, vigiava carros para comprar um Kichute. Hoje, sua rede de academias fatura R$ 48 milhões

Roberto Oliveira passou por feira, peixaria e supermercado antes de criar a Corpo e Saúde, que tem 44 unidades abertas, outras 26 em implantação

Aos 7 anos, vigiava carros para comprar um Kichute. Hoje, sua rede de academias fatura R$ 48 milhões

Aos 7 anos, Roberto Oliveira queria um Kichute, tênis que virou febre entre crianças e adolescentes nas décadas de 1970 e 1980.

O dinheiro em casa não dava para o calçado. Filho de um caminhoneiro e de uma feirante, ele entrou escondido na Kombi da mãe, foi até a feira onde os pais trabalhavam, em Brasília, e começou a vigiar carros.

Em um fim de semana, juntou o suficiente para comprar o par.

Logo percebeu que poderia ganhar mais. Na feira, Oliveira começou a observar mulheres carregando sacolas pesadas. Pegou emprestado o carrinho de mão de um vizinho e passou a cobrar para levar as compras até a casa das clientes. Depois comprou outros carrinhos e colocou mais gente para trabalhar.

Era o início de uma flama empreendedora que, décadas mais tarde, desembocaria na Corpo e Saúde, rede de academias criada por ele em 1998 e que faturou 48 milhões de reais em 2025.

Agora, Oliveira tenta fazer a maior expansão da história da empresa. A Corpo e Saúde tem 44 academias em funcionamento e outras 26 unidades vendidas e em implantação.

A meta é encerrar 2026 com 70 unidades abertas, chegar a 100 contratos assinados e alcançar faturamento de cerca de 60 milhões de reais.

O movimento começou depois da pandemia, quando grandes redes aceleraram a abertura de academias pelo país. Oliveira entendeu que permanecer concentrado em Brasília e cidades próximas poderia colocar o negócio em risco. “Começou a abrir academia em cima de academia. Eu percebi: ‘Opa, se eu não crescer, vou ser engolido’”, diz.

O próximo passo é ir além do Brasil. Para 2027, Oliveira pretende abrir mais 100 unidades, entre próprias e franqueadas, e levar a Corpo e Saúde para outros países da América Latina. Segundo o empresário, já existem conversas para entrar no México e no Paraguai.

Qual é a história de Oliveira

Antes das academias, Oliveira passou por diferentes negócios.

Ele nasceu em Minas Gerais e chegou a Brasília aos 3 anos com os pais e quatro irmãos. A família vivia em uma casa alugada nos fundos de outro imóvel. O pai trabalhava como motorista de caminhão de um frigorífico e levava peixes de São Paulo para Brasília. A mãe revendia parte da mercadoria em uma feira.

Foi nesse ambiente que Oliveira começou a trabalhar. Depois dos fretes com carrinhos de mão, veio uma oportunidade maior.

Aos 14 anos, o dono do frigorífico onde seu pai trabalhava o chamou para cuidar da venda de peixes em feiras de cidades do Distrito Federal. Aos 17, comprou sua própria banca.

O negócio durou pouco. Oliveira decidiu trabalhar como representante comercial e passou a vender produtos para pequenas mercearias da região. Mais tarde, alugou uma pequena loja da mãe e abriu um mercado.

O começo exigiu negociação com fornecedores. Sem dinheiro para comprar caixas inteiras de produtos, tentava convencê-los a fracionar os pedidos.

“Eu não tinha dinheiro para comprar caixas fechadas. Insisti tanto com um atacadista que ele começou a vender metade das embalagens para mim. Foi assim que consegui montar meu primeiro estoque”, diz.

O mercado cresceu. Oliveira comprou um terreno ao lado, ampliou a operação e adicionou padaria, açougue e hortifrúti. Depois vieram outras lojas.

Mas, após alguns anos, ele queria sair do varejo.

Como nasceu a Corpo e Saúde

A mudança de setor começou em uma conversa com o contador.

Oliveira estava insatisfeito com os supermercados e queria vender o negócio. O contador sugeriu que ele conhecesse o mercado de academias, que ganhava espaço naquele momento.

Oliveira não tinha experiência no setor.

Em 1998, viajou para São Paulo acompanhado de um profissional que trabalhava em academia para conhecer fornecedores e entender a operação. Usou os andares superiores de um prédio onde funcionava um de seus supermercados, em Taguatinga, no Distrito Federal, para abrir a primeira Corpo e Saúde.

A estrutura inicial tinha três esteiras, cerca de oito equipamentos e uma operação pequena.

