Aos 71, maior festa sertaneja do Brasil investe R$ 30 milhões para atrair quase 1 milhão de pessoas
Antes de abrir os portões, evento já vendeu ingresso para 2.700 cidades e deve movimentar R$ 600 milhões na economia local

Mais de 120 shows, cinco palcos e nove modalidades de rodeio funcionando quase sem parar, dia e noite, por 11 dias seguidos.
É assim, entre 20 e 30 de agosto, que quase 1 milhão de pessoas se encontram em Barretos, no interior de São Paulo.
Toda essa operação é tocada pela Associação Os Independentes, entidade sem fins lucrativos que criou a Festa do Peão de Barretos há sete décadas.
Na 71ª edição, o evento deve movimentar 600 milhões de reais e receber 990 mil visitas, segundo a organização. Só com a venda de ingressos, o faturamento previsto é de 150 milhões de reais.
A esse valor somam-se os patrocínios, o estacionamento, a feira comercial e a praça de gastronomia.
A edição de 2026 chega com mais de 30 milhões de reais em obras. O Parque do Peão, complexo de mais de 2 milhões de metros quadrados, recebeu novos camarotes, cobertura permanente na área premium e um telão suspenso, o Jumbotron, que passou a suportar 35 toneladas, ante as 9 toneladas do equipamento anterior.
"O turista tem que chegar e tomar um choque em relação ao que viu no ano passado", diz Jeronimo Muzeti, presidente da Associação Os Independentes. "Desde que o evento veio para o Parque do Peão, nunca paramos de investir."
Para o futuro, a aposta da associação é manter o público em expansão sem perder a base tradicional. A festa deixou de ser um evento de bate e volta e passou a receber turistas que ficam três, quatro dias na região, movimentando a rede hoteleira, o transporte e o comércio de Barretos e cidades vizinhas meses antes de agosto.
Qual é a história da Festa do Peão de Barretos
A história começou em 1955, quando um grupo de 20 jovens de Barretos se reuniu em uma mesa de bar e fundou a associação Os Independentes.
Para entrar no grupo, era preciso ser maior de idade, solteiro, financeiramente independente e ligado à agropecuária local. O objetivo inicial era promover festas para arrecadar fundos para entidades assistenciais da região.
Um ano depois, em 1956, aconteceu a primeira Festa do Peão de Boiadeiro, sob a lona de um velho circo. Já naquela edição, o rodeio era a atração principal. Os mesmos peões que passavam meses viajando pelo país viraram estrelas do evento.
"Fizeram uma ata dessa reunião em julho de 1955 e, um ano depois, realizaram o primeiro evento", diz Muzeti. "Não foi uma festa improvisada. Teve planejamento, e por isso já nasceu vencedora."
A regra de entrada continua quase igual até hoje: é preciso ter mais de 21 anos e ser solteiro no momento do ingresso. A associação tem cerca de 100 membros efetivos e, para renovar o quadro, aprova novos integrantes a cada ano, escolhidos entre voluntários que passaram anos trabalhando na festa.
Onde acontece o evento
O evento passou por diferentes fases até a mudança para o Parque do Peão, em 1985. Quatro anos depois, foi inaugurado o Estádio de Rodeios, projetado por Oscar Niemeyer.
O complexo ocupa mais de 210 hectares e recebe eventos ao longo de todo o ano.
Para 2026, são mais de 30 obras no parque. A área premium do Estádio de Rodeios ganhou 1,6 mil metros quadrados de ampliação, com dois novos camarotes.
Mais de 10 mil metros quadrados de pavimentação foram trocados por piso intertravado nas áreas de acesso, e a portaria principal foi reformada para melhorar o fluxo de veículos e pedestres.
No camping, com capacidade para 20 mil pessoas por dia, foram instaladas cabanas dentro do complexo, além de novos banheiros de alvenaria climatizados. A estrutura mantém serviços implantados em 2025, como salão de beleza, lavanderia e área gourmet.
"O Parque do Peão hoje é o maior parque de eventos do país", afirma Muzeti. "Quando eu falo do que conheço de parque, ninguém tem a estrutura que Barretos tem."
Como está a preparação para a próxima edição
A 71ª edição já registrou venda de ingressos para mais de 2.700 cidades brasileiras.
Todos os estados do país tiveram vendas, com São Paulo à frente: 98% dos municípios paulistas já compraram ingressos. Em seguida aparecem Rio de Janeiro, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.
Em números absolutos, Minas se destaca, com 629 cidades confirmadas, o equivalente a 74% dos municípios do estado.
A demanda atual supera em mais de 100% a projeção inicial de vendas. A antecipação movimenta a economia da região meses antes do evento, com reflexos na hotelaria, no transporte, no comércio e na alimentação de Barretos e cidades vizinhas.
A estimativa é de mais de 10 mil empregos diretos e indiretos no período que antecede e acompanha a festa.
Em 2025, a festa registrou 990 mil visitas ao longo de 11 dias, com permanência média de cinco dias e gasto médio de 605 reais por pessoa a cada dia, segundo pesquisa do CIET/Setur-SP.
Naquela edição, 55% do público veio do Estado de São Paulo, e o evento recebeu visitantes de todos os 26 estados e do Distrito Federal.
Como é o modelo de negócios da associação
A receita da festa vem de várias frentes. Além dos ingressos, entram patrocínios, estacionamento, feira comercial e gastronomia. A festa reúne cerca de 150 expositores na feira comercial e na praça de alimentação e, em 2025, a loja oficial vendeu mais de 64 mil produtos.
Uma mudança no modelo de cobrança dos lojistas ajuda a explicar o salto de faturamento. Antes, quem queria montar um ponto de venda pagava uma taxa fixa. A associação passou a cobrar um percentual sobre o que cada expositor vende.
"Todos passaram a pagar dez vezes mais do que pagavam antes, mas não deixaram de vir", diz Muzeti. "A festa dá resultado para todo mundo, e todos voltaram este ano."
Nos patrocínios, a festa reúne cerca de 12 marcas. A Ambev está no evento desde 1978 e é a patrocinadora mais longeva. A Volkswagen, que já esteve presente por muitos anos, voltou nesta edição.
Uma operação que emprega milhares
A escala da festa se reflete na operação. São cerca de 5 mil funcionários trabalhando durante o evento, entre limpeza, segurança, manutenção e controle de acesso. Só na limpeza dos banheiros — o parque tem mais de mil vasos sanitários —, são quase 500 pessoas.
A segurança conta com 600 profissionais e cerca de 400 policiais por dia.
Durante os 11 dias, passam pelo parque aproximadamente 41 mil automóveis, além de 1.050 ônibus e 1.586 vans.
O público consumiu mais de 1 milhão de latas de cerveja e mais de 450 mil garrafas de água em 2025.
O rodeio, atração central, reúne cerca de 3,5 mil competidores em nove modalidades, entre elas montaria em touro, sela americana e três tambores. A premiação passa de 1,5 milhão de reais.
A festa também mantém um braço social. Em 2025, foram mais de 8 milhões de reais arrecadados para o Hospital de Amor e mais de 30 toneladas de alimentos recolhidas em uma noite beneficente. Se um dia a associação for dissolvida, todo o patrimônio será destinado às entidades assistenciais da cidade — regra que vem da fundação, em 1955.