A segunda unidade mudou o tamanho do negócio. Na mesma semana da inauguração, uma academia conhecida da região fechou as portas. Segundo Oliveira, cerca de 600 clientes migraram para a Corpo e Saúde.

A nova unidade chegou a operar acima da capacidade. “Nós chegamos ao ponto de recusar entrada de aluno de tão cheia que era a academia”, afirma.

Vieram então a terceira, a quarta e outras unidades. Durante anos, porém, o crescimento aconteceu principalmente com operações próprias e próximas de Brasília.

Qual foi o desafio na pandemia

O período mais delicado veio em 2020. Com as academias fechadas durante a pandemia, Oliveira usou a reserva financeira da empresa e buscou empréstimos bancários para manter a operação e os funcionários.

Quando as unidades começaram a reabrir, a empresa havia acumulado dívidas.

Oliveira afirma que chamou fornecedores e credores para explicar a situação e renegociar pagamentos. A recuperação veio com a retomada da procura pelas academias.

O problema é que o mercado para o qual ele voltou já começava a mudar. Redes de academia de baixo custo, conhecidas como low cost, aceleravam sua expansão, com operações padronizadas, mensalidades menores e grandes volumes de alunos.

Foi nesse momento que Oliveira decidiu transformar a Corpo e Saúde emfranquia.

A empresa levou cerca de um ano para estruturar processos e começou a franquear a marca em 2024. Primeiro, concentrou a expansão no Distrito Federal e em Goiás. Depois avançou para outros estados.

Hoje, a rede já tem presença em cidades de Goiás, Mato Grosso e Pernambuco e prepara novas unidades no Nordeste.

Quanto custa abrir uma Corpo e Saúde

Uma franquia da Corpo e Saúde exige investimento de aproximadamente 2,5 milhões a 3 milhões de reais, dependendo das condições do imóvel.

A mensalidade para os alunos parte de cerca de 120 reais.

A companhia tenta se diferenciar das grandes redes de baixo custo adicionando serviços que nem sempre aparecem nesse modelo. Entre eles estão piscinas para natação e hidroginástica, aulas coletivas e o chamado Espaço Mulher, área exclusiva para o público feminino.

As piscinas são cobertas, aquecidas e tratadas com ozônio. A rede oferece ainda atividades para crianças e bebês.

A estratégia também passa por adaptar as academias ao local onde são abertas, em vez de reproduzir exatamente o mesmo formato em todas as cidades.

Uma das novas apostas é o CT Corpo e Saúde, modelo de academia maior e com mais equipamentos. Uma unidade no Gama, no Distrito Federal, tem 1.800 metros quadrados de academia e outros 1.800 metros quadrados de estacionamento.

Quais são os desafios da expansão

A corrida para chegar a 100 contratos acontece em um cenário que Oliveira considera mais difícil para consumidores e investidores.

De um lado, parte dos brasileiros ainda trata academia como um gasto que pode ser cortado quando o orçamento aperta. De outro,juros elevados tornam mais caro financiar os milhões de reais necessários para abrir uma unidade.

“Se nós tivéssemos uma economia um pouco mais favorável e o poder de compra do brasileiro não estivesse tão achatado, com certeza estaríamos com muito mais academias”, afirma.

O custo também afeta quem pretende comprar uma franquia.

Segundo Oliveira, potenciais investidores postergam a decisão diante do custo do crédito. Ao mesmo tempo, despesas das próprias academias cresceram.

Ainda assim, a empresa mantém a meta de expansão.

Das 70 unidades que Oliveira espera ter abertas até dezembro, 44 já estão operando e 26 foram comercializadas e estão em implantação. Para atingir os 100 contratos previstos para 2026, portanto, a companhia ainda precisa vender outras 30 unidades.

Expansão internacional

Se cumprir o plano de 2026, a Corpo e Saúde pretende acelerar novamente no ano seguinte.

Oliveira fala em outras 100 unidades em 2027, entre operações próprias e franquias. A expansão nacional deve priorizar cidades com mais de 100 mil habitantes.

Ao mesmo tempo, a empresa começou a avaliar sua primeira operação internacional.

México e Paraguai são os primeiros mercados na lista. As negociações ainda não representam unidades fechadas, mas mostram a mudança de escala pretendida por Oliveira quase três décadas depois de abrir sua primeira academia sobre um supermercado em Taguatinga.

“Empreender é ver oportunidades onde a maioria das pessoas enxerga apenas dificuldades. Foi isso que mudou minha vida”, diz.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
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